Moscou e Pequim, a tentativa da Igreja. Entrevista com Pietro Parolin

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31 Julho 2017

Depois da visita à Bielorrússia (2015) e à Ucrânia (2016), no fim de agosto, o secretário de Estado vaticano, o cardeal Pietro Parolin, irá a Moscou. A Santa Sé confirma, assim, uma atenção geral ao Leste Europeu e aos novos equilíbrios que surgiram depois da implosão do império soviético, e à Rússia, em particular.

A reportagem é de Gianfranco Brunelli, publicada por Il Sole 24 Ore, 27-07-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Foi possível ver isso a partir das mensagens que o Papa Francisco enviou a Vladimir Putin em diversas ocasiões e, em um nível diferente, mas certamente não menos influente, o ecumênico, a partir do histórico encontro entre o bispo de Roma e o Patriarca de Moscou, Cirilo, em Havana, em 2016. 


Nesta entrevista exclusiva, conversamos com o cardeal Parolin sobre o papel da Igreja no contexto mundial.

Eis a entrevista.

Eminência, como se insere a sua viagem nesse percurso?

A atenção da Santa ao Leste Europeu não é de hoje, mas é de longa data e nunca desapareceu, nem mesmo nos anos mais sombrios. Ela sempre considerou importantes os relacionamentos e as relações com a Europa Oriental e com a Rússia nas diversas fases de história. Vale a pena recordar dois eventos pouco conhecidos, mas significativos. Durante a sua visita a Roma, em 1845, o czar Nicolau I, imperador da Rússia, teve dois colóquios com o Papa Gregório XVI. Dois anos depois, ele estipularia um Accomodamento [acordo] com o Papa Pio IX. As Igrejas locais estiveram ao lado das suas populações até mesmo nos momentos dramáticos das perseguições. Não é só o fato de estar nos confins da Europa que torna o oriente europeu importante, mas também o seu papel histórico no âmbito da civilização, da cultura e da fé cristã. Há quem ressalte que, quando São João Paulo II imaginava uma Europa do Atlântico aos Urais, ele não pensava em um “expansionismo ocidental”, mas em uma formação mais unida de todo o continente.

Uma situação precária e fragmentada

Depois dos anos difíceis que se seguiram ao colapso da União Soviética, assistimos hoje a um retorno de Moscou ao cenário internacional. É um retorno agressivo. Basta pensar na Ucrânia e na Síria...

É evidente que houve um período de incerteza sobre a posição da Rússia sobre várias temáticas, mas não acho que se possa dizer que o país, mesmo nos momentos de maior dificuldade, saiu do cenário internacional. Hoje em dia, são muitas vezes evidenciadas as diferenças entre os vários países ocidentais e a Rússia, como se fossem dois mundos diferentes, cada um com seus próprios valores, seus próprios interesses, um orgulho nacional ou transnacional, e até mesmo uma concepção própria do direito internacional a ser oposta às outras.

Em tal contexto, o desafio é o de contribuir para uma melhor compreensão recíproca entre aqueles que correm o risco de se apresentar como dois polos opostos. O esforço de se entender mutuamente não significa condescendência de um à posição do outro, mas sim um paciente, construtivo, franco e, ao mesmo tempo, respeitoso diálogo. Ele é ainda mais importante sobre as questões que estão na origem dos conflitos atuais e sobre aquelas que correm o risco de provocar mais um aumento da tensão.

Nesse sentido, a questão da paz e da busca de soluções para as várias crises em curso deveria ser posta acima de qualquer interesse nacional ou também parcial. Aqui, não pode haver nem vencedores nem vencidos. Indultar sobre os próprios interesses particulares, que é uma das características desta era de retorno dos nacionalismos, desvia do fato de ver que não está evitada, em si mesma, a possibilidade de uma catástrofe. Estou convencido de que faz parte da missão da Santa Sé insistir nesse aspecto.

Sobre esses conflitos em andamento, o Papa Francisco, perante o Congresso estadunidense, no dia 24 de setembro de 2015, também tinha estigmatizado fortemente o uso perverso da religião...

