Charles de Foucauld e a fascinante conversão pelo amor a Jesus e aos pobres. Entrevista especial com Dom Edson Taschetto Damian

Por ocasião da canonização do religioso, bispo reconta seus passos e vê neles a inspiração para que, em tempos de pandemia, busquemos a igreja primitiva e um olhar ao outro

Foto: SSPX.org

Por: João Vitor Santos | 11 Junho 2020

No último domingo, a Igreja recordou Pentecostes, quando uma lufada do Espírito anima os primeiros cristãos a seguirem anunciando a Boa Nova. Poucos dias antes, essa mesma Igreja reconhecia a santidade do religioso francês Charles de Foucauld. Isso tudo num momento em que a pandemia de covid-19 impõe medidas de distanciamento, reconfigura as celebrações, mudando até mesmo as tradicionais procissões de Corpus Christi que são realizadas hoje. Para Dom Edson Damian, bispo de São Gabriel da Cachoeira, talvez a espiritualidade de Foucauld possa nos inspirar nesses tempos. “Foucauld é um convertido que nos fascina pelo amor apaixonado a Jesus e aos pobres”, destaca, na entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line.

Edson Damian ainda recorda que “nos primeiros séculos, a Igreja exprimiu sua catolicidade nos diferentes povos e culturas. Na beleza deste rosto pluriforme, a diversidade cultural não ameaça a unidade da Igreja”. Foi justamente essa Igreja dos primeiros séculos que a experiência do sacerdote francês remontou. “De Foucauld foi precursor do Vaticano II. Quando foi viver entre os Tuaregues sabia que dificilmente se converteriam ao cristianismo”, observa Dom Edson. Ou seja, foi capaz de viver uma igreja sem o verniz da “cultura greco-romana ocidental” que foi tornando a Igreja “hegemônica e dominadora”. Sem impor a conversão, foi capaz de dialogar. “Entre muçulmanos e Tuaregues o ardor missionário de Charles cedeu lugar ao contemplativo que descobria a força da evangelização conduzida pela bondade e comunicada pelo testemunho silencioso”, detalha.

Dom Edson também relaciona a espiritualidade de Charles de Foucauld a este momento de pandemia. Talvez, ele possa ser a chave para a própria Igreja e o cristianismo saírem diferentes de todo esse processo. “A credibilidade da Igreja será testada pelo modo como soubermos radicalizar a opção pelos pobres. Fechar os olhos diante do próximo nos torna cegos diante de Deus”, adverte. E para aqueles mais angustiados por não irem ao templo, aconselha: “não poder frequentar templos, decerto, poderá estar contribuindo para que as famílias reaprendam a rezar e ler juntos a Palavra de Deus, para que descubram a igreja doméstica, que é a sua própria casa”.

Dom Edson Taschetto Damian (Foto: REPAM)

Dom Edson Taschetto Damian é bispo de São Gabriel da Cachoeira, Amazonas, próximo da fronteira com a Colômbia e Venezuela. Também é membro da Fraternidade Sacerdotal Jesus Cáritas, que segue a espiritualidade de Charles de Foucauld. A diocese que dirige é uma das mais extensas, tem 293.000 km², e pobres do Brasil, com cerca de 95% da população pertencente a 23 etnias indígenas que habitam a região e que falam 18 línguas. Desde 9 de maio de 2019, é presidente do Regional Norte 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.

 

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line – Quem foi Charles de Foucauld e como compreender sua espiritualidade?

Edson Damian – Antes de tudo, algumas datas e momentos importantes nos ajudam a compreender quem foi de Foucauld.

Charles de Foucauld é um convertido que nos fascina pelo amor apaixonado a Jesus e aos pobres e também pela capacidade de exceder-se em generosidade nas várias etapas de sua conversão. “É preciso mudar muito para permanecer o mesmo”, ensina-nos dom Helder Câmara. O teólogo Yves Congar disse que “Terezinha de Lisieux e Charles de Foucauld foram os grandes faróis que iluminaram o século XX”. Louis Massingnon, amigo que o conhecia bem, o descreve como: “um místico em estado puro”. E o padre Huvelin, conselheiro espiritual desde a conversão, afirma: “ele fez da religião um amor. Nele fé e amor nunca existiram separados”. Diz de Foucauld: “perdi meu coração por aquele Jesus de Nazaré crucificado há 1900 anos e passo minha vida procurando imitá-lo, na medida em que minha fraqueza permite. A semelhança é a medida do amor”.

