EUA. Bispos continuam definindo qual será a resposta aos abusos sexuais, apesar do pedido de adiamento do Vaticano

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19 Novembro 2018

Com o término da reunião dos bispos dos EUA em Baltimore, no dia 15 de novembro, a novidade mais interessante ainda é a instrução de última hora do Vaticano, na segunda-feira, para adiar qualquer votação para sancionar novos procedimentos ou lidar com os bispos que tenham abusado de crianças ou não tenham retirado os padres abusadores do ministério.

A instrução, sob a forma de uma carta da Congregação dos Bispos, em Roma, levou caos ao encontro em Baltimore no dia de abertura.

O comentário é de Thomas Reese, jesuíta e jornalista, publicado por Religion News Service, 16-11-2018. A tradução é de Luisa Flores Somavilla.

O Presidente da Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos (USCCB), Cardeal Daniel DiNardo, de Galveston-Houston, expressou abertamente seu descontentamento com a intervenção do Vaticano. Para ele e outros bispos, era como se sua casa estivesse pegando fogo e o Vaticano pedisse para que esperassem um pouco para chamar os bombeiros.

Outros ficaram secretamente aliviados. Outros ainda questionaram as propostas, que foram elaboradas rapidamente, em resposta ao relatório da Suprema Corte da Pensilvânia e ao escândalo do ex-cardeal Theodore McCarrick. Os que queriam que as reformas fossem aprovadas temiam que não conseguiriam os dois terços dos votos necessários. Agora, todos os grupos poderiam ganhar tempo enquanto culpam o Vaticano pela demora em agir.

De qualquer forma, a intervenção do Vaticano foi extremamente decepcionante. Ela contradiz tudo o que Francisco disse sobre empoderar as Conferências dos Bispos e descentralizar a tomada de decisão na igreja. Também foi um desastre em matéria de relações públicas para o Papa, que já está perdendo a confiança dos católicos em relação aos casos de abuso, segundo uma pesquisa realizada em setembro pelo do Pew Research Center: apenas 31% dos católicos estadunidenses consideravam o trabalho do Papa bom ou excelente na forma de lidar com a crise de abusos, em comparação a 55% do ano passado.

Embora DiNardo não tenha divulgado a carta do Vaticano, ele e os demais explicaram que a preocupação era que quaisquer procedimentos decididos pelos bispos americanos poderiam antecipar discussões em uma reunião com os principais bispos do mundo convocada pelo Papa para fevereiro. Se as medidas adotadas nos EUA para lidar com bispos com histórico de mau comportamento forem realmente um modelo para o resto do mundo, a congregação também vê as ações propostas como uma violação de autoridade, já que não tem autoridade sobre os bispos.

O dia foi salvo pelo cardeal Blase Cupich, arcebispo de Chicago, que sugeriu que os bispos continuassem discutindo as propostas e considerando-as como recomendações que DiNardo, como presidente da Conferência, poderia levar para a reunião de fevereiro.

Havia três propostas inter-relacionados na reunião.

A primeira era um documento intitulado "Normas de Conduta Episcopal", que cada bispo teria de assinar. Como a Conferência não tem autoridade canônica sobre os bispos, eles teriam de se comprometer voluntariamente a seguir as normas. Esse sistema voluntário foi uma tentativa de lidar com objeções do Vaticano de que só o Papa pode investigar e julgar os bispos.

O documento de sete páginas também afirma que a “Carta para a Proteção de Crianças e Jovens (Charter for the Protection of Children and Young People)”, de 2002, também se aplica aos bispos, aos sacerdotes e aos diáconos. Além disso, aborda a questão do assédio sexual contra adultos por parte dos bispos e reitera o compromisso dos bispos à Carta, incluindo a denúncia de padres abusivos para a polícia e sua exclusão do ministério. Os bispos também se comprometem a ajudar na aplicação dessas normas e verificar se os candidatos para o episcopado são realmente adequados para o cargo.

A segunda propunha um mecanismo de denúncia por parte de terceiros, que fariam acusações contra os bispos que não observassem as questões mencionadas acima. Muitas organizações têm mecanismos como esse para lidar com a má conduta pela administração. Haveria também a criação de uma linha telefônica para queixas.

Essas queixas seriam encaminhadas para uma comissão especial recomendada em uma terceira proposta. A comissão, composta por seis leigos e três membros do clero, seria encarregada de rever e investigar acusações de violações a normas de conduta episcopal. Os resultados seriam enviados ao Núncio Apostólico, que representa o Papa nos Estados Unidos, já que só o Papa tem autoridade para punir os bispos.

