Um convite para despertar os teólogos progressistas

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09 Março 2018

O distanciamento entre a teologia católica e a Igreja institucional é um dos motivos pelos quais os católicos mais jovens estão agora se voltando a círculos neotradicionalistas em busca de instrução. Uma nova geração está reexaminando o que aconteceu na Igreja desde a década de 1960 e vem reagindo contra a teologia que saiu do Concílio Vaticano II. Alguns católicos mais jovens estão também questionando a legitimidade do Estado secular e pluralista. É por isso que as preocupações da teologia acadêmica não são mais apenas acadêmicas.

O artigo é de Massimo Faggioli, professor de teologia e estudos religiosos da Villanova University, publicado por Commonweal, 06-03-2018. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Aqueles que têm contato com os jovens católicos – por exemplo, com os universitários – talvez tenham notado que este antiprogressivismo teológico não vem apenas de uns poucos intelectuais marginais. O antiprogressivismo católico faz parte de um fenômeno mais amplo, uma nova busca pela identidade católica que assume várias formas. Ele pode se expressar como um entusiasmo pela Missa Tridentina e como um desgosto pela Novus ordo. Ou pode assumir a forma de um interesse em comunidades interculturais – em uma versão da “Opção Bento”. Mas pode também tomar a forma de uma imaginação teopolítica que rejeita a democracia representativa em favor de uma nova cristandade. Junto deste ideal geralmente há uma suspeita pelos que vêm de partes do mundo onde o cristianismo não é a religião predominante.

Esta ascensão do antiprogressivismo católico marca um regresso na capacidade dos católicos de entenderem o problema do Estado e da política em nosso tempo. Mas também diz algo sobre o estado da teologia católica, especialmente nos Estados Unidos.

Eu acredito que o destino da teologia católica nos países ocidentais é inseparável do destino da teologia acadêmica. A fim de sobreviver e florescer, a teologia precisa das universidades, das editoras e revistas. Podemos imaginar a Igreja a sobreviver intelectualmente sem a teologia católica, mas penso que daí teríamos uma situação um tanto indesejável. Especialmente no sistema americano, onde não há uma igreja constitucionalmente estabelecida, a teologia acadêmica é parte de um establishment católico religioso e eclesial. Porém não podemos supor que as instituições que apoiam a teologia acadêmica durarão para sempre. E para que tenha saúde, a teologia acadêmica católica não pode depender inteiramente de umas poucas grandes instituições como a Notre Dame e a Georgetown; precisa também das muitas faculdades católicas menores, muitas das quais estão agora lutando para permanecerem abertas.

A onda presente de antiprogressivismo nos diz algo sobre o que aconteceu à teologia católica progressista e aos departamentos de estudos religiosos nos últimos anos. Como membro do corpo docente no departamento de teologia e estudos religiosos da Villanova University, descobri o que Dom Charles Chaput tinha a dizer após uma palestra significativa sua aqui. Alguém lhe perguntou sobre o papel da constituição apostólica de João Paulo II, Ex Corde Ecclesiae (1990), nas universidades católicas de hoje. Ele respondeu que este documento, publicado pelos bispos americanos em 1999 para implementar Ex Corde, “não tinha poder suficiente para fazer as pessoas ouvirem e obedecer”, num franco reconhecimento do distanciamento entre os teólogos católicos e a Igreja.

O que aconteceu nos anos entre a Declaração de Land O’Lakes (1967) e a implementação de Ex Corde Ecclesiae emancipou a teologia do controle eclesiástico, mas também emancipou a Igreja Católica da teologia acadêmica. Ocorreu uma ruptura entre os bispos e os teólogos durante o final da década de 1970 e início dos anos 80 que teve a ver com a teologia da sexualidade.

Em 1979, uma carta da Congregação para a Doutrina da Fé criticava a “Human Sexuality: New Directions in American Catholic Thought” [Sexualidade humana: novas direções no pensamento católico americano], estudo encomendado pela Sociedade Teológica Católica da América e editado por Anthony Kosnik. Bernard Law, nomeado arcebispo de Boston em 1984, publicamente criticou a iniciativa “Common Ground” [Denominador comum] do Cardeal Joseph Bernardin, que constituía um esforço para construir pontes entre elementos diferentes da Igreja americana, incluindo teólogos acadêmicos.

Em seguida, houve a polêmica sobre o novo catecismo entre meados da década de 1980 e 1992. Muitos teólogos temiam a redução de seus trabalhos acadêmicos à catequese; alguns também se preocupavam com que o catecismo estivesse anulando os ensinamentos do Vaticano II ao “forçá-los a entrar num molde conservador”. Todos estes desdobramentos levaram a uma separação entre a teologia acadêmica e a hierarquia. Hoje, poucos teólogos católicos que trabalham na academia também assessoram o bispo local ou ajudam a Conferência Episcopal a elaborar suas declarações.

O trabalho dos teólogos católicos passou a ser cada vez menos importante para muitas lideranças católicas (bispos, intelectuais públicos, grandes doadores), os quais, pelo contrário, viraram sua atenção às iniciativas que visavam as “guerras culturais”. Mas, além da ideologia, houve um afastamento real da teologia católica contemporânea em relação à cultura católica. Isto significou que muitos alunos católicos nos EUA aprenderam sobre o catolicismo não a partir de professores de teologia, mas de professores católicos de literatura, artes, história e política. Tais alunos provavelmente não apreciam a importância e a coesão do pensamento teológico como tal.

