Se a China quer um papel mundial, deve dialogar com a Igreja

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07 Junho 2017

Abril de 2007, na Academia Pontifícia das Ciências, Henry Kissinger fala em um seminário a portas fechadas sobre a situação geopolítica. “O centro de gravidade mundial se move para o Pacífico”, explica. Pequim exige o mesmo equilíbrio com o Ocidente. “Eu acredito que a ascensão da China é inevitável – continua – e devemos aprender o que ela pode significar para o mundo.” Mas há um problema histórico-político, indica o ex-secretário de Estado dos Estados Unidos que levou o presidente Nixon a reconhecer a China comunista: historicamente, a China sempre foi autorreferencial. Enquanto a Europa, no seu passado, praticou o equilíbrio das potências, a China nunca fez essa experiência. O império chinês sempre dominou os seus vizinhos, exceto quando era fraco. É preciso apontar para as novas gerações chinesas, conclui Kissinger, para que creiam na “possibilidade da cooperação” com o Ocidente.

A reportagem é de Marco Politi, publicada por Il Fatto Quotidiano, 06-06-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Dez anos depois, a situação se inverteu. Trump empurra os Estados Unidos a recuar diante da globalização, a China a abraça. A visão de Kissinger se concretiza: a China está aprendendo o que significa atuar em um “concerto de potências”. Trump exalta o soberanismo protecionista, e o presidente chinês, Xi Jinping, explica em Davos que o protecionismo é “como fechar-se em uma sala escura: ficam de fora o vento e a chuva, mas também o ar”.

Trump retira os Estados Unidos do acordo de Paris sobre os cortes nas emissões que provocam o aquecimento global, e o primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, anuncia uma cooperação reforçada com a União Europeia, declarando que a China “continuará implementando as promessas feitas” sobre os cortes de emissões.

Nesse cenário, ocorreu o seminário da Comunidade de Santo Egídio (junto com a Universidade Católica e a World History Academy) sobre as relações entre a Igreja Católica e a China. Relações marcadas por 40 anos de aproximações e distanciamentos, degelos e “regelos”. Mas não é o passado que importa nesta fase histórica completamente nova.

Andrea Riccardi salientou que não tem mais sentido considerar a perspectiva das relações entre a Santa Sé e Pequim com os óculos da Guerra Fria, quase como se ainda se tratasse a presença do catolicismo em um “país comunista”. A questão é outra: definir as relações entre a Igreja Católica e uma nação em rápida transformação, um país multicultural em que – é preciso lembrar – há uma forte expansão de um cristianismo neopentecostal, um país que tem uma história que começa bem antes do advento de Mao.

É claro, há a questão da decenal pretensão política de Pequim de permitir no seu território apenas Igrejas e comunidades religiosas “independentes” de uma autoridade central estrangeira. Existe a longa prática de bispos nomeados através de manobras da chamada Associação Patriótica, que reúne bispos e clero obedientes ao regime. Existe a dupla dimensão de uma Igreja oficial e de uma Igreja clandestina, formada por bispos ordenados unicamente com a autorização do Vaticano. De fato, a Associação Patriótica dos Católicos Chineses (órgão governamental) insiste na eleição a partir de baixo de bispos leais ao governo.

No entanto, várias vezes, houve nomeações de bispos ocorridas de comum acordo entre a Santa Sé e Pequim. E também muitos bispos “oficiais”, nomeados “ilegitimamente”, pediram, depois, em segredo (e receberam) a legitimação papal.

Em suma, a situação, nos bastidores, está em movimento. Com o Papa Francisco, diálogo recomeçou logo, especialmente porque – como lembrou o professor Agostino Giovagnoli –, para o pontífice jesuíta, a China não é um lugar distante e hostil, mas sim um protagonista mundial que pode “irradiar cultura e contribuir para a paz”.

Um esboço de compromisso para a nomeação dos bispos já existe há mais de um ano. Ele prevê que os bispos “eleitos” pelas dioceses sejam “apresentados” ao papa pela Conferência Episcopal Chinesa (oficial). Poderia ser o início de uma solução – como disse o Pe. Peter Chou, um dos conferencistas do seminário de Santo Egídio –, contanto que se reserve ao pontífice um direito de veto. Sutilezas que a diplomacia vaticana e a chinesa, filhas de experiências milenares, podem desvendar.

Mas o discurso nesta fase turbulenta do século XXI deveria ser invertido completamente. Não olhando mais para a história apenas do ponto de vista dos interesses religiosos da Santa Sé, mas sim dos interesses geopolíticos da China. Uma potência que se assomou de repente à cena internacional (pense-se na nova “Rota da Seda”, que une Oriente e Ocidente ou no Banco Asiático de Investimento e Infraestrutura criado por Pequim em 2014) pode ignorar o valor social e político de um debate aproximado com uma organização de 1,2 bilhão de afiliados como a Igreja Católica, presente nos cinco continentes com uma infinidade de instituições?

Cabe a Pequim decidir hoje, libertando-se definitivamente do medo – que também existia nos tempos da revolta da Praça Tiananmen em 1989 – de um “Solidarnosc” católico chinês potencialmente subversivo. Entrar no Grande Jogo internacional da era contemporânea significa dialogar com um sujeito geopolítico representado pela instituição católica. Não é questão de fé. Apenas de realismo.

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