Foucauld pertencia a uma família da aristocracia. Órfão aos seis anos, foi educado pelos avós maternos. Recebeu formação cristã, mas na adolescência perdeu a fé e caiu numa vida mundana, totalmente desregrada, como ele mesmo descreve: “eu era só egoísmo, só impiedade, só desejo do mal, estava como que enlouquecido”. Ingressou na Escola de Cavalaria, mas foi expulso por indisciplina.

Apresentou-se ao exército, que precisou de voluntários para ir a Argélia, colônia francesa. Lá foi impactado pela fé dos muçulmanos. Fez uma oração que repetia constantemente: “Deus, se tu existes, faça com que te conheça”. Aprendeu árabe, estudou o Corão, decidido a se tornar muçulmano. Retornou a Paris e foi acolhido pela prima Marie de Bondy, profundamente cristã, amiga desde a infância, pela qual tinha grande admiração. Através dela reaproximou-se novamente do cristianismo.

 

“Não podia fazer outra coisa a não ser viver só para ele”

 

Certo dia, pediu que a prima lhe sugerisse um padre inteligente para discutir o cristianismo. Indicou-lhe seu confessor, que através dela já conhecia a busca de Charles. Ao procurá-lo, na igreja de Santo Agostinho, este simplesmente o levou ao confessionário e lhe disse: “ajoelhe-se e confesse os seus pecados”. Depois o levou ao sacrário e lhe deu a comunhão. Assim descreveu depois este momento: “logo que descobri que Deus existe, entendi que não podia fazer outra coisa a não ser viver só para ele. Minha vocação religiosa começa no exato momento em que despertou a minha fé”.

A partir desta experiência, buscou vários caminhos, até retornar novamente ao Saara, na Argélia, “para levar o banquete da Eucaristia aos mais pobres e afastados”. Viveu em Beni Abbé e finalmente em Tamanrasset, onde foi assassinado, no dia 01/12/1916 por um grupo hostil aos cristãos.

 

Quem foi, afinal, Charles de Foucauld?

 

Um monge? Um monge que não se adaptou ao mosteiro, mas viveu como um contemplativo, no meio do mundo e dos pobres, fiel à intuição beneditina do “ora et labora”.

Foi eremita? Viveu só, porém, sempre desejou ter companheiros, e a relação com as pessoas sempre foi intensa e contínua. Ele mesmo conta que o dia mais feliz de sua vida foi quando os nômades chamaram seu humilde eremitério de “fraternidade”, e a ele de “Irmão universal”.

Foi presbítero? Ordenado na diocese de Viviers e Fidei Donum para viver entre os pobres do Saara. Atuou onde não existia nenhuma presença organizada da Igreja, com a consciência de que preparava o caminho para os que viriam depois.

Foi missionário? Sim, mas num estilo diferente, porque diretamente, não converteu, não batizou ninguém, nem exerceu uma pastoral oficial. Foi presença fraterna, testemunho de amizade e solidariedade. Assim ele mesmo expressa a sua missão: “meu apostolado deve ser o da bondade. Vendo-me, os outros poderão dizer: já que esse homem é tão bom, sua religião deve ser boa. Se me perguntarem por que sou manso e bom, devo dizer: porque sou servo de alguém muito melhor do que eu. Ah, se soubessem o quanto é bom meu Senhor Jesus! Gostaria de ser bom para que dissessem: se assim é o servo, como então será o Senhor?”.

IHU On-Line – Qual foi o milagre atribuído ao beato de Foucauld que agora o levará a ser declarado santo?

