“A reforma da cúria favorecerá a colegialidade”. Entrevista com Óscar Maradiaga

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Por: André | 03 Dezembro 2014

Desde que se tornou o coordenador do conselho dos cardeais que ajuda o Papa na reforma da cúria e no governo da Igreja universal, o arcebispo de Tegucigalpa, Óscar Andrés Rodríguez Maradiaga (foto), encontra-se frequentemente em Roma. Salesiano de quase 72 anos, cardeal desde 2001 e presidente da Cáritas Internacional, recebe-nos na residência Santa Marta, poucos dias antes do novo encontro do C9.

 
Fonte: http://bit.ly/1yAXWPz  

A entrevista é de Andrea Tornielli e publicada no sítio Vatican Insider, 02-12-2014. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

Há quem critica seu trabalho e diz que este trabalho de reforma da cúria não deu resultados. Está acontecendo ou não?

Em primeiro lugar, queria dizer que a reforma está avançado. O primeiro passo foi a criação da Secretaria para a Economia, e está dando grandes passos. Era o primeiro ponto da agenda: fizemos três reuniões do conselho só sobre este tema e em fevereiro nasceu a Secretaria. Na reunião de julho ainda trabalhamos sobre isto. Não se veem tanto os efeitos externamente, mas internamente há grandes mudanças em andamento: agora cada dicastério deve apresentar seu orçamento, que será público.

Como vai o trabalho sobre os meios de comunicação do Vaticano?

Há problemas econômicos para as comunicações sociais, para os meios vaticanos: não é fácil sustentar os gastos sem anúncios publicitários. Como se sabe, há uma comissão especial, nomeada pelo Papa, que está se ocupando de estudar a situação. Não é fácil, há muito pessoal, muitas línguas diferentes, a necessidade de grandes investimentos para as transmissões em onda curta. Mas esperamos o trabalho da comissão.

E a organização dos dicastérios? Nascerão novos entes que englobarão as competências de diferentes pontifícios conselhos?

Os dois entes dedicados aos leigos e à caridade são certos; o Papa já os apresentou aos encarregados dos dicastérios da cúria romana. Claro, foram feitas certas observações; a consulta, além disso, foi feita justamente para isso. Há detalhes para serem afinados. Mas, na configuração geral, creio que se podem definir como projetos já em andamento.

Serão congregações os dois entes sobre os leigos e sobre a caridade (que deveriam englobar os leigos, a família, os migrantes, a pastoral para os agentes de saúde, Cor Unum e Justiça e Paz)?

Sim, essa é a intenção. Serão duas congregações. Mas não serão a soma aritmética do que já existe. Porque, em primeiro lugar, como congregações terão um estatuto jurídico diferente dos pontifícios conselhos. E depois, também é necessário que haja um cardeal ou um bispo encarregado de cada dicastério; por exemplo: um casal de leigos poderia ocupar-se da família; dos migrantes, uma religiosa que tenha competências específicas sobre o tema, como uma religiosa das scalabrinianas.

Qual é o objetivo da reforma da cúria?

É o de racionalizar e agilizar. Neste momento, há cerca de 30 dicastérios, entre secretários, conselhos e congregações. Como poderia um governante reunir todos os seus ministérios com uma certa regularidade? No passado, isso acontecia uma ou duas vezes ao ano. Como uma instituição pode ser governada? É preciso fazer reuniões e consultas mais frequentemente. Assim, se pode dizer que a simplificação favorecerá a colegialidade. Isto é importante.

A Secretaria de Estado também será reformada?

Sim, também se está estudando sua reforma. O cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado, deve apresentar na próxima reunião um projeto a este respeito.

Pode dar alguns detalhes?

Não, ainda é prematuro; devemos esperar. Creio que um dos pontos será uma distribuição diferente das competências internas. Mas aguardemos...

Também haverá uma reforma das estruturas judiciais?

Isso ainda não foi discutido. Pessoalmente, penso que poderia ter boas perspectivas a ideia de unificar os órgãos que se ocupam da justiça. Se tivermos tempo, discutiremos isso na próxima reunião. Para mim, seria uma boa ideia ter um único ministério da Justiça na Igreja, que inclua a Assinatura Apostólica, a Rota, o dicastério para a interpretação dos textos legislativos e também a Penitenciária Apostólica. Com um único responsável.

Com a reforma da cúria diminuirá o número dos cardeais em serviço nos escritórios da Santa Sé?

Claro, esta é a intenção. A cúria já não pode ser considerada a “corte papal”, nem um supergoverno centralizado da Igreja, mas uma estrutura ágil de serviço ao ministério do Papa.

O que pensa das críticas ao Papa que chegam de alguns ambientes, dos Estados Unidos e de outras partes do mundo?

Creio que o verdadeiro problema não é o debate sobre determinados pontos da doutrina moral ou sobre a disciplina dos sacramentos, como pareceu surgir com as polêmicas nos meios de comunicação durante o recente sínodo. Ao contrário, creio que o verdadeiro ponto é o magistério social do Papa, que representa a doutrina social da Igreja, toda a doutrina social. Há poderes que não gostam que se diga certas coisas sobre os pobres, sobre as consequências da globalização, sobre a idolatria do dinheiro, sobre o mercado divinizado que se converte em uma verdadeira escravidão.

O que achou do debate sobre o recente Sínodo Extraordinário sobre a Família?

Talvez o enfoque da mídia não se concentrou o suficiente nos temas centrais. A própria Relatio post disceptationem atraiu a atenção das pessoas apenas por dois ou três pontos relacionados com as pessoas homossexuais e com a comunhão aos divorciados recasados. Pelo contrário, havia naquele texto um enfoque pastoral riquíssimo, e o Papa decidiu que fosse a base da discussão para o próximo sínodo ordinário. Nesse texto há muitas coisas positivas, belas. Muitas pessoas, infelizmente, nem sequer o leram: há 62 parágrafos, se não estou enganado, mas o foco recaiu apenas sobre dois ou três pontos. Nessas páginas há uma enorme riqueza pastoral, há muitas sugestões, há um enfoque de conjunto sobre os problemas das famílias. Devemos refletir sobre isto: não só sobre os sacramentos aos divorciados ou sobre as pessoas homossexuais.

Dentro de três meses, Francisco completará o segundo ano de seu pontificado. Como as Igrejas percebem o enfoque do Papa Bergoglio?

Em primeiro lugar, o Povo de Deus está encantado com o Papa: as primeiras semanas ou os primeiros meses não foram apenas uma lua de mel. A demonstração está em todas as pessoas que participam das audiências gerais. Segundo: muitíssima gente em todo o mundo reza pelo Papa. É algo extraordinário! Por onde passo, me pedem: “Diga ao Santo Padre que estamos rezando por ele”. Terceiro: os gestos do Papa estão recuperando muitos católicos que haviam se afastado da Igreja. As confissões estão aumentando, as pessoas vêm se confessar e dizem que o fazem porque ficaram surpreendidas com o testemunho do Papa. Escutei isso na Espanha, Alemanha, Itália, França e inclusive na Noruega.

Mas aumentam também as resistências, sobretudo internas...

Claro que há resistências. Embora vivamos no mundo da ideologia do pensamento único, não quer dizer que todos pensem da mesma maneira. Mas, se temos fé, sempre devemos lembrar que ele é Pedro.

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