Zen aos católicos chineses: se houver um acordo com o governo, não precisam seguir o Papa

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Por: André | 04 Julho 2016

Se a China Popular e a Santa Sé chegarem a um acordo, este teria, evidentemente, “a aprovação do Papa”. No entanto, os católicos chineses não precisariam levá-lo em conta caso o considerarem, “em consciência”, “contrário ao princípio da fé”. Estas são palavras do cardeal Joseph Zen, salesiano, bispo emérito de Hong Kong.

A reportagem é de Gianni Valente e publicada por Vatican Insider, 30-06-2016. A tradução é de André Langer.

Como se sabe, o cardeal ancião não gosta muito do tipo de “pax” sino-vaticana que parece estar ganhando forma com as negociações em curso entre os funcionários chineses e os oficiais vaticanos, confirmadas inclusive pelo Papa Francisco. Assim, tomando a iniciativa, o alto prelado salesiano exortou os católicos chineses a empreender o caminho da dissociação silenciosa, e também com respeito a eventuais medidas e práticas que poderiam ser aprovadas oficialmente pelo Bispo de Roma, como “extrema ratio” para esquivar as implicações de um possível e futuro acordo entre Pequim e a Sé Apostólica.

O apelo foi feito por Zen em seu blog pessoal: “Irmãos e irmãs do Continente, devemos honrar-nos!”, escreveu o cardeal com tons peremptórios aos católicos da República Popular da China. Nas primeiras linhas, o cardeal identifica imediatamente os seus polêmicos alvos: são aqueles que “estão do lado do governo” e “os oportunistas da Igreja”, que “esperam que a Santa Sé assine um acordo para legitimar a atual e anômala situação”.

Todos eles, defende Zen, ultimamente gritaram que devemos estar “prontos para escutar o Papa” e obedecer “a tudo o que disser”. E os mesmos chegam a prognosticar que a rejeição das decisões aprovadas pelo Papa poderiam vir justamente de alguns daqueles que sempre usaram contra outros a crítica da pouca fidelidade ao Papado e à Igreja de Roma.

Diante destes novos cenários, Zen convidou, sobretudo, para “manter a calma”, e na sequência ofereceu aos irmãos e irmãs “continentais” diretrizes para enfrentar este momento tão delicado, enquanto chegam tempos melhores. Reconhece que na Igreja “a autoridade suprema é o Papa, Vigário de Cristo na Terra”.

Recorda que nos últimos anos, sobretudo durante o Pontificado do Papa Bento, ele mesmo sempre repetiu “que a Santa Sé não representa o Papa. Mas, claro, se um dia fosse assinado um acordo oficial entre a China e a Santa Sé – reconhece Zen –, então seguramente esse acordo teria a aprovação do Papa”. Nesta eventual circunstância, sugere preliminarmente o bispo emérito de Hong Kong, “qualquer coisa que for aprovada pelo Papa, nós não teríamos que criticá-la”.

Deve-se evitar qualquer reação que possa ser reconhecida e recusada como uma crítica direta ao Sucessor de Pedro. Mas, o que é certo, acrescenta imediatamente Zen, “afinal de contas, a consciência é o critério último para julgar o nosso comportamento. Então, se de acordo com sua consciência o conteúdo de qualquer acordo for contrário ao princípio da nossa fé, não tem necessidade de segui-lo”.

Para justificar a evocada dissociação com respeito a eventuais acordos entre a China e a Santa Sé aprovados pelo Papa, Zen cita (propondo uma síntese livre, que não representa o texto original) as palavras do Papa Bento XVI aos católicos chineses (de junho de 2007) e na qual se declara que os princípios da autonomia, da independência, da autogestão e da administração democrática da Igreja perseguidos pela Associação Patriótica e pelos demais organismos patrióticos inspirados pelos aparelhos políticos chineses, não são “conciliáveis” com a doutrina católica. “Vocês, escreveu o cardeal aos irmãos e irmãs do Continente, não devem nunca, por motivo algum, unir-se à Associação Patriótica”.