Edson Damian – No dia 20/05/2020, a Congregação para a Causa dos Santos anunciou que de Foucauld será canonizado. Foi um caminho longo e tumultuado. O processo iniciou em 1925 com a escuta de testemunhos sobre sua vida. Datilografaram uma montanha de escritos de Charles: 539 laudas de trabalhos científicos, 2.417 de correspondências e 7.624 de escritos espirituais e meditações do evangelho. No total, 14.580 laudas.

No Concílio Vaticano II, de Foucauld esteve presente através do testemunho de vários bispos que seguiam sua espiritualidade e desejavam uma Igreja servidora e pobre. Este é o título – “Por uma Igreja Servidora e Pobre” que aproximadamente 500 bispos, entre os quais dom Helder Câmara, deram ao famoso Pacto das Catacumbas, firmado na Catacumba de Santa Domitila, no dia 16/11/1965.

O milagre atribuído a Charles de Foucauld não é uma cura miraculosa, propriamente dita, mas uma proteção num grave acidente. Um jovem carpinteiro, também chamado Carlos, caiu de um andaime de 15 metros em uma capela. Acidente que poderia levá-lo à morte ou à invalidez. O fato aconteceu em Saumur, onde morou de Foucauld. Lá existe uma paróquia dedicada a ele. No dia 30/11/2016, quando iniciava a memória litúrgica, em comemoração ao centenário da sua morte (01/12/1916), o operário acidentado foi colocado imediatamente sob a proteção dele. Uma semana depois do acidente, o carpinteiro deixava o hospital sem nenhuma sequela.

Em breve, servirá para Charles de Foucauld o que ele dizia em relação aos santos e santas: “admiramos os santos para seguir Jesus”.

IHU On-Line – Podemos compreender a experiência de Charles de Foucauld como uma prática da inculturação da fé proposta pelo Papa Francisco? Quais os desafios para levar adiante a inculturação hoje?

Edson Damian – Desde Pentecostes, a Igreja nasceu com muitos rostos. Nos primeiros séculos, a Igreja exprimiu sua catolicidade nos diferentes povos e culturas. Na beleza deste rosto pluriforme, a diversidade cultural não ameaça a unidade da Igreja. Mas, com o passar do tempo, a cultura greco-romana ocidental foi se tornando hegemônica e dominadora. E foi assumida também pela Igreja que tornou o cristianismo monocultural e monocórdico. Passaram-se muitos séculos até que nossa Igreja voltasse às fontes e descobrisse as “Semina Verbi” (Ad Gentes, 11), presentes em todos os povos e culturas. Isto quer dizer que o Espírito Santo sempre chega antes do missionário.

Nesse aspecto, de Foucauld foi precursor do Vaticano II. Quando foi viver entre os Tuaregues sabia que dificilmente se converteriam ao cristianismo. Confessou a um amigo protestante: “não estou aqui para converter os Tuaregues, mas para tentar compreendê-los. Acredito que o bom Deus acolherá nos céus aqueles que forem bons e honestos. Os Tuaregues são muçulmanos, mas Deus receberá todos, se merecermos”.

Entre muçulmanos e Tuaregues o ardor missionário de Charles cedeu lugar ao contemplativo que descobria a força da evangelização conduzida pela bondade e comunicada pelo testemunho silencioso. “Você quer saber o que se pode fazer pelos nativos: não é hora de falar-lhes diretamente de nosso Senhor; seria afugentá-los. É preciso confiar neles, fazer-se amigo, prestar-lhes pequenos favores, dar-lhes bons conselhos, unir-se em amizade a eles, exortá-los discretamente a seguir a sua religião, provar-lhes que os cristãos se amam. Gritar o Evangelho de cima dos telhados, não com palavras, mas com a vida”.

 

Testemunho

 

Para de Foucauld, o testemunho é a primeira forma de evangelizar. Aprender a língua deveria ser a tarefa inicial do missionário ad gentes. De Foucauld não só aprendeu a língua dos Tuaregues, como realizou a tarefa mais difícil: a decodificação da língua. Obra que demanda grande sensibilidade auditiva para traduzir os sons em palavras escritas. Fez a gramática e um grande dicionário Tuaregue-francês. Além disso, recolheu contos, provérbios e poesias que contêm a sabedoria deste povo.

O Papa Paulo VI, na Encíclica Populorum Progressio, cita de Foucauld, quando fala na obra dos missionários: “Fiel ao ensino e exemplo do seu divino fundador, que dava como sinal da sua missão o anúncio da Boa Nova aos pobres, a Igreja nunca descuidou da promoção humana dos povos aos quais levava a fé em Cristo. Em muitas regiões foram contados entre os pioneiros do progresso material e do desenvolvimento cultural. Basta relembrar o exemplo do padre Charles de Foucauld, que foi considerado digno de ser chamado, pela sua caridade, ‘Irmão universal’, e redigiu um precioso dicionário da língua Tuaregue. Sentimo-nos na obrigação de prestar homenagem a estes precursores tantas vezes ignorados, a quem a caridade de Cristo impelia a servir generosa e desinteressadamente aqueles que evangelizam” (PP, 12).

 

Inculturação

 

A inculturação é um processo exigente e prolongado. Na diocese de São Gabriel da Cachoeira, no coração da Amazônia, onde 90% da população é constituída por Povos Indígenas de 23 etnias, o princípio que orienta nossa pastoral é este: “a boa nova das culturas indígenas acolhe a Boa Nova de Jesus”.

No prefácio ao livrinho que escrevi (Espiritualidade para o nosso tempo com Charles de Foucauld, Paulinas, 2007), Dom Pedro Casaldáliga diz: “quando a tentação da reconquista, da contabilidade, do marketing, paira sobre a pastoral e contamina pessoas e instituições eclesiásticas, vocês potenciam os meios pobres, o deserto, a Oração do Abandono, a busca do último lugar, a conversão do dia-a-dia. ‘Gritando o Evangelho com a vida’. Abrindo-se ao diálogo ecumênico e inter-religioso, do qual o irmão Carlos foi um exímio precursor”.

IHU On-Line – Numa entrevista que o senhor concedeu em 2008, disse que “num tempo em que a religiosidade torna-se de ruídos, balbúrdia de palavras e jogos de efeito, a espiritualidade foucauldiana é um contraponto para quem se sente mais evangélico no silêncio da oração”. Agora, diante da pandemia e das igrejas com celebrações sem público, muito se discutiu sobre o papel do templo na vida cristã. Como a espiritualidade de Charles de Foucauld pode nos ajudar a refletir sobre as celebrações suspensas?

Edson Damian – Esta colocação me fez lembrar a pergunta que a samaritana fez a Jesus no poço de Jacó: “onde se deve adorar a Deus? No templo de Jerusalém ou sobre a Montanha de Sicar?”. Jesus respondeu: “vem a hora, e é agora, em que os verdadeiros adoradores adorarão ao Pai em espírito e verdade, pois são estes adoradores que o Pai procura” (Cf. Jo 4,19-24).

Não poder frequentar templos, decerto, poderá estar contribuindo para que as famílias reaprendam a rezar e ler juntos a Palavra de Deus, para que descubram a igreja doméstica, que é a sua própria casa. Na intimidade da família em oração, certamente o Pai encontra “adoradores em espírito e verdade”. O livro do Atos dos Apóstolos descreve que a Igreja nasceu e se consolidou nas casas, e foi assim durante três séculos de perseguição contra os cristãos. Além disso, a suspensão dos trabalhos e das escolas poderá proporcionar aos pais um tempo precioso para dialogar com seus filhos, inventar momentos de partilha e brincadeiras que divertem e integram os membros da família.

 

Experiência de Foucauld

 

Muitas pessoas dizem que estão com saudades da Missa e sentem necessidade da força da Eucaristia. Em São Gabriel, a porta da catedral permanece aberta e o padre encontra-se lá para acolher quem chega. Outras pessoas me procuram em minha casa para pedir uma benção, para fazer uma confissão. Algumas também suplicam a Comunhão Eucarística. Lembro do que fez o padre Huvelin, logo após a confissão de Charles de Foucauld: levou-o ao sacrário e deu-lhe a Santa Comunhão.

Quando de Foucauld mudou-se para Tamanrasset, teve que permanecer mais de um ano sem poder celebrar a Eucaristia, porque lá não havia nenhum católico para acompanhá-lo. Provavelmente foi neste período que escreveu: “a passagem do Evangelho que mais transformou a minha vida foi: ‘aquilo que fizeste ao menor dos meus irmãos, foi a mim que o fizeste’, e quando se pensa que foram os mesmos lábios que disseram ‘isto é meu corpo, isso é meu sangue’, somos levados a procurar e amar Jesus nestes pequeninos’”. Com Blaise Pascal, aconteceu algo semelhante. Incompreendido pela Igreja, por algum tempo foi proibido de participar da Eucaristia. O que fez? Para viver na presença de Jesus, convidou um mendigo para morar com ele.

O Papa Francisco afirma que a Igreja em saída deve ser semelhante a um hospital de campanha. Numa sociedade pluralista e secularizada deve estar aberta e disponível para acolher e ajudar a todos, e não apenas aqueles que têm fé. Oferecer a todos acompanhamento espiritual sem proselitismo, arrogância clerical ou paternalismo. Isso só é possível através do diálogo, sem colocar-se na posição de quem ensina, mas para também aprender com os outros. De Foucauld, deixando-se conduzir-se pelo Espírito, foi precursor da Igreja que deseja ser um hospital de campanha. Oxalá todos nós, no pós-covid-19, saiamos mais contemplativos, mais fraternos, hospitaleiros e solidários, principalmente com os pobres, que estarão ainda mais empobrecidos e numerosos.

IHU On-Line – Que contribuições o testemunho e a espiritualidade de Charles de Foucauld trarão para a Igreja, pós-covid-19?

Edson DamianKarl Rahner fez uma constatação que nos atinge a todos: “o cristão do século XXI será místico ou não será cristão”. Charles de Foucauld tem muito a nos ensinar, pois é “um místico em estado puro”. Soube conciliar a profunda contemplação com a radical opção pelos mais pobres e excluídos, com os quais foi viver para amar e servir.

O escritor alemão Ludwig Kaufmann escreveu o livro “Damit wir morgen Christ sein können”. A tradução literal seria “Para que nós também possamos ser cristãos amanhã”. Ediciones Paulinas da Espanha traduziu assim: “Tres Pioneros del Futuro – cristinanismo de mañana”. Quem são estes três pioneiros, precursores do amanhã? João XXIII, Oscar Romero e Charles de Foucauld. Escreve páginas admiráveis sobre cada um deles.

 

Retornar ao Evangelho

 

A Palavra de Deus e a Eucaristia são as duas fontes inesgotáveis de nossa espiritualidade, e de Foucauld soube integrá-las de forma exemplar em sua vida, numa época em que pouco se recomendava a leitura da Bíblia. Foi neste caminho que o Pe. Huvelin o introduziu, desde o início. “É preciso retornar sempre ao Evangelho. Se não vivermos o Evangelho, Jesus não vive em nós.” Aconselha o amigo Louis Massignon a ler o Evangelho de cada dia: “é necessário impregnarmos sempre do espírito de Jesus, lendo e relendo, meditando e tornando a meditar continuamente suas palavras e seus exemplos: que sua ação em nossa vida seja como a gota d’água que cai e recai sobre uma pedra sempre no mesmo lugar”.

Pe. Huvelin percebeu que de Foucauld era um homem prático e, antes mesmo de aprofundar intelectualmente sua fé, sentia necessidade de ver e tocar. Por isso o enviou à Terra Santa. Ele já havia escutado de seu confessor: “Jesus escolheu de tal modo o último lugar que ninguém lhe poderá tirar”. Foi o povoado de Nazaré que lhe causou a impressão mais profunda: “a vida humilde e obscura do divino carpinteiro de Nazaré. ‘Desceu com eles e foi a Nazaré’ (Lc 2,51): por toda sua vida, ele só desceu, desceu ao encarnar-se, desceu ao fazer-se filho de Maria, desceu ao obedecer, desceu ao fazer-se pobre, abandonado, exilado, supliciado, ao colocar-se sempre no último lugar”. E conclui: “Como posso viver na primeira classe se meu Mestre e Senhor viveu em tudo sempre no último lugar?”.