A influência da tradição intelectual católica sobre todas as disciplinas, não apenas a teologia, foi um dos temas de Ex Corde Ecclesiae. Mas, para muitos, isto significou que se poderia ter uma formação católica sem estudar muito – ou de fato sem estudar nada de – teologia católica atual. Por causa da divisão direita/esquerda que se ampliou durante o pontificado de João Paulo II, muitos católicos, incluídos intelectuais e mesmo acadêmicos, descartaram a teologia como uma disciplina corrompida pela “opinião progressista”. Pesquisadores católicos nas áreas da literatura, arte, história, etc., puderam ensinar um tipo de estudos católicos que se focava nos altos ideais culturais do Ocidente cristão e amplamente ignorava ou rejeitava a teologia pós-conciliar.

Como consequência, alguns dos comentadores jovens mais destacados em temas católicos atuais possuem pouca formação teológica formal, embora possam saber muito sobre outros elementos da tradição intelectual católica. E numa inversão perversa do destino: no exato instante em que muitas faculdades e universidades católicas se libertaram da interferência episcopal, elas felizmente se renderam à influência dos doadores corporativos, que foram ávidos em financiar projetos conservadores nos campi católicos – projetos que muitas vezes uniram o tradicionalismo teológico com a ideologia econômica neoliberal ou libertariana.

Este fenômeno deveria ser um convite a despertar aos teólogos católicos nos EUA, pois, no longo prazo, ele ameaçará a vitalidade intelectual, se não mesmo a própria sobrevivência, da teologia acadêmica nas faculdades e universidades católicas. Há, pelo menos, dois problemas que os teólogos e pesquisadores em estudos religiosos que lecionam em universidade católica precisam encarar à luz do momento católico presente.

O primeiro problema tem a ver com o cânone. Existe um cânone de teologia nos campi católicos dos EUA, ou temos nós tantos cânones que a própria ideia de um cânone se perdeu? À luz do fato de que a teologia católica nos Estados Unidos está sendo deslocada por outras vozes que reivindicam representar a cultura católica, deveriam os teólogos ter um senso mais claro do que a teologia numa universidade católica deveria incluir?

Os alunos e professores de mentalidade tradicional que rejeitam ou apenas ignoram a teologia pós-conciliar certamente possuem algum tipo de cânone bem-definido, definido em parte pela sua rejeição ao Vaticano II e à teologia pós-Vaticano II. Porém eu não tenho certeza de que os próprios teólogos pós-Vaticano II tenham um cânone real. Os seus programas e cronogramas normalmente são um compromisso entre aquilo que estão dispostos a ensinar (pois fazem parte de seus projetos de pesquisa) e aquilo que os alunos estão dispostos a aprender (a credibilidade dos departamentos de teologia depende, em parte, da capacidade deles de conseguir um número suficiente de alunos a estudar teologia). Muitíssimos departamentos de teologia tentam continuar “relevantes” dando cursos que, receio, tornarão a teologia menos relevante no longo prazo. A ansiedade pela relevância significa que a teologia católica está, agora, reduzida ao ensino social católico.

Ao mesmo tempo, a irrelevância cada vez maior da teologia acadêmica deve-se ao fato de que, por muito tempo, teólogos católicos do aggiornamento ensinaram que a teologia do aggiornamento não precisava ser defendida, pois era autoevidente. O resultado é que, hoje, muitos alunos católicos conservadores especializam-se em “Estudos Católicos”, enquanto muitos alunos católicos progressistas especializam-se em estudos de paz e justiça.

O segundo problema é aquilo que chamo de falta de comprometimento eclesial – isto é, uma carência da consciência de que o complexo acadêmico católico tem o seu lugar também “dentro” da Igreja, mesmo se a sua integridade exija uma certa independência intelectual. Elas [as instituições acadêmicas católicas] necessitam da Igreja tanto quanto a Igreja necessita delas. Hoje, a maior parte dos membros da hierarquia não fizeram os seus estudos numa universidade secular, e os teólogos leigos raramente têm o mesmo tipo de formação teológica que seus bispos; e o que não deve ser surpresa: eles sentem-se distanciados uns dos outros. Mas a Igreja institucional possui uma resiliência às vicissitudes da história que a academia católica por si própria provavelmente não possui.

Por exemplo, a Igreja institucional pode ignorar as forças do mercado de um jeito que a academia não pode. Reintegrar a teologia acadêmica com o restante da Igreja tornou-se complicado pela escolha – muito boa, que não deverá ser revertida – de tornar os departamentos de teologia e estudos religiosos nos campi católicos mais diversos via contratação de professores não católicos. Mas o compromisso eclesial no sentido que tenho em mente não tem a ver só com as lideranças da Igreja. No mínimo, os teólogos e professores de estudos religiosos deveriam estar mais cientes do dever deles de responder às questões que os alunos católicos tradicionalistas ou conservadores têm e às quais muitas vezes não encontram resposta nos departamentos de teologia progressistas.

De um modo mais geral, os teólogos e professores de estudos religiosos que lecionam nos campi católicos ignoram, por sua própria conta, as grandes mudanças que acontecem na polícia católica e nas relações entre a Igreja institucional e a educação superior católica. Acredito que os teólogos católicos progressistas têm a oferecer uma alternativa à visão neotradicionalista atual da tradição católica. Mas se quisermos isto, iremos necessitar levar em conta a dimensão eclesial do que fazemos. A ideia de que a teologia acadêmica católica pode prosperar ou mesmo sobreviver independentemente do que acontece dentro da e à Igreja é uma ilusão.

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