Para teólogo, adiamento de normativas sobre abuso sexual mostra as tensões entre a Igreja de Francisco e os Estados Unidos

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16 Novembro 2018

Faggioli em entrevista ao IHU 
Foto: João Vitor Santos - IHU

Dr. Massimo Faggioli é professor do departamento de teologia e estudos religiosos na Universidade de Villanova e escritor da Commonweal e da La Croix Internacional. Seu último livro publicado em inglês é Catholicism and Citizenship. Political Cultures of the Church in the 21st Century (Liturgical Press, 2017).

O teólogo italiano conversou com Charles Camosy sobre a situação da Igreja nos EUA e a recente intervenção do Vaticano, que interrompeu a votação da Conferência dos Bispos sobre os novos padrões relacionados aos casos de abuso sexual.

A entrevista é de Charles C. Camosy, publicada por Crux, 15-11-2018. A tradução é de Luisa Flores Somavilla.

Eis a entrevista. 

É uma época dramática nos EUA e na Igreja Católica. Poderia apresentar uma perspectiva histórica sobre onde nos encontramos como Igreja no momento? O que diria aos católicos desesperados?

Como escrevi no artigo da Foreign Affairs, esta pode ser a pior crise desde a Reforma Protestante, e a Igreja Católica pode estar enfrentando sua crise mais grave em 500 anos. É uma igreja que precisa de reforma institucional e que enfrenta crescentes conflitos políticos, teológicos e geopolíticos que ultrapassam um conflito ideológica simplista entre liberais e conservadores. É o fim do mundo em que havia paralelismo entre Igreja e Estado, sendo a Igreja responsável pela religião e o Estado pela política. Mas também é uma igreja vital, um importante ponto de referência no mundial, com uma tradição intelectual que está sendo redescoberta e sofrendo uma nova inculturação, e longe de ser esquecido.

A boa notícia neste momento de crise de abusos é que ninguém acha que é algo induzido pela mídia ou uma conspiração. Há muito o que fazer: o trabalho realizado sobre políticas e procedimentos já tem uma história e um histórico. O que ainda precisa acontecer é uma reflexão teológica sobre a crise de abusos: o que significa para a nossa compreensão da igreja, dos sacramentos, da liturgia, das relações entre Igreja e Estado.

Como ela deve modificar o modo como ensinamos teologia e, na minha área, a história da Igreja? Este tipo de reflexão está apenas começando, e esta é a grande tarefa para a nova geração de católicos. Não há mudança sistêmica sem uma reflexão teológica sobre a crise - uma reflexão que modifique a cultura da Igreja.

O que o senhor pensa de como o Vaticano está respondendo aos bispos dos Estados Unidos e a seu desejo de votar um código de conduta e um conselho investigativo leigo? Até que ponto o Papa Francisco está envolvido no adiamento?

Acho que é uma decisão que Francisco tomou depois de ouvir e ler os memorandos e documentos sobre a questão. É uma decisão ousada e também impopular, dada a frustração dos católicos estadunidenses. Mas a reunião dos presidentes das Conferências dos Bispos já está sendo preparada - e acontecerá em fevereiro, no Vaticano -, e acho que a decisão comunicada no início da reunião da Conferência dos Bispos dos EUA tem de ser interpretada nesse contexto. Como já disseram, esta decisão aumenta as expectativas para a reunião e a responsabilidade do Vaticano em lidar com esta crise.

Claramente, a relação entre Francisco e a Igreja dos EUA teve tensões desde o início, com um breve hiato em sua viagem para os EUA, em setembro de 2015. Depois, ficou mais tumultuada, principalmente em 2018. Este é um elemento-chave que faz com que a crise de abusos atual na Igreja seja muito diferente de 2002: agora os papéis do Vaticano e dos Bispos dos EUA estão constantemente mudando e é mais difícil enquadrar a situação ideologicamente como "liberais contra conservadores" ou "reforma contra status quo".

Precisamos de uma reforma na Igreja, mas alguns planos propostos pelos leigos anunciados recentemente como pesquisa de oposição política - como por exemplo o “Red Hat Report” (Relatório do Chapéu Vermelho) - são claramente uma ameaça à liberdade religiosa e à liberdade da Igreja. E Roma presta atenção a isso, especialmente depois dos séculos XI e XII, quando surgiu um certo padrão de distinção entre a Igreja e o "Império" - e a liberdade da Igreja, especialmente em relação à eleição do Papa.

É divertido seguir o senhor no Twitter, principalmente pela visão italiana da cultura (católica) estadunidense. A que foi mais difícil de se acostumar na Igreja dos EUA em comparação à da Itália?

Minha família e eu amamos nossa paróquia e nossa escola paroquial, na região da Filadélfia. Essa foi a parte fácil da adaptação ao catolicismo estadunidense. É mais difícil se acostumar com o sistema bipartidário que parece prevalecer na Igreja dos EUA hoje, porque às vezes temos a impressão de que é uma igreja com dois partidos. Neste sentido, o fato de haver polarização política e conflitos teológicos no catolicismo dos EUA é algo único na Igreja Católica mundial. Isso também muda a experiência como católico, não é apenas parte dos meus interesses profissionais e intelectuais. Outras diferenças significativas entre o catolicismo italiano e dos EUA é o papel do dinheiro na Igreja dos nos EUA. Os católicos estadunidenses são muito mais generosos do que os italianos nas doações, e a Igreja italiana recebe dinheiro dos contribuintes graças à Concordata (assim como muitas outras igrejas católicas no mundo).

