E Kissinger disse a Videla: "Façam tudo depressa"

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15 Agosto 2016

O secretário de Estado estadunidense Henry Kissinger e o ministro argentino das Relações Exteriores César Augusto Guzzetti encontraram-se entre os luxos do Hotel Waldorf Astoria, em Nova York. Era o dia 7 de outubro de 1976, seis meses depois do golpe de Estado em Buenos Aires.

A reportagem é de Nello Scavo, publicada no jornal Avvenire, 10-08-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Se fossem desconhecidos, os demais clientes poderiam confundi-los com dois importantes homens de negócios, ocupados em falar de dólares, bebericando um Martini.

"O nosso principal problema é o terrorismo. Garantir a segurança interna do país precisa, por parte dos Estados Unidos, de compreensão e suporte, também por causa da crise econômica", disse Guazzetti ao amigo estadunidense.

"Acompanhamos os eventos argentinos de perto. Vemos com bons olhos o novo governo e queremos que ele tenha sucesso. Faremos o possível", assegurou-lhe Kissinger. Dos EUA, não veio nenhuma objeção ao plano sanguinário do triunvirato militar (1976-1983): o presidente, general Rafael Videla (Exército), auxiliado pelo almirante Emilio Massera (Marinha) e pelo general Orlando Agosti (Aeronáutica).

Mantendo a promessa feita em março passado, Barack Obama assinou o decreto com o qual são arrancados do sigilo cerca de mil documentos sobre o papel dos EUA na "Guerra Sucia", a guerra suja que contou na Argentina com o modelo de intervenção estadunidense aperfeiçoado com o "Plano Condor", graças ao qual foram mantidas vivas as ditaduras de direita no subcontinente americano. Uma barreira ao temor de um avanço comunista que via em Cuba o inimigo às portas dos EUA.

No arquivo, aparecem relatórios diplomáticos, testemunhos recolhidos por diversas autoridades estadunidenses, uma carta escrita por Carter a Videla e outros materiais da Secretaria de Estado, do Pentágono e de diversos órgãos oficiais.

"É um grande passo no caminho do ‘degelo’ entre os EUA e a América Latina, que começou com a aproximação a Havana e agora continua em um tema muito delicado, que remonta à época obscura das ditaduras sul-americanas e dos seus apoiadores em Washington", comenta Alfredo Somoza, professor do Instituto de Estudos Políticos Internacionais, com um passado como exilado argentino.

Na época do aperto de mão no Hotel Astoria, a imprensa estadunidense tinha começado a denunciar alguns abusos, especialmente depois que o Congresso e a própria embaixada dos EUA na Argentina haviam se lamentado precisamente com Guazzetti pelo sequestro e a tortura de cidadãos estadunidenses.

As violações que tinham caracterizado os primeiros meses do regime, portanto, eram bem conhecidas. Kissinger, negando as motivações que o levaram ao Nobel da Paz em 1973, mostrou-se compreensivo.

"Sabemos que vocês estão em dificuldades. São tempos curiosos aqueles em que atividades políticas, criminosas e terroristas tendem a emergir sem uma clara separação. Entendemos que vocês tem que estabelecer uma autoridade. Vou fazer o que puder."

Sobre a consciência do grande marioneteiro da política externa dos EUA, não há dúvidas. No dia 9 de julho de 1976, três meses antes da cúpula no Waldorf Astoria, o principal conselheiro de Kissinger, Harry Shlaudeman, fornecia-lhe detalhes sobre os sistemas de Buenos Aires, onde era aplicado "o método chileno: aterrorizar a oposição, mesmo às custas de matar padres e freiras".

Por isso, Kissinger, apesar da condescendência, foi obrigado a alertar o colega argentino: "O quanto antes vocês terminarem, melhor", disse a Guazzetti. Com efeito, houve uma aceleração: 30 mil desaparecidos, 20 mil executados pela "patota", as patrulhas da morte; dois milhões de exilados; pelo menos 500 crianças roubadas das prisioneiras (executadas com os maridos e namorados) e adotadas com outros nomes por famílias próximas do regime.

No ano seguinte, o democrata Jimmy Carter assumiu a presidência no lugar do republicano Gerald Ford e tentou se distanciar das juntas militares. Kissinger não tinha mais encargos, mas não ficou na janela. Mais sinistro do que se imaginava, o ex-chefe da diplomacia, explica Somoza, "continuava boicotando o trabalho da subsecretária para os Direitos Humanos de Carter, Patricia Derian".

A primeira leitura dos documentos, acrescenta Somoza, lança luz sobre alguns casos exemplares de sequestros e torturas de opositores políticos, "como os do sindicalista e professor Alfredo Bravo e do jornalista Jacobo Timmerman: agora é certo que a embaixada dos EUA sabia de tudo". Também fica clara a insistência com que tanto Videla quanto Massera buscavam, sem encontrar, uma relação política com Carter.

Um estudo cuidadoso do arquivo permitirá esclarecer melhor muitos aspectos que permaneceram nas sombras, mas alguns segredos parecem, por enquanto, destinados a permanecer como tais. E não se trata de dossiês secundários.

Em todos os papéis, até agora revelados por diversas fontes, com exceção do "arquivo do terror" encontrado no Paraguai sobre o modus operandi da Operação Condor (a coordenação dos serviços secretos das ditaduras para matar opositores), "sempre faltam os dados que remontam aos canais de financiamento – sugere Alfredo Somoza –, de fornecimento de armas, de apoio político em nível internacional (a Argentina de Videla nunca foi condenada na ONU). Também faltam dolorosamente os arquivos da ditadura com a ‘contabilidade’ dos desaparecimentos forçados, que se sabe que existe (ou ao menos existia), mas nunca foi encontrada".

Uma ajuda é esperada da Santa Sé que, por vontade do Papa Francisco, protagonista de episódios heroicos graças aos quais muitos perseguidos conseguiram se salvar, está trabalhando pela catalogação e pela subsequente abertura do arquivo vaticano referente aos anos da ditadura argentina.

Somoza está certo disso: "Podemos finalmente ler o quadro político global de uma das operações criminosas de maior sucesso desde a Segunda Guerra Mundial. Um massacre possibilitado pelo contexto histórico e pelas inúmeras cumplicidades".

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