Sim, ele dissera que o nosso mundo é cada vez mais um lugar de violentos conflitos, ódios e atrocidades brutais, cometidos até mesmo em nome de Deus e da religião, e depois continuou: “Sabemos que nenhuma religião é imune a formas de engano individual ou extremismo ideológico. Isso significa que devemos estar particularmente atentos a todas as formas de fundamentalismo, tanto religioso, quanto de qualquer outro tipo. É necessário um delicado equilíbrio para combater a violência perpetrada em nome de uma religião, de uma ideologia ou de um sistema econômico, enquanto se salvaguarda, ao mesmo tempo, a liberdade religiosa, a liberdade intelectual e as liberdades individuais”. É um equilíbrio difícil, dentro do qual também deve ser posta a defesa das comunidades cristãs e de cada comunidade que corre o risco de ser varrida pelo ódio.

Não lhe parece que a visita aos Estados Unidos e as palavras de Francisco perante o Congresso, relidas agora, com a nova administração, parecem distantes?

É preciso de tempo para julgar. Não se pode ter pressa. Uma nova administração, tão diferente e particular, e não só por motivos políticos, das anteriores precisará de tempo para encontrar o seu próprio equilíbrio. Todo julgamento agora é apressado, embora, às vezes, possa impressionar a exibição da incerteza. Esperamos que os Estados Unidos – e os outros atores do cenário internacional – não se desviem da sua responsabilidade internacional sobre os diversos temas sobre os quais ela foi, até aqui, exercida historicamente. Pensamos em particular nos novos desafios do clima: reduzir o aquecimento global do planeta significa salvar a casa comum na qual vivemos e reduzir imediatamente as desigualdades e as pobrezas que o aquecimento do planeta continua produzindo. Pensamos também nos conflitos em curso.

O senhor não teme que a preocupação da Igreja pela paz apareça, aos olhos e aos ouvidos de muitos, como óbvia e até mesmo retórica diante da questão da sua eficácia?

A diplomacia da Igreja Católica é uma diplomacia de paz. Ela não tem interesses de poder: nem político, nem econômico, nem ideológico. Por isso, pode representar com maior liberdade a uns as razões dos outros e denunciar a cada um os riscos que uma visão autorreferencial pode envolver para todos. A visita à Bielorrússia foi feita no tempo das sanções ocidentais, e a visita à Ucrânia, no meio da guerra. Essa visita foi a oportunidade para levar a toda a população envolvida no conflito a solidariedade da Igreja e do papa. E, para que isso fosse visível a todos, aproximamo-nos do Donbass, repleto de refugiados, usando o instrumento da solidariedade para com as vítimas da violência, sem perguntar a sua identidade geográfica ou política.

O Papa Francisco abrira o caminho com a promoção de uma grande coleta de ajudas das Igrejas europeias e com uma substancial contribuição pessoal dele. Se se defende a dignidade humana de todos e de cada um, e não contra alguém, então outra estrada é possível. A Santa Sé não busca nada para si. Ela não está presente ora aqui, ora lá, para não perder em parte alguma. A sua tentativa é humanamente difícil, mas evangelicamente imprescindível, para que mundos vizinhos voltem a dialogar e cessem de se dilacerar pelo ódio, antes ainda que pelas bombas.

Kohl, um símbolo europeu

Nisso, o Papa Francisco continua uma tradição sedimentada no século XX e revigorada a partir do Papa João XXIII: a diplomacia dos gestos, dos sinais de estar perto, que considera, acima de tudo, a dignidade do interlocutor.