Outra coisa é o patriotismo dos católicos americanos. Os europeus são muito mais desconfiados, devido às relações problemáticas entre a Igreja e o fascismo no século XX. Em geral, o catolicismo dos EUA é muito mais "militante", especialmente nas questões da vida - que é algo que tem um papel diferente na Itália e na Europa: o modo como países europeus legislaram sobre o aborto, por exemplo - foi muito diferente dos Estados Unidos no caso Caso Roe contra Wade, não apenas em termos processuais, mas também do conteúdo da lei e de seus objetivos. Mas a cultura pró-vida no catolicismo italiano tem um papel marginal, e é algo que os católicos europeus precisam aprender - e eu aprendi - com o catolicismo dos EUA.

Notei algo importante de que você tentou convencer principalmente os teólogos católicos acadêmicos e liberais dos EUA: de que precisamos parar de pensar em um debate desatualizado sobre o papel da autoridade eclesial contra a liberdade acadêmica. Pessoalmente, acredito que os pontos de vista dominantes dos que detêm real autoridade em muitas faculdades e universidades católicas colocam em risco a própria disciplina de teologia. Até mesmo um lugar como Notre Dame teve dificuldades para exigir dois cursos de teologia há alguns anos. Poderia falar mais sobre o que pensa desses assuntos?

Acho que as faculdades e universidades católicas nos Estados Unidos ainda se veem com as cicatrizes de um período que era considerado uma ameaça à liberdade acadêmica: autoridade eclesial contra liberdade acadêmica. Isso também teve efeitos na mudança de "teologia" para "estudos religiosos" e em suas formas de coexistência na educação superior católica. Acredito que agora vivemos outra época. Geralmente, vejo a relação atual entre Igreja e academia menos como uma ameaça e mais como um desafio para nunca negligenciar a missão católica nem considerá-la pronta e acabada.

Hoje, as universidades e faculdades católicas são fortes e independentes o suficiente para proteger a liberdade acadêmica da Igreja. A liberdade das forças de mercado e dos modelos de negócios - esse é um problema diferente que está ameaçando pequenos faculdades católicas e deve ser tratado como uma emergência pela Igreja dos EUA. Por outro lado, acho que é um problema que às vezes o estudo da teologia e da religião nas universidades e faculdades católicas parece estar caminhando para algo como um momento "pós-eclesial" ou "pós-Igreja". Como escrevi no artigo para a Commonweal, acho que seria uma grande perda intelectualmente, algo que não satisfaz as necessidades de uma parcela significativa dos jovens estudantes católicos em sua vida acadêmica e que em longo prazo colocaria em risco a sobrevivência da teologia no mundo acadêmico e da academia católica tout court. Todos os departamentos acadêmicos devem levar a sério o desafio da missão e da identidade católica: mas se os teólogos e os pesquisadores dos estudos religiosos não levarem, é difícil imaginar que outros departamentos o façam.

Além disso, acho que é um erro muito grave que hoje, na maioria das instituições católicas, os requisitos da graduação em teologia e filosofia reduziram-se drasticamente. Penso que essa decisão não vem do medo da Igreja, mas das pressões de um certo "paradigma tecnocrático" - como diz o Papa Francisco em Laudato Si'. Em partes, o problema é quantitativo - quantas faculdades católicas exigem mais de dois cursos como esses - mas também do conteúdo que deve ser ofertado aos estudos religiosos sem substituir totalmente a teologia.

Isso se tornou não apenas um problema para o ensino superior, para a formação de estudantes que não deve ser apenas profissional, mas também um problema eclesial, um problema para a Igreja. Os alunos têm perguntas que não são conservadoras ou liberais; são simplesmente perguntas sobre religião e a Igreja, e se não estivermos dispostos a discuti-las, eles podem tentar encontrar as respostas em algum outro lugar - como, por exemplo, blogues católicos. Isso não é saudável para a comunidade eclesial nem para a tradição intelectual católica.

O senhor tem o hábito generoso e leve de interagir com quem discorda do senhor, mesmo quando a discordância foi acalorada, como foi o caso de Ross Douthat. O que surgiu dessas interações? Trouxeram algum insight sobre como resolver as profundas divisões na Igreja dos EUA?

Confesso que tive meus momentos de falta de paciência nas redes sociais, como a maioria, com quem discorda de mim. Mas nas redes sociais eu conheci católicos com opiniões e experiências muito diferentes das minhas, e isso é muito importante. É ainda mais importante quando se consegue conhecer as pessoas pessoalmente, porque precisamos nos encontrar pessoalmente, em um espaço físico real. O mais importante que aprendi é sobre o que as discussões nas redes sociais não conseguem resolver nas divisões da Igreja dos EUA.

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