Na parte final da sua breve mensagem, o cardeal emérito prognostica um futuro de catacumbas para os que não queiram aceitar o acordo entre a Santa Sé e a China, e que, na sua opinião, devem estar prontos para renunciar à prática pública dos sacramentos e da vida eclesial que hoje conotam e alimentam a condição ordinária e cotidiana dos católicos chineses.

“No futuro – explicou Zen comparando os efeitos de um possível acordo entre a China e o Vaticano com as condições que viveram os cristãos chineses nos anos obscuros e cruéis da Revolução Cultural –, devemos temer que já não terão um lugar público para rezar, mas poderão rezar em casa; e embora não exista a oportunidade de receber os sacramentos, o Senhor Jesus irá ao seu coração; e embora já não fosse possível ser sacerdote, poderão voltar para casa e cultivar os campos. O sacerdote é sacerdote para sempre”.

A mensagem de Zen termina com frases tranquilizadoras para os seus leitores: a resistência que propõe diante de um eventual acordo entre Pequim e a Sé Apostólica poderia ser breve: “A Igreja primitiva, escreveu o cardeal que nasceu em Shangai, teve que esperar 300 anos. Não creio que tenhamos que esperar tanto. O inverno está para acabar”.

O apelo do cardeal Zen para ignorar eventuais decisões futuras aprovadas pelo Papa representa uma fratura anunciada, depois da mobilização, que já dura 20 anos, do alto prelado de Hong Kong contra todos os passos dados pela Sé Apostólica no campo das relações entre os aparelhos estatais chineses e a Igreja católica que não considerava adequados.

O arsenal do cardeal de 84 anos inclui a deslegitimação das posições que não compartilha e que apresenta sempre como ambíguas e, na sua opinião, que cedem no nível da sã doutrina, motivo pelo qual seriam suspeitas de suposto oportunismo e mancomunação interesseiro com o poder chinês e, sobretudo, uma representação fixa e pré-fabricada da vida do catolicismo chinês durante os últimos 70 anos, com a finalidade de ocultar todos os dados da realidade que não servem para a sua permanente luta.

Por exemplo, para reconhecer como um pretexto a objeção de consciência proposta perante eventuais acordos sino-vaticanos aprovados pelo Papa, tingidos a priori de condescendência para com os organismos patrióticos construídos pelo poder chinês, bastaria recordar que João Paulo II e Bento XVI, durante seus respectivos pontificados, legitimaram ou nomearam diretamente dezenas de bispos chineses que tinham relações ordinárias com esses organismos e inclusive alguns tinham importantes cargos em seu interior.

Para o Papa Wojtyla e para o Papa Ratzinger, o fato de que os bispos pertencessem formalmente à Associação Patriótica dos católicos chineses nunca foi, em si mesmo, um obstáculo para a plena e reconhecida comunhão sacramental e hierárquica entre esses bispos e o Sucessor de Pedro. E ninguém impôs sua saída formal da Associação Patriótica como condição para obter o mandato pontifício ao próprio ministério episcopal.

João Paulo II e Bento XVI sempre indicaram a via do diálogo, e não do confronto, como instrumento para resolver os problemas vividos pelo catolicismo chinês nas relações com as autoridades civis.

Seja como for, no delicado momento em que se encontram atualmente as relações sino-vaticanas, as indicações divulgadas pelo cardeal Zen dizem respeito a todos, a começar pelos católicos chineses: bispos e sacerdotes, religiosos e leigos, aos ditos oficiais e clandestinos. Cada um, na liberdade da própria consciência iluminada pela fé, poderá entesourar esse “sensus fidei” que, no ex-Império Celeste, foi guardado inclusive nos tempos difíceis da cruel perseguição. O mesmo “sensus fidei” que sempre assinala também a comunhão real com o Bispo de Roma, Sucessor de Pedro.

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