Especialista diz que o acordo proposto pelo Vaticano com a China é “flácido”

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21 Fevereiro 2018

Durante setenta anos, o Vaticano e a China não tiveram nenhuma relação diplomática formal, o catolicismo continuou sendo ilegal no país e 12 milhões de católicos que vivem no país foram forçados a professar a sua fé de maneira clandestina. Recentemente, rumores de um acordo com a China vieram à tona.

Segundo autoridades vaticanas, o acordo passaria ao governo chinês um grau considerável de controle na nomeação episcopal, tema espinhoso na relação entre os dois Estados. Parece que o acordo por vir autorizaria o governo chinês a escolher os bispos, e que o papa teria então a chance de vetar.

“A Santa Sé trabalha para encontrar uma síntese da verdade, e um jeito prático de responder às expectativas legítimas dos fiéis, dentro e fora da China”, disse o secretário de Estado do Vaticano, o cardeal italiano Pietro Parolin, em entrevista ao jornal La Stampa, da Itália.

“Precisamos de mais cautela e moderação em nome de todos, a fim de não cair em críticas estéreis que prejudicam a comunhão e nos roubam a esperança de um futuro melhor”, acrescentou.

Ainda que este acordo com a China não será a primeira vez em que o Vaticano comprometeria o seu poder na nomeação episcopal para alcançar um objetivo maior, o movimento tem sido criticado pelos que o consideram uma “venda à liquidação” dos católicos chineses para o governo asiático, como disse o ex-bispo de Hong Kong, o Cardeal Joseph Zen.

Segundo o Pe. Bernardo Cervellera, diretor da agência Asia News do Pontifício Instituto para as Missões Estrangeiras, o acordo com a China seria prejudicial de um modo singular em comparação com os acordos anteriores firmados com outros países.

Diferentemente do Vietnã, onde o papa faz uma escolha inicial que é, então, revista pelo governo, o acordo com a China seria o inverso, resultando em um “caso especial” que, segundo Cervellera, não se justifica.

“Isto torna o acordo sino-vaticano ‘flácido’”, de acordo com o padre e jornalista, e abre a porta para a possibilidade de o governo chinês escolher bispos “maleáveis, controláveis” que, por sua vez, trabalharão segundo os interesses do Estado e não da Igreja.

Quando houver ainda mais bispos escolhidos pelo governo, e quando eles executarem as políticas do governo (...) porque estarão sob controle, criarão uma igreja independente, que se transformará efetivamente num problema quase cismático. Ela se transformará numa igreja nacional do Estado”, explicou Cervellera.

Apesar das divisões eclesiásticas internas, na verdade é a unidade da Igreja Católica o que mais assusta Pequim, acrescentou ele, afirmando que, mais do que qualquer outra comunidade religiosa, os católicos são aqueles vistos certa com preocupação.

A entrevista é de John Allen e Claire Giangravé, publicada por Crux, 20-02-2018. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis a entrevista.

Vendo de fora o acordo com a China, poderíamos nos perguntar: Qual o problema? Parece lógico que o Vaticano queira ter uma relação diplomática com a China, e todos sabemos que, através dos séculos, houve vários acordos para a nomeação de bispos. A ideia de uma autoridade civil ter participação não é, na verdade, nenhuma novidade. Por que não fazer este acordo?

Penso que existe, antes de tudo, um problema de comunicação em relação ao Vaticano. Em vez de dizer: “Estamos fazendo um acordo”, há quem diga que todos os bispos serão reconhecidos. Naturalmente isso cria dificuldades para a Igreja chinesa porque todo mundo quer saber se todos os bispos, incluindo os ilícitos (nomeados pelo governo chinês), estarão dentro do acordo e se os que não reconhecidos pelo governo serão incluídos também, ou seja, todos os bispos clandestinos. Porque, de outra forma, o acordo corre o risco de ser “flácido”. Esta é a principal preocupação.

Há também um problema quando dizem: “O Vaticano vai aceitar bispos ilícitos”. Isso é um erro. O Vaticano irá se reconciliar com os bispos ilícitos, o que é uma coisa religiosa que tem a ver com a fé da comunidade cristã e nada a ver com o governo.

A questão é: Qual o peso que o governo e que o Vaticano terão neste acordo? A partir das informações vagas que circulam, a China – como declarado pelo diretor de Assuntos Religiosos – simplesmente quer continuar com a sua política de nomear os bispos e o papa apenas teria a função de abençoar o que decidirem.

