Cisma na Igreja? "É uma chantagem dos tradicionalistas na qual não se deve cair de modo algum". Entrevista especial com Paul Valadier

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Por: Patricia Facchin | 13 Outubro 2018

Os casos de pedofilia envolvendo membros da Igreja nos últimos anos são de “extrema gravidade porque arruínam a confiança em relação ao clero e, de modo mais geral, em relação à Igreja”, diz o filósofo francês à IHU On-Line, na entrevista a seguir, concedida por e-mail. Entretanto, frisa, a crise instalada no interior da Igreja “estende a todos o crime cometido por alguns, o que não deixa de ser injusto” e “pode paralisar o anúncio da Boa Nova, da qual nossos contemporâneos precisam tanto para resgatar a esperança”. Ao refletir sobre esses crimes, Valadier é categórico: “Da minha parte, quase não vejo saída para essa crise. É difícil para todo mundo carregá-la e ela pode ser duradoura”.

Na entrevista a seguir, Valadier também comenta as especulações acerca de um possível cisma dentro da Igreja por conta daqueles que se opõem ao pontificado de Francisco. “Não acredito muito na possibilidade de um cisma. Trata-se de uma chantagem dos tradicionalistas na qual não se deve cair de modo algum. Como sempre, eles agem sobre o medo, não sobre a fé no Espírito Santo. Mas essa tendência é certamente perigosa porque é influente”, diz.

O filósofo francês também comenta rapidamente sobre o encontro do papa Francisco com o presidente Emmanuel Macron, em junho deste ano, e os debates acerca do multiculturalismo por conta da chegada de imigrantes muçulmanos à França. “O multiculturalismo é tema de intensos debates, porque a nação francesa se construiu historicamente numa centralização unificadora e assimiladora. A escola republicana desempenhou esse papel durante muito tempo para integrar os recém-chegados. Mas estes (poloneses, italianos, portugueses, espanhóis) eram de tradição católica, diferentemente de uma chegada maciça de populações de tradição muçulmana. Isso levanta uma questão grave: essas populações podem se integrar aos nossos costumes? A resposta, a meu ver, está longe de ser afirmativa, e isso nos traz um grave problema para o futuro. Seremos capazes de resolvê-lo sem tensões graves? Temo que não”, conclui.

Paul Valadier | Foto: Acervo IHU

Paul Valadier, jesuíta, é professor emérito de filosofia moral e política nas Faculdades Jesuítas de Paris (Centre Sèvres). É licenciado em Filosofia pela Sorbonne, mestre e doutor em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Lyon. Foi redator da revista Études e é autor de uma vasta bibliografia. Escreveu, entre outros, Nietzsche et la critique du christianisme (Paris: Cerf, 1974); Essais sur la modernité, Nietzsche, l’athée de rigueur (Paris: DDB, 1989); La part des choses. Compromis et intransigeance (Paris: Lethielleux – Groupe DDB, 2010); e Elogio da consciência (São Leopoldo: Unisinos, 2001).

Paul Valadier esteve na Unisinos recentemente participando do evento XXI Colóquio Internacional de Filosofia Unisinos Nietzsche: os 130 anos da Genealogia da Moral, no qual ministrou a conferência de abertura intitulada “Nietzsche, Genealogia e Niilismo”.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como avalia o pontificado do papa Francisco? Quais são as novidades e os desafios do pontificado?

Paul Valadier - O papa Francisco logo conquistou a opinião pública pela simplicidade de seus gestos e pela sua humildade perante a multidão em sua primeira aparição na Basílica de São Pedro, em Roma. Sobretudo, pela reafirmação de sua vontade reformadora. Essa é até mesmo uma das prioridades de seu pontificado. Ele repetiu isso veementemente diversas vezes, talvez com certa inabilidade diante dos cardeais da Cúria. Mas percebemos bem que as resistências não vêm somente da Cúria romana.

IHU On-Line - O que os recentes casos de escândalo sexual envolvendo a Igreja significam? Eles têm um peso diferente neste momento ou não? Existe o risco de cisma na Igreja?

Paul Valadier - Os escândalos ligados à pedofilia são certamente de extrema gravidade porque arruínam a confiança em relação ao clero e, de modo mais geral, em relação à Igreja. Da minha parte, quase não vejo saída para essa crise. É difícil para todo mundo carregá-la e ela pode ser duradoura. Ela estende a todos o crime cometido por alguns, o que não deixa de ser injusto. Principalmente, ela pode paralisar o anúncio da Boa Nova, da qual nossos contemporâneos precisam tanto para resgatar a esperança.

Não acredito muito na possibilidade de um cisma. Trata-se de uma chantagem dos tradicionalistas na qual não se deve cair de modo algum. Como sempre, eles agem sobre o medo, não sobre a fé no Espírito Santo. Mas essa tendência é certamente perigosa porque é influente.

IHU On-Line - Qual tem sido a repercussão, na França, do processo do cardeal-arcebispo de Lyon, Philippe Barbarin, processado por não relatar os abusos sexuais ocorridos em sua diocese?

Paul Valadier - Sem dúvida, o questionamento do cardeal Barbarin pelos tribunais civis tem grandes repercussões junto à opinião pública. Mas podemos constatar que certa obstinação em perseguir o homem acaba também por se exaurir e se volta em favor do cardeal.

IHU On-Line - Como o papa Francisco é visto na França?

Paul Valadier - A admiração pelo papa Francisco é muito forte na França. Vai bem além dos católicos. Há maiores reservas da parte dos círculos tradicionalistas no seio da Igreja, porque esse papa desconcerta. Mas a sua encíclica Laudato Si' teve uma acolhida muito grande e de admiração. Ela trouxe uma mensagem para todo mundo. Qual autoridade espiritual mundial poderia tê-la feito?

IHU On-Line - Como o senhor avalia o recente encontro entre o papa Francisco e Macron, no qual eles conversaram sobre imigrações, as questões climáticas, e as perspectivas para um projeto europeu? Qual é o significado político desse encontro e o que ele sinaliza em termos políticos, religiosos e culturais?

Paul Valadier - O Papa parece ter ficado feliz de ver em Macron um presidente jovem, fervoroso, cheio de ideias, convencido da catástrofe ecológica e da necessidade da construção europeia. Houve, sem dúvida, menos concordância quanto ao problema dos imigrantes! Além disso, Macron está convencido de que as Igrejas podem e devem contribuir para a vida pública, como disse grandiosamente perante os bispos franceses em junho.

IHU On-Line - Como o multiculturalismo tem sido discutido na França nos últimos anos?

Paul Valadier - O multiculturalismo é tema de intensos debates, porque a nação francesa se construiu historicamente numa centralização unificadora e assimiladora. A escola republicana desempenhou esse papel durante muito tempo para integrar os recém-chegados. Mas estes (poloneses, italianos, portugueses, espanhóis) eram de tradição católica, diferentemente de uma chegada maciça de populações de tradição muçulmana. Isso levanta uma questão grave: essas populações podem se integrar aos nossos costumes? A resposta, a meu ver, está longe de ser afirmativa, e isso nos traz um grave problema para o futuro. Seremos capazes de resolvê-lo sem tensões graves? Temo que não.

É essa preocupação que mobiliza a extrema direita. Há o temor de que a França perca a sua identidade cultural, e isso também motiva as dúvidas relativas à União Europeia, que, de fato, gera uma perda de soberania nacional. Mas a eleição de Emmanuel Macron também mostrou que os franceses resistem ao canto das sereias nacionalistas. As próximas eleições europeias fazem temer uma vitória da extrema direita, como na Áustria ou na Itália.

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