O “grito” evangélico converte-se em eco e reflexo da vida interior transformada pelo espírito de Jesus: “toda nossa vida, por mais silenciosa que seja, tanto a vida de Nazaré, a vida do deserto, como a vida pública, deve ser uma pregação do Evangelho pelo testemunho. Toda nossa pessoa deve respirar Jesus, todos os nossos atos, toda nossa vida deve gritar que somos de Jesus. Todo nosso ser deve ser uma pregação viva, um reflexo de Jesus, que brilhe um ícone dele”.

O Papa Francisco, desde a encíclica programática Evangelii Gaudium, coloca como centro da renovação da Igreja o encontro pessoal com Jesus e com o Evangelho. “A alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus” (EG 1). Quem o acompanha na Eucaristia que celebra diariamente na casa Santa Marta, percebe nele um evangelho vivo. Ele foi o protagonista no Documento de Aparecida (2005) que nos envia para sermos discípulos missionários de Jesus, uma Igreja em saída ao encontro das periferias geográficas e existenciais.

 

Papa Francisco e de Foucauld

 

Percebe-se uma profunda sintonia entre o Papa Francisco e de Foucauld. Escutemos o que ele diz: “O Evangelho é a Verdade que não passa de moda, porque é capaz de penetrar onde nada mais pode chegar. A nossa tristeza infinita só se cura com um amor infinito. (...) O verdadeiro missionário, que nunca deixa de ser discípulo sabe que Jesus caminha com ele, fala com ele, respira com ele, trabalha com ele. Sente Jesus vivo com ele, no meio da tarefa missionária. Se uma pessoa não o descobre presente no coração mesmo da entrega missionária, perde depressa o entusiasmo e deixa de estar seguro do que transmite, faltam-lhe força e paixão. E uma pessoa que não está convencida, entusiasmada, segura, enamorada, não convence ninguém” (EG, 265-266).

O Papa Francisco sempre nos traz a memória de São Francisco de Assis. Por isso, gostaria de sugerir a leitura de um excelente livro escrito por dom Beto Breis, OFM, bispo da Diocese de Juazeiro, intitulado: Francisco de Assis e Charles de Foucauld, enamorados do Deus Humanado (Paulus, 2017).

De Foucauld dedicava várias horas de cada dia para a oração silenciosa e adoração de Jesus na Eucaristia. Para ele, “Rezar é frequentar Jesus” e “a melhor oração é aquela que contém mais amor”. Inspirou-se em Santa Teresa D’Ávila que disse: “A oração é uma relação de amizade, permanecendo muitas vezes a sós, com quem sabemos que nos ama”.

Orientando um dia de espiritualidade durante um Encontro Nacional de Presbíteros, Dom Casaldáliga afirmou: “O evangelizador que não for capaz de permanecer pelo menos meia hora em silêncio diante do Senhor, neste dia não deveria pregar para ninguém, pois correria o risco de anunciar a si mesmo e não o Reino do Senhor e o Senhor do Reino”. Assim vamos percebendo que o êxito da evangelização é obra do Espírito Santo, mas depende, em grande parte, da espiritualidade e da mística de quem evangeliza.

 

O último lugar

 

A busca do último lugar”, que de Foucauld testemunhou de forma existencial e geográfica, apresenta-se hoje como um antídoto à autorreferencialidade da Igreja que se expressa no clericalismo, no carreirismo, no autoritarismo e no mundanismo de seus ministros. Ministério origina-se de “minus-stare” que significa “estar abaixo”, para lavar os pés, servir a todos como fez nosso Mestre e Senhor. Charles de Foucauld quis ser pequeno para ser irmão de todos, a começar pelos excluídos e descartados.