Alguns bispos também questionaram a necessidade de criar uma comissão especial, dizendo que seria melhor que o Arcebispo Metropolitano gerenciasse as investigações dos bispos através da Comissão de Avaliação Arquidiocesana. Se o arcebispo for acusado, a investigação seria liderada pelo bispo mais antigo da província. Isso, claro, traz o mesmo problema de credibilidade de um policial investigar outro policial.

Como as normas citam a carta de 2002, não podem ter aplicação retroativa. Assim, o processo de avaliação poderia investigar apenas os casos em que as crianças não protegidas que acontecessem depois de 2002.

A questão de McCarrick era abordada em outro documento, que descrevia o que fazer com bispos que deixavam o cargo devido a casos de abuso sexual ou por não proteger uma criança. O documento destacava que um bispo diocesano poderia restringir o ministério de qualquer bispo aposentado na sua diocese e sugeria que o Presidente da USCCB poderia desconvidar para as reuniões de conferência. Robert Finn, de Kansas City, James Timlin, de Scranton, e o cardeal Roger Mahony, de Los Angeles, condenados por omitir casos de abuso, participaram da reunião de novembro. Alguns bispos consideram sua presença uma vergonha.

DiNardo nomeou uma força-tarefa com antigos presidentes da USCCB para finalizar as propostas, também refletindo sobre duas opções: criar uma comissão especial ou delegar aos metropolitanos as acusações contra os bispos. Ele também pediu que eles estudassem as diretrizes dos EUA para a publicação dos nomes dos clérigos acusados de terem cometido abuso sexual.

Os pedidos por maior cuidado levantaram questões sobre as normas da divulgação dos nomes dos sacerdotes numa lista pública de criminosos. Os bispos temem divulgar acusações pouco fundamentadas, mas também não querem ser acusados de acobertamento. Alguns preferiram que os conselhos de avaliação diocesanos decidissem os nomes divulgados.

Também se discutiu sobre o que seriam acusações fundamentadas. O bispo Shawn McKnight, de Jefferson City, disse para ele eram acusações "prováveis". Ele também criou outra categoria: "considerado inapto para o ministério pelo Bispo".

Ficou difícil entender o sentido da assembleia, já que não houve votação sobre as propostas. A maioria concordava que sua credibilidade estava em jogo.

DiNardo e outros relataram que os frequentadores de sua paróquia ficaram muito decepcionados com o caso McCarrick. O bispo Liam Cary, de Baker, foi aplaudido ao pedir que a conferência censure McCarrick, mas ninguém tomou a frente.

Muitos bispos pediram um relatório completo da ascensão de McCarrick na Igreja apesar de ter assediado seminaristas sexualmente. Uma resolução ponderada pelos bispos foi incentivar a Santa Sé a liberar toda a documentação das acusações contra McCarrick, mas teve 83 votos positivos contra 137 votos contrários à medida depois da observação de que a Santa Sé já havia prometido divulgar um relatório.

De qualquer forma, o Vaticano e as dioceses onde ele atuou precisam ser honestos.

Por outro lado, alguns bispos como Thomas Olmsted, de Phoenix, continuaram fazendo afirmações sem sentido de que a crise de abusos seria culpa de teólogos dissidentes que se opõem à proibição da contracepção artificial. O arcebispo de San Francisco, Salvatore Cordileone, pediu que fosse realizado um estudo da relação entre a homossexualidade e o abuso sexual.

Os bispos são o problema, não os teólogos nem os homossexuais.

O adiamento coloca ainda mais pressão sobre a reunião de fevereiro convocada pelo Papa para lidar com o abuso clerical. Agora, colocam-se grandes esperanças, talvez irrealistas, na reunião dos presidentes das conferências episcopais. Os bispos dos Estados Unidos estão muito à frente de muitos outros, no mundo inteiro, em relação à crise de abusos, mas essa reunião pode ser outra decepção. Quatro dias não são tempo suficiente para lidar com a crise em nível mundial.

É desanimadora a lentidão da hierarquia em lidar com os casos de abuso sexual e a responsabilidade episcopal. Espero que o tempo seja usado para continuar avaliando os problemas e desenvolvendo melhores políticas e medidas. Enquanto isso, os bispos e o Vaticano precisam reconhecer que a casa está pegando fogo, e as pessoas estão se dirigindo à saída.

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