Muitos católicos que veem na influência governamental um elemento negativo para a vida da Igreja creem que isso significará entregar a Igreja às mãos do governo chinês. São preocupações compreensíveis e compartilháveis. O Cardeal Pietro Paolo Parolin (secretário de Estado do Vaticano) divulgou uma entrevista em seu meio de comunicação favorito, o Vatican Insider, onde afirma que o acordo está sendo feito por motivos de fé, pois desejamos ajudar para que a Igreja esteja unida, porque tememos que as coisas piorem no futuro e, em terceiro lugar, porque, embora saibamos se tratar de um acordo ruim, é melhor um acordo ruim do que nada.

Cada um tem sua opinião. O Cardeal Joseph Zen (ex-bispo de Hong Kong), que vê em primeira mão todos os problemas que a Igreja clandestina tem, diz que é melhor ter um acordo onde pedimos mais à China.

Alguns dizem que, através dos séculos, a Igreja fez acordos com muitos governos e mesmo com a ditadura de Franco, na Espanha. Mas a ditadura de Franco foi a oitenta anos atrás. Não conseguimos entender por que a China deve ser um caso especial comparado com o que todos os demais Estados fazem.

A China, tão moderna de um ponto de vista tecnológico, econômico, científico e em pesquisa astronômica, é, assim, considerada uma relíquia das mais retrógradas do império chinês. Ou uma relíquia dos combates feudais mais antigos, porque esta é praticamente uma luta por investiduras, que aconteceram a mais de mil anos atrás.

Há poucos meses, fiquei sabendo que o acordo era que o papa somente teria um veto temporal por três meses sobre um bispo. Então, foi dito, se o conselho dos bispos não acreditar que as objeções do papa são apropriadas, poder-se-ia continuar como se nada tivesse ocorrido.

É arriscado porque esse acordo põe nas mãos do governo a possibilidade de escolher todos os bispos que bem entender, dependendo dos critérios que ele sempre teve, quer dizer, escolher os mais maleáveis, controláveis e torná-los instrumentos políticos, ao invés trabalhadores para a evangelização da China.

Na avaliação dos riscos, a Igreja clandestina estaria numa situação melhor agora, sem um acordo, ou melhor seria se, pelo menos, houvesse um acordo “flácido”?

Eis uma questão que está ligada à função da Associação Católica Patriótica, controlada pelo governo chinês. A carta do Papa Bento XVI aos católicos chineses em 2007, a qual o Papa Francisco declarou ser a base de todos os diálogos com a China, dizia que os bispos devem tentar se comunicar com o governo e, se não for possível fazer de outra forma, participar destas organizações, ao mesmo tempo tendo em mente que estas associações são incompatíveis com a doutrina católica. Isso precisa ser feito com os padres e os fiéis, e mesmo se ninguém fizer parte Associação Patriótica, deve-se continuar tendo em mente os interesses da Igreja.

É o que acontece com muitos dos bispos da Igreja oficial, embora alguns, de acordo com os fiéis, não fazem isso, pois são levados pelo governo e não têm uma vida normal: são levados para longe da diocese por muitos meses e repetem que o ideal é uma igreja independente (isto é, independente do Vaticano, de interesses estrangeiros, do papa). Em segredo, eles dizem que seguem a fé católica, mas em público fazem o que o governo quer.

Como os fiéis podem confiar nestes bispos? Mesmo se se tornarem oficiais, como podem confiar nestes bispos ambíguos? Bento XVI certa vez chamou-os de “oportunistas”, e há muitos. Mesmo entre os sete ilícitos, há alguns oportunistas.

A outra questão é que os fiéis, na Igreja clandestina, estão atualmente mais livres sem o controle constante da Associação Patriótica. Só precisamos ver o que está acontecendo na Igreja oficial, que é completamente controlada. Há câmeras nas sedes paroquiais, nos corredores, a polícia está sempre lá. Isso porque a China teme muito as religiões.

Ela teme a Igreja Católica mais do que qualquer outra religião?

Sim. O país teme mais a Igreja Católica. Um membro do Partido Comunista certa vez me contou isto: “Tememos a Igreja Católica porque vocês são unidos”, disse ele. “Se algo acontece a um católico, imediatamente todos os outros católicos no mundo falam, dizem, agem! Temos muito medo da unidade de vocês”.

A dúvida permanece sendo os bispos clandestinos, pois, pelo que sabemos e pelo que foi oficialmente dito pelo cardeal chinês Tong Hon no ano passado, os bispos clandestinos são o maior problema no diálogo entre a China e o Vaticano, e o governo chinês não quer reconhecê-los de forma alguma, porque estes não confiam neles. Aqueles que foram martirizados, encarcerados, que tentaram seguir as indicações do Vaticano e que não pertencem à Associação Patriótica a fim de serem livres pela fé, são agora deixados de lado.

