Quem foi Maria Madalena?

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21 Julho 2016

No dia 3 de junho passado, a Congregação para o Culto Divino publicou um decreto com o qual, "por expresso desejo do Papa Francisco", a celebração de Santa Maria Madalena, que era memória obrigatória, foi elevada ao grau de festa.

A reportagem é de Cristina Uguccioni, publicada no sítio Vatican Insider, 20-07-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O papa tomou essa decisão "para significar a relevância dessa mulher que mostrou um grande amor por Cristo e foi muito amada por Cristo", explicou o secretário do dicastério, o arcebispo Arthur Roche. Mas quem era Maria Madalena, que Tomás de Aquino definiu como "apóstola dos apóstolos"?

Magdala

Nos Evangelhos, lê-se que ela era originária de Magdala, vilarejo de pescadores na margem ocidental do Lago de Tiