A redenção dos neoplatônicos

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25 Julho 2012

Há 20 anos, na Itália, assistimos a uma progressiva gradual da filosofia tardo-antiga. Esse período, que vai do século II d.C. até o século VI e que, na história do pensamento, é marcado por filósofos como Plotino, Porfírio e Proclo, não é mais considerado com desinteresse, como se, antes da filosofia medieval, pudéssemos ficar com Aristóteles ou, no limite, com Cícero. Prova disso, hoje, é a publicação da primeira obra científica de caráter divulgativo jamais lançado na Itália sobre o assunto: Filosofia tardoantica, editado por um dos maiores estudiosos de Plotino, Riccardo Chiaradonna (Ed. Carocci, 323 páginas). O livro é publicado justo quando a editora Adelphi traz às livrarias uma bela edição do texto Sui simulacri, de Porfirio (editado por Mino Gabriele, 287 páginas).

A reportagem é de Matteo Nucci, publicada no jornal La Repubblica, 21-07-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"O termo 'neoplatonismo', com o qual os iluministas definiram a filosofia tardo-antiga, já continha um juízo negativo", explica Chiaradonna, professor de filosofia antiga em Roma Tre. "Filósofos ecléticos, contaminados por elementos irracionais e mágicos, bem distantes da pureza de Platão. Filósofos de segunda ordem, portanto. Uma opinião dura de matar. Pensemos apenas que, na Itália, alguns escritos neoplatônicos circulavam, há cerca de 30 anos, de um modo semiclandestino, publicados por editoras neonazistas. O sumo intérprete era Julius Evola. Ao invés, os estudos influenciados pelo espiritualismo e pela metafísica cristã tinham um nível totalmente diferente. Estudos, no entanto, muito orientados, cuja ressonância era limitada por causa do clima cultural caracterizado pela contraposição entre católicos e marxistas".

O momento de virada veio com a extinção desse clima.

"Exatamente. Deixou-se de pensar que se você estuda Plotino ou Proclo você é meio religioso. E se começou a entender que essa filosofia é muito rica e que os vários interesses dos neoplatônicos não estão em contraste entre si. Consideremos Juliano, o Apóstata: ele foi general, imperador, místico e filósofo. Uma unidade profunda. Hoje, acreditamos que o ímpeto místico e o rigor racional são incompatíveis. Mas, no fim da antiguidade, os filósofos que evocavam os demônios eram os mesmos que estudavam a lógica de Aristóteles. Um fenômeno estranho para nós. Mas que pode se revelar muito fascinante".

Além dessa riqueza particular, qual é a principal contribuição do neoplatonismo para a história do pensamento?

"A filosofia antiga passou para as épocas posteriores na forma que lhe foi dada pelos neoplatônicos: Dante, a Escolástica, o Renascimento seriam impensáveis sem a filosofia tardo-antiga. Além disso, o que nós lemos da filosofia antiga nos chega mediado pelos neoplatônicos. As obras estudadas nesse período foram, de fato, aquelas que sobreviveram. Por isso, possuímos os escritos de Platão e de Aristóteles, enquanto não temos os dos estoicos. Aos neoplatônicos, devem-se concepções geniais. Só um exemplo: Plotino foi o primeiro a compreender a importância do inconsciente para a nossa vida psíquica. As suas páginas sobre a consciência e a memória são muito poderosas".

Mas a forma principal dessa filosofia foi o comentário, que, em geral, somos levados a considerar como uma forma estéril, não original.

"A exegese caracterizaria a filosofia até toda a Idade Média. Mas é através da exegese que se transmitem ideias originais, apropriando-se delas e remodelando as autoridades antigas, acima de todas Platão e Aristóteles. Enfim, é a complexidade que marca esses filósofos. Perdê-la de vista levou a subestimá-los".

E essa subavaliação pertence definitivamente ao passado?

"Há um novo problema. Os neoplatônicos eram muitas vezes anticristãos. Pensemos em Porfírio, um dos últimos intelectuais enciclopédicos da antiguidade. Foi um filósofo refinado, filólogo, poeta, sacerdote de cultos pagãos e polemista anticristão. A sua obra perdida que a editora Adelphi publica provavelmente fazia parte de um projeto ideológico anticristão. Pois bem, hoje, assistimos uma nova moda: ver nesses sinais anticristãos o último baluarte da liberdade de pensamento. Assim, cantam-se hinos a Hipátia, por exemplo, sobre quem não sabemos quase nada. Mas, avaliados a partir do nosso ponto de vista, os neoplatônicos não eram menos intolerantes do que os cristãos, seus adversários. A liberdade de pensamento, como nós a entendemos, não existia".

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