Na entrevista, Parolin menciona que seria um sacrifício feito para a comunidade católica como um todo. Qual a sua opinião?

É um sacrifício grande. Diz-se: “Vamos fazer um acordo”. Mas um acordo para obter o que? Perdemos a metade da Igreja, colocamos a nomeação episcopal nas mãos do governo... Aproximadamente dois anos atrás, uma autoridade chinesa entrevistada pelo Global Times recusou o estilo vietnamita de investiduras, onde o Vaticano propõe os candidatos e o governo escolhe um entre eles, para então ser aprovado pelo papa. Neste caso, o governo chinês escolhe os bispos e o papa tem que dar a bênção. Há uma grande influência do governo. Colocamos os bispos nas mãos do governo, não damos aos bispos clandestinos a chance de serem reconhecidos... parece uma perda total. Por que fazer um acordo assim?

Então por que fazer o acordo?

Por um lado, acho que o Vaticano está com medo de que o ministério chinês para assuntos religiosos, como sempre foi prometido, irá nomear muitos bispos sem a aprovação papal, pelo menos para vinte dioceses. Vinte dioceses representam, no mínimo, um quinto de todas as dioceses do país. Imagino que o Vaticano esteja preocupado que, se o número de bispos basicamente excomungados crescer demais, poderá ficar ainda mais difícil construir algo.

A segunda coisa que dizem é que, no futuro, as coisas irão provavelmente piorar. Então é melhor aceitar este acordo, mesmo sendo ruim, como o menor dos males. O futuro poderá ser pior? Efetivamente, sim, mas este futuro já começou.

Com as novas regulamentações, na prática tudo está sendo controlado, a burocracia aumentou. Para fazer qualquer coisa – por exemplo, consertar uma igreja, realizar uma reunião, convidar um professor ou organizar aulas, qualquer coisa –, é preciso pedir permissão à municipalidade, ao condado, à província e ao governo federal. Todos eles têm um prazo de validade de três meses, portanto se você quer realizar uma reunião, é melhor começar um ano e meio antes!

Como o senhor vê a possibilidade de um cisma?

A ideia de um cisma por causa da assinatura desse acordo, e porque alguns não o aceitam, me parece ter baixa probabilidade. Os bispos clandestinos que ficariam de fora já disseram que se o papa pedir obediência, irão obedecer e boa noite. Na realidade, Giuseppe Wei Jingyi concedeu uma ótima entrevista na qual dizia que, em vez de um ponto de rompimento, o que se quer é que os fiéis sigam o papa, etc.

O problema era exatamente este: a busca do papa por espaços para se encontrar com os chineses pareceu um diálogo político secreto, e não um percurso pastoral.

O verdadeiro problema com relação a um cisma é o que Zen diz, e eu concordo com ele.

Quando houver ainda mais bispos escolhidos pelo governo, e quando eles executarem as políticas do governo... digamos, irão se ver obrigados a dizer e fazer [o que o governo quer], porque estão sob controle, criarão uma igreja independente, que se transformará num problema quase cismático. Ela se transformará numa igreja nacional do Estado.

Com certeza, podemos esperar que os católicos darão sequência, tentando em segredo seguir as indicações do papa, mas as coisas serão, realmente, difíceis.

Vejo hoje, quando vou para a China e encontro um bispo oficial, que eles não querem falar, porque dizem que pessoas da Associação Patriótica estão lá, que não podemos conversar, não podemos falar. Vou para conversar com um bispo em Peking, e ele diz: Não, não podemos falar, porque o lugar possui microfones escondidos. Estamos praticamente num campo de concentração em aberto. Estas pobres pessoas, não tenho certeza de que conseguirão viver.

O verdadeiro problema são os bispos da Igreja oficial... Não haverá um cisma da igreja clandestina, dizendo: “Não, não concordamos com essa decisão”. Isso já foi dito, e os padres, em consciência, decidirão o que fazer, se podem participar e colaborar com o governo ou não.

Muitos vão dizer, se não for algo que contradiga a minha fé, está bem; mas se contradizer, então não. Isso não é um cisma, porque todos continuarão ligados ao papa. Será um problema se o governo continuar a interferir na vida da Igreja, nomeando bispos. Ele criará uma igreja nacional...

Galicanismo?

Sim, galicanismo (1).

Nota:

[1] O termo se refere à ideia do século XVII originada na França segundo a qual o poder civil deveria ter tanto, ou mais, poder sobre a Igreja do que o papa. Tornou-se um termo genérico para designar uma igreja nacional, leal a um governo nacional em vez de Roma. (Nota do tradutor). 

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