Nós não somos apenas as nossas palavras, mas também os nossos gestos, as nossas ações concretas, especialmente quando as palavras parecem ineficazes por estarem gastas ou por serem inaudíveis. Há uma linguagem universalista envolvida nos gestos: a Igreja a aprende todos os dias a partir do anúncio do Evangelho, que pode ajudar, em tempos difíceis, a parar, a inverter uma rota equivocada. A nossa perspectiva só pode ser aquela evocada por Isaías e retomada nos Evangelhos: “Libertar os oprimidos” e “despedaçar todo jugo”; “repartir o pão com quem passa fome, hospedar em sua casa os pobres sem abrigo (...) sem esquecer os de sua própria casa” (Is 58, 6.7). O que importa é a cura, a libertação, a reconstrução do humano, sempre, começando pelas suas situações concretas. Por isso, devemos fazer gestos concretos, sinais que estejam na fonte da possibilidade de viver juntos. Fazer gestos e pedir gestos.

Se olharmos para os símbolos, às vezes, também de um ponto de vista político, emergem alguns tão cheios de significado a ponto de deixar em aberto a esperança, até mesmo a partir de eventos tristes. Não lhe parece, por exemplo, que o funeral de Kohl pode ser considerado como o primeiro funeral europeu de um líder europeu?

Kohl teve o mérito histórico de acreditar no ideal europeu como ideal político concreto. A queda do Muro de Berlim e a reunificação alemã não foram, para ele, uma questão interna à Alemanha e à sua trágica história, mas o sinal do desenvolvimento da Europa dentro da qual um grande país como a Alemanha podia agir legítima e proficuamente. Não uma Europa germanizada, mas uma Alemanha europeizada. Kohl entendeu que a integração europeia também tinha sido, até certo ponto, filha da política dos blocos Leste-Oeste. E, superados esses blocos, a Europa devia existir como sujeito político, não apenas econômico.

Hoje, muitas vezes, tem-se a impressão de que o retorno à ideia de Europa, que parece conhecer alguma retomada depois de uma longa fase de reação antieuropeia da opinião pública e da vitória em diversas nações de líderes pró-europeístas, também se detém muito rapidamente, tem um impulso breve, instrumental mais do que ideal. O risco é de que paremos na utilização da Europa em chave nacional. É como se muitos dissessem: depois do exemplo do Brexit, é melhor ficar dentro da casa comum europeia, talvez cada um por conta própria. O nacionalismo (também o de retorno, como aquele já fontal) tem as suas próprias raízes na crise cultural e religiosa da Europa e acaba esvaziando a Europa dos seus valores e das suas razões. A Europa tem uma responsabilidade insubstituível. E, quando se mostra indiferente, como no caso da imigração, renuncia ao bem possível.

Esperança para a China

Voltemo-nos para o Oriente: do Vietnã à China. O Extremo Oriente tem um caminho próprio de diálogo com a Igreja Católica?

O Extremo Oriente é uma região do mundo bastante vasta, complexa e diversificada. Há muitos séculos já, essa ampla parte da humanidade entrou em contato com o cristianismo e, consequentemente, com a Igreja Católica, graças às vias e formas peculiares de país para país. Os antigos contatos culturais e religiosos com o mundo asiático (basta pensar aqui naqueles ocorridos na Índia nos primeiros tempos cristãos ou com o Império do Meio, através da Rota da Seda, ou ainda com as grandes explorações geográficas do século XV e XVI até chegar ao Japão e às Filipinas) oferecem ainda hoje importantes impulsos para o encontro entre as culturas.

Certamente, em comparação com os tempos passados, hoje, colocam-se desafios novos, que esperam respostas inéditas e criativas, mas, no fundo, a finalidade da Igreja é a mesma de sempre e é de natureza pastoral: levar Deus aos homens e os homens a Deus. Concretamente, a Igreja Católica pede que lhe seja garantido o direito de professar livremente a própria fé em benefício de todos e pela harmonia da sociedade.

Os católicos desejam viver serenamente a sua fé nos respectivos países como bons cidadãos, comprometendo-se com o desenvolvimento positivo da comunidade nacional. Eu também acho que deve ser entendido nesse contexto o caminho de diálogo travado há muito tempo com os governos de alguns países da região, incluindo a República Popular Chinesa. O diálogo em si já é um fato positivo, que abre ao encontro e que faz crescer a confiança. Abordamo-lo com espírito de saudável realismo, sabendo muito bem que o destino da humanidade está, acima de tudo, nas mãos de Deus.

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