É possível um cisma na Igreja Católica? Artigo de Thomas Reese

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14 Novembro 2018

“A questão na reunião dos bispos dos Estados Unidos em Baltimore não é o cisma, mas sim a credibilidade. Se os bispos não forem capazes de lidar de maneira credível com o abuso sexual durante a sua reunião em Baltimore, os fiéis não vão se dividir; eles simplesmente vão embora.”

O comentário é do jesuíta estadunidense Thomas J. Reese, ex-editor-chefe da revista America, dos jesuítas dos Estados Unidos, de 1998 a 2005, e autor de O Vaticano por dentro (Ed. Edusc, 1998), em artigo publicado por Religion News Service, 13-11-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Enquanto os bispos católicos dos Estados Unidos se reúnem em Baltimore para discutir questões polêmicas como o abuso sexual clerical e o racismo, algumas pessoas estão falando sobre a ameaça de cisma.

A história mostra que a possibilidade de cisma está sempre presente, mas as probabilidades contra um cisma são altas hoje.

Primeiro, para se ter um cisma, você precisa de pelo menos um bispo interessado em se separar. Se um padre e seus paroquianos decidem se separar da Igreja, isso não é um cisma. Se um padre lidera uma divisão, ela geralmente desaparece quando o padre morre.

Os bispos cismáticos podem ordenar outros bispos e padres, de modo que o afastamento tem uma maior chance de continuidade; o Grande Cisma de 1054 entre o cristianismo oriental e ocidental durou quase 1.000 anos.

Por outro lado, o cisma mais famoso do século XX foi liderado pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre contra muitas das reformas ordenadas pelo Concílio Vaticano II, incluindo o ecumenismo, a liberdade religiosa e a tradução da liturgia ao vernáculo. Em 1988, ele ordenou quatro bispos sem a aprovação do papa, mas levou consigo apenas um número relativamente pequeno de católicos para o cisma. Após sua morte, seu grupo não cresceu significativamente e experimentou suas próprias divisões (Bento XVI também tornou o grupo menos atraente ao permitir um maior uso da missa em latim pré-Vaticano II).

Certamente há bispos que não gostam do modo como o Papa Francisco está liderando a Igreja. O arcebispo Carlo Viganò pediu que o papa renunciasse. Outros, incluindo o cardeal Raymond Burke, criticaram Francisco, mas até agora nenhum deles demonstrou interesse algum em debandar.

Eles o veem como uma aberração que será corrigida pelo próximo papado. Afinal, aos 81 anos de idade, ele é mais velho do que muitos de seus críticos. Eles podem esperar por isso.

Para se ter um cisma, você também precisa de questões verdadeiramente divisivas que rachem a comunidade, não apenas os bispos.

Bispos conservadores se queixaram de que Francisco é excessivamente permissivo ao permitir que católicos divorciados em segunda união comunguem; demasiadamente suave com os católicos que praticam o controle de natalidade; e muito acolhedor aos católicos LGBT. No entanto, pesquisas de opinião pública mostram que os católicos, até mesmo aqueles que frequentam a Igreja semanalmente, são muito mais liberais do que o papa nessas questões.

Embora blogueiros e comentaristas conservadores possam reclamar dessas questões, os fiéis não vão seguir um bispo ao cisma porque querem que as regras sobre o controle de natalidade, o divórcio e a homossexualidade sejam rigorosamente cumpridas.

Os sentimentos são mais fortes em relação ao aborto, mas Francisco expressou repetidas vezes a sua oposição ao aborto, embora, no início de seu reinado, ele tenha indicado que não transformaria a questão em uma “obsessão”, já que todos conhecem a posição da Igreja.

Os temas em discussão na reunião de Baltimore, o abuso sexual e o racismo, certamente são controversos, mas os bispos estão unidos em sua oposição ao racismo e unidos no pânico ao lidar com a crise dos abusos sexuais. Sobre o abuso sexual, a grande divisão não é entre os bispos, mas sim entre os bispos e o seu povo.

Os cismas mais importantes da história tiveram mais a ver com a política do que com a teologia. Isso foi verdade no Grande Cisma e na divisão anglicana com Henrique VIII. Hoje, o cisma entre os fiéis ortodoxos ucranianos e russos tem tudo a ver com a política.

Do mesmo modo, alguns também consideravam que os bispos pertencentes à Associação Patriótica Chinesa estavam em cisma, porque também ordenaram bispos sem a aprovação vaticana. O Vaticano evitava chamá-los de cismáticos, e um dos principais objetivos do recente acordo de Francisco com o governo chinês foi emendar a divisão entre os católicos chineses, mesmo que isso significasse aceitar alguns bispos que o Vaticano nunca teria ordenado voluntariamente.

A Igreja Católica dos Estados Unidos tem sido extraordinariamente bem-sucedida em manter os oponentes políticos no seu redil. Enquanto muitas Igrejas protestantes se dividiram durante a Guerra Civil, a Igreja Católica permaneceu unida. Nas recentes eleições de meio de mandato, os católicos dividiram seu voto entre candidatos republicanos e candidatos democratas, como fizeram na última eleição presidencial, enquanto outras denominações tenderam a votar esmagadoramente em um partido.

Essa unidade está sentindo alguma tensão, mas ainda parece forte. De acordo com o Pew Research Center, 84% dos católicos têm uma opinião favorável sobre Francisco, mas, quando isso é analisado por partido, os números são de 89% para os católicos democratas e de 79% para os católicos republicanos. Este último ainda é um número extraordinariamente alto; qualquer político adoraria ter essa classificação. Mas isso mostra como o partidarismo pode enfraquecer a união.

O Pew também constatou que 55% dos católicos republicanos acham que Francisco é liberal demais. O discurso do papa sobre construir pontes em vez de muros e o seu forte apoio aos refugiados e migrantes vai contra a ortodoxia de Trump. Mas esses republicanos não parecem dispostos a abandonar a Igreja.

Assim como os bispos estadunidenses não parecem prontos para abandonar as sensibilidades de ambos os lados. Embora alguns prefiram se concentrar no aborto, no casamento gay e na liberdade religiosa, nenhum deles tem apoiado as políticas anti-imigrantes do governo Trump. Somente neste ano, a Conferência dos Bispos dos Estados Unidos publicou 21 comunicados de imprensa sobre a a imigração, todos críticos em relação ao governo Trump.

É verdade, eles querem juízes pró-vida nomeados para a Suprema Corte, mas, ao contrário das lideranças evangélicas, os bispos católicos não venderam suas almas ao Partido Republicano. Eles ainda seguem a doutrina social católica, com a sua preocupação pelos trabalhadores, os pobres e os marginalizados. Na verdade, eles se sentem desconfortáveis com ambas os partidos.

A questão em Baltimore não é o cisma, mas sim a credibilidade. Se os bispos não forem capazes de lidar de maneira credível com o abuso sexual durante a sua reunião em Baltimore, os fiéis não vão se dividir; eles simplesmente vão embora.

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