"Morte das cristandades e nascimento da Igreja" com Francisco?

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10 Outubro 2013

"Nestes seis primeiros meses do pontificado de Francisco, tudo leva a crer que estamos presenciando a um projeto “eclesiogênico”: a Reforma de Francisco. Uma Reforma na forma de “conversão pastoral” (atitudes e estruturas) em via de mão dupla: de baixo para cima e de cima para baixo", escreve Sérgio Ricardo Coutinho

Sérgio Ricardo Coutinho é mestre (UnB) e doutorando (UFG) em História Social; professor de “História da Igreja” no Instituto São Boaventura e de “Formação Política e Econômica do Brasil” e de “Teoria Política” no Centro Universitário IESB, em Brasília; membro da Associação Brasileira de História das Religiões (ABHR) e presidente do Centro de Estudos em História da Igreja na América Latina (CEHILA-Brasil).

Eis o artigo.

O título deste texto faz alusão à conhecida tese de Pablo Richard defendida nos fins dos anos 1970 e publicada no Brasil nos inícios dos anos 1980 (RICHARD, Pablo. Morte das Cristandades e Nascimento da Igreja. SP: Paulinas, 1982). A hipótese de seu trabalho era que na América Latina, a partir dos anos 1960, uma maioria significativa da Igreja hierárquica preparou um processo irreversível de desestruturação e de superação definitiva da “Nova Cristandade”, e de rejeição, no futuro, de todo modelo ou projeto possível de seu retorno. Com isso, esse processo possibilitou o “nascimento” de outro modelo de Igreja que nascia da Boa-Nova anunciada aos pobres (uma eclesiogênese), das bases, de uma “Igreja pobre e para os pobres” (Igreja popular).

Para verificar tal hipótese, Richard estudou duas Igrejas nacionais: a do Brasil e da Argentina.

Os anos que se seguiram à sua tese, parecem que não confirmaram esta “irreversibilidade”. Mesmo que no Brasil e na Argentina a “Cristandade” não tenha se apresentado de forma mais estruturada politicamente como nos anos anteriores ao Concílio Vaticano II, o sonho de restaurar o poder eclesiástico para ditar as regras e os valores do viver social sempre se manteve no horizonte de muitos.

Pois bem, 30 anos após sua tese, eis que alguém vindo daquela mesma Igreja latino-americana, da Igreja da Argentina, das villas miserias de Buenos Aires, inicia um processo de mudanças estruturais e que, desta vez, tudo indica que serão mesmo irreversíveis. Pode-se acreditar nesta hipótese?

Entre os séculos XI e XV, de Gregório VII até os papas de Avinhão, a Cristandade ocidental atingiu o seu apogeu. A alma desse período foi a convicção do valor absoluto e definitivo do Cristianismo como doutrina, capaz de abraçar e ordenar por completo quer a vida individual quer a coletiva. Por isso, a gestão do poder social e político era uma obrigação de consciência e o máximo serviço que se podia prestar a fé.

Como bem apresentou Giuseppe Alberigo, o efeito mais grandioso desse período, e muito estudado ainda hoje pelos historiadores, foram os conflitos de competência e hegemonia entre o Papado e o Império, sendo o impacto mais profundo e duradouro a crescente afirmação de um estatuto “político” do cristianismo ocidental ao lado e depois, cada vez mais, no lugar do estatuto “espiritual”. Assim, toma corpo uma concepção de Cristianismo como “projeto histórico”. Um projeto com tendência totalizadora e vivido cada vez mais como expressão autêntica e cabal do evangelho. Revestido não só de matérias “mistas”, como de profanas, o Cristianismo exige de seus fiéis que se empenhem na conquista, conservação e defesa do poder político, que é o instrumento indispensável para a realização de um projeto histórico.

Com a chamada Reforma Gregoriana (termo consagrado ao papa Gregório VII, mas a reforma propriamente dita já havia se iniciado anteriormente ao seu pontificado), a Cristandade adquiriu uma densidade como realidade que, além da pressão hegemônica e absorvente sobre a sociedade e sobre suas organizações políticas, foi dotada de uma consistência própria, tendencialmente distinta – embora não autônoma – em relação à própria Igreja e em relação ao Império e aos Reinos. No entanto, deve ficar claro que a distinção entre Igreja e Cristandade naquela época pode ser formulada apenas de maneira inadequada. Igreja ocidental e Cristandade eram, em grande medida, coextensivas.

A dificuldade de se construir uma fronteira clara entre as duas realidades aparece claro a propósito do “Papado”. De fato, o Papado nestes séculos conheceu um aumento qualitativo, além do quantitativo, de competências, prerrogativas e privilégios. Mais que Bispo de Roma, sucessor de São Pedro e Patriarca do Ocidente, o papa se torna chefe da Cristandade e com jurisdição sobre as Cruzadas, sobre a cobrança de dízimos, sobre a promulgação com valor coercitivo de decretos “temporais” pelos Concílios gerais. Esses são alguns exemplos da agregação ao Papado (sem falar da Cúria que, principalmente em Avinhão, tem um desenvolvimento excepcional) de funções referentes mais à Cristandade que à Igreja.

