Biografia repleta de detalhes põe Santo Agostinho em perspectiva

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22 Janeiro 2016

 O livro “Augustine: Conversions to Confessions” pode ser informativo à enésima potência, mas não é denso. Robin Lane Fox diz ter escrito esta biografia para todos os leitores, inclusive aqueles que, em uma era pós-cristã, não compartilham das crenças religiosas de Agostinho.

A reportagem é de Diane Scharper, publicada por National Catholic Reporter, 13-01-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Figura imponente na filosofia ocidental, Santo Agostinho (354-430), bispo de Hipona, veio de Tagaste, pequena cidade da África do Norte. Depois de uma juventude devassa, mas com uma formação profunda, ele se converteu, tornou-se sacerdote e, mais tarde, bispo. Mais de 100 livros, 240 cartas e 500 sermões são atribuídos a ele.

De todos esses livros, dois deles (“Cidade de Deus” e a sua autobiografia “Confissões”) são ainda amplamente lidos mais de 1500 anos depois. Em 1298, o Papa Bonifácio VIII o reconheceu como Doutor da Igreja. Os protestantes o consideram um erudito teológico na tradição do apóstolo Paulo.

Fox sugere que uma mente brilhante e propensa para o misticismo dirigiu o sucesso de Agostinho. Destacado historiador e professor emérito da New College, Oxford, Fox é um dos tradutores das Confissões (“The Confessions”), obra publicada pela Everyman’s Library. Ele se considera um estudioso da tradição ocidental (não é católico) e vê Agostinho como um gigante intelectual em vez de um santo.

A sua narrativa se move em termos cronológicos, começando com o nascimento do pensador. Em cada fase da vida de Agostinho, Fox debate eventos históricos relacionados, tendências religiosas e movimentos filosóficos, bem como as tendências educacionais e culturais.

O autor também explica conceitos como platonismo, neoplatonismo e maniqueísmo, seita a qual Agostinho se juntou durante nove anos aproximadamente e, mais tarde, combateu.

Ainda que a quantidade de detalhes possa parecer esmagadora, Fox descreve tudo de forma cativante. Ele igualmente crê que não se pode compreender Agostinho sem se ter presente o seu contexto.

Fox ainda inclui descrições das vidas de dois contemporâneos – um pagão e um cristão – mostrando como eles lidavam com questões que afligiam Agostinho.

Nas Confissões, Agostinho pouco fala sobre Patrício, seu pai, mas não porque eles não se davam bem, como alguns biógrafos dão a entender. A citada obra trata da relação de Agostinho com Deus, e visto que Patrício fora pagão até ser batizado no leito de morte, Fox acredita que a sua vida acabou sendo irrelevante. (Para constar, Fox acredita que Agostinho herdou a sua personalidade extrovertida e calorosa de seu pai.)

Mas as discussões de Agostinho sobre a sua mãe, quem ele considera a fonte da graça divina, são bastante relevantes. Agostinho escreve que estava a “saborear de seu sal logo que [saiu] do ventre de minha mãe”.

Mônica (ou “Monnica” cuja grafia deriva, segundo Fox, do nome de “Ammonica”) era uma pessoa sem formação, diferentemente de seu filho. Nascida numa família cristã em 331 ou 332, casou-se com 16 anos e teve Agostinho um ano depois.

Mônica amou profundamente o seu filho. Este amor se tornou um fardo na medida em que tentou diminuir os seus modos libertinos durante a juventude do menino. Agostinho a deixou, mas ela logo se juntou a ele. “Ela amava o meu estar com ela como as mães amam”, comenta Agostinho, “mas muito mais do que muitas amam”.

Curiosamente, Fox compara a relação deles com a de Paul Morel e sua mãe em “Sons and Lovers”, de D.H. Lawrence. Em ambos os casos, os homens foram influenciados por suas mães, mas Agostinho, depois de ter abandonado a sua concubina, levou as orientações de Mônica um pouco mais adiante escolhendo uma vida celibatária porque era um valor cristão importante, em oposição a se casar com uma pessoa de sua classe social, conforme ela lhe havia pedido.

Na qualidade de viúva, Mônica morou com Agostinho em Milão, onde se tornou seguidora do bispo local, Ambrósio, quem mais tarde converteu o seu filho ao catolicismo romano. Nesse ínterim, Mônica teve, segundo Agostinho, visões de Deus e anjos. Uma delas mostrou que ela e seu filho trabalhariam juntos na difusão da mensagem cristã.

Quando Mônica morreu em 387 em Ostia, esta sua visão pareceu se concretizar. Santo Ambrósio havia recentemente batizado Agostinho.

Agostinho escreveu Confissões quando estava na casa dos 40 anos. Embora seja chamada uma autobiografia, Fox considera esta obra uma oração em formato de livro dirigida a Deus, que é o “você” endereçado ao longo do texto.

O tom de intimidade do livro pode ser atribuído à crença do autor de que tinha visões e ouvia Deus lhe falar. Ainda que Fox não acredite nas visões de Agostinho, ele se inspira na sua obra dizendo: “Nós jamais iremos terminar com as suas confissões porque elas jamais terminarão conosco”.

A obra Confissões compõe-se de 13 livros, cada um contendo muitos capítulos – alguns contendo apenas um parágrafo. Dividida em duas partes, Confissões discute “O que eu fui certa vez” e “O que sou hoje”.

As primeiras nove seções cobrem o começo da vida de Agostinho, a sua obstinação, a sua relação com uma concubina e o filho que tiveram, a sua crença na astrologia, a sua afiliação em uma seita maniqueísta, suas várias conversões e a morte de sua mãe.

As partes posteriores, que Fox tem em mais consideração, são menos autobiográficas. Cobrem as meditações de Agostinho sobre assuntos como a história da criação e a natureza da alma e da memória. Fox salienta que estes temas inspiraram John Donne, Leo Tolstoy, James Joyce, Ezra Pound e outros gigantes da literatura.

Agostinho muitas vezes recorre à poesia em suas Confissões, sendo esta, creio eu, uma das razões pelas quais o livro ainda é buscado pelas pessoas. Infelizmente, Fox pouco diz sobre as figuras de linguagem presentes na autobiografia. Este é talvez o único aspecto onde a biografia de Fox poderia ter usado mais informações.

Além de falar de Deus a partir do coração, Agostinho é capaz de criar metáforas surpreendentes que ainda hoje falam com eloquência aos leitores – como nestas linhas que se seguem:

“Estreita é a casa de minha alma para que venhas até ela: que seja por ti dilatada. Está em ruínas; restaura-a. Há nela nódoas que ofendem o teu olhar: confesso-o, pois eu o sei; porém, quem haverá de purificá-la? A quem clamarei senão a ti?”

AUGUSTINE: CONVERSIONS TO CONFESSIONS
Robin Lane Fox
Publicado por Basic Books, US$35,00.

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