 

Desafio de olhar pelos pobres

 

A pandemia está escancarando a assustadora e cruel desigualdade social de nosso país, onde perdura a estrutura nefasta da casa grande e a senzala. Com o coronavírus e a crise econômica que já se faz sentir, os pobres ficarão ainda mais empobrecidos. A credibilidade da Igreja será testada pelo modo como soubermos radicalizar a opção pelos pobres. Fechar os olhos diante do próximo nos torna cegos diante de Deus. Diz o Papa Francisco: “Quando São Paulo foi ter com os Apóstolos em Jerusalém, para discernir ‘se estava a correr ou tinha corrido em vão’ (Gl 2,2), o critério-chave de autenticidade que lhe indicaram foi que não se esquecesse dos pobres (...) A própria beleza do Evangelho nem sempre a conseguimos manifestar adequadamente, mas há um sinal que nunca deve faltar: a opção pelos últimos, por aqueles que a sociedade descarta e lança fora” (EG 195). Esta opção está no DNA de nossa Igreja desde as suas origens.

As comunidades cristãs missionárias deverão testemunhar Jesus Cristo com parresia, “gritar o Evangelho com a vida”. Os cristãos leigos e leigas deverão ser protagonistas, engajar-se com as instituições e movimentos para defender os direitos dos pobres, lutar pela justiça social e cuidar da Casa Comum.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Edson Damian – Por fim, gostaria de convidá-lo para rezar a Oração do Abandono. Ela ocupa lugar central na espiritualidade foucauldiana. Expressa o grito de confiança, de esperança e de serenidade que acompanhou de Foucauld, sempre certo de que Deus “é o Senhor do impossível”.

A Oração do Abandono é um prolongamento da última oração de Jesus, quando, do alto da Cruz, entrega sua vida ao Pai: “Meu Pai, em vossas mãos eu entrego meu espírito” (Lc 26,46). A importância atribuída a esta oração aparece na maneira como ele mesmo a introduz: “é a última oração de nosso Mestre, de nosso Bem Amado Irmão e Senhor Jesus. Possa ela ser também a nossa oração e que não seja rezada apenas no último instante, mas em todos os momentos de nossa vida”.

Partilho também um canto que é considerado o hino da fraternidade.

Oração do abandono

Meu Pai,
a vós me abandono,
fazei de mim o que quiserdes:
O que de mim fizerdes
eu vos agradeço.

Estou pronto para tudo,
aceito tudo,
contanto que a vossa vontade
se faça em mim
e em todas as vossas criaturas.

Não quero outra coisa, meu Deus.
Entrego minha vida
em vossas mãos.

Eu vo-la dou, meu Deus,
com todo amor do meu coração
porque eu vos amo.

E porque é para mim
uma necessidade de amor
dar-me, entregar-me
em vossas mãos, sem medida
com infinita confiança
porque sois meu Pai.

 

Hino da fraternidade 

1. Jesus, eu irei te cantar pela vida. Jesus, eu irei te anunciar para sempre aos irmãos. Pois só tu és a paz e o amor dos cristãos. Jesus, eu irei te cantar pela vida.
2. Jesus, eu irei te louvar pela vida. Jesus, eu quisera meu amor fosse o eco de meu Deus. E vivendo na terra e crescendo o teu Reino. Jesus, eu irei te louvar pela vida.
3. Jesus, eu irei te amar pela vida. Jesus, te acolhendo no pobre e no irmão sofredor, em defesa da vida e direitos humanos. Jesus, eu irei te amar pela vida.
4. Jesus, eu irei te servir pela vida. Jesus, dando a ti meu viver, meu sofrer, meu amor pela luta em favor da Justiça e da Paz. Jesus, eu irei te servir pela vida.
5. Jesus, eu irei te anunciar pela vida. Jesus, a “gritar o Evangelho com a vida” aos irmãos, prá que sejam discípulos e missionários. Jesus, eu irei te anunciar pela vida
6. Jesus eu irei te levar pela vida. Jesus, a viver teu Mistério Pascal que é Amor. Pois, teu Corpo e teu Sangue por mim entregaste. Jesus, eu irei te levar pela vida.

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