Os movimentos de Reforma Católica e de Contrarreforma protestante, sendo o Concílio de Trento (1545-1563) o seu ponto de partida, mesmo em um contexto histórico muito diferente do período anterior, acabaram por reforçar elementos estruturais que tinham sido questionados. No campo litúrgico, a reação ao sacerdócio universal, caro a Lutero, produziu uma exaltação inédita do sacerdócio ministerial em nível espiritual e eclesial, mas também em nível social. Além disso, a identificação do sacerdote com Cristo e a redução da liturgia a normas de comportamento do celebrante diante da completa passividade dos fiéis. No campo propriamente eclesial, a concentração da formação do clero nos seminários, decretando a sua sacralização e levando a separar tendenciosamente o clero da vida cristã comum.

Posteriormente, com o fim da “Era das Revoluções” (séculos XVIII-XIX), no clima dominante das Restaurações monárquicas, difunde-se a convicção de que a sociedade já está dominada por orientações anticristãs e, sobretudo anticatólicas. A ameaça à soberania temporal do papa parecia, de fato, confirmar aquela percepção. Por isso, muitos se convenceram que a Igreja deveria tomar distância em relação à sociedade, encastelar-se em si mesma, para preservar melhor sua identidade e a verdade ameaçada. Fortalece-se, assim, uma concepção da Igreja como “sociedade perfeita”, ou seja, inteiramente autônoma e autossuficiente em relação à sociedade civil e, com Gregório XVI se formaliza o “método do bastão” para golpear erros e os que erram, seja fora ou dentro da Igreja.

Nesta perspectiva prevaleceu a busca de certezas e de ordem, e o Concílio de Trento, muito mais que o Vaticano I (1869-1870), foi sempre invocado como a resposta indiscutível do catolicismo romano para todas as fraquezas e desvios.

Mesmo que o Concílio Vaticano II (1962-1965) tenha “atualizado” a Igreja em alguns pontos na sua relação com o mundo moderno, os dois últimos pontificados apostaram mais na “continuidade” do projeto de Cristandade e de suas Reformas (Gregoriana e Tridentina).

Nestes seis primeiros meses do pontificado de Francisco, tudo leva a crer que estamos presenciando a um projeto “eclesiogênico”: a Reforma de Francisco. Uma Reforma na forma de “conversão pastoral” (atitudes e estruturas) em via de mão dupla: de baixo para cima e de cima para baixo.

O primeiro movimento: o abandono definitivo de uma Igreja autossuficiente, autorreferencial, “doente”, fechada em si mesma, controladora, burocrática, “pelagiana” e que vive “olhando para trás” em busca da restauração; para uma Igreja “acidentada”, que não tem medo de se arriscar; pastora, materna e misericordiosa para “curar as feridas”, que quer construir uma cultura do diálogo e do encontro, seja com cristãos, “não cristãos” e até mesmo com os “não crentes”; uma Igreja “pobre e para os pobres”, que valoriza a piedade popular e que vai às “periferias geográficas e existenciais” de Lampedusa, Cagliari e Varginha; que toca as pessoas reais (jovens, desempregados, migrantes, doentes e idosos) e que rejeita o atual modelo econômico que gera uma “globalização da indiferença”.

O segundo movimento: a ruptura com o modelo de Papado de tipo “gregoriano” (“vaticano-cêntrico”) e a opção por um governo mais colegial e sinodal. A oficialização do “G8” (o grupo dos 8 cardeais) como uma espécie de “Conselho Pastoral”, os primeiros passos para uma Reforma da Cúria que contribua para um ministério pretino mais colegial e mais sinodal com relação às Igrejas locais, deixando de ser uma “corte” (que “é a lepra do papado”), com os ministros ordenados cheirando “a ovelhas”, sem a “psicologia de príncipes” e com uma liturgia mais sóbria.

Enfim, conforme o próprio papa Francisco, este modelo “gregoriano” “vê e cuida dos interesses do Vaticano, que são ainda, em grande parte, interesses temporais. Esta visão Vaticano-cêntrica descuida do mundo que nos circunda. Não compartilho desta visão e farei tudo para mudá-la. A Igreja é e deve voltar a ser uma comunidade do povo de Deus, e os presbíteros, os párocos, os bispos estão a serviço do povo de Deus. A Igreja é isto, uma palavra, não por acaso, diferente da Santa Sé, que tem uma função importante, mas está a serviço da Igreja. Eu não teria a fé plena em Deus e no seu Filho se não fosse formado na Igreja e tive a sorte de me encontrar, na Argentina, numa comunidade sem a qual não teria consciência de mim e da minha fé”.

Demorou, mas parece-nos que podemos agora afirmar com Pablo Richard: enfim a “morte das Cristandades e o nascimento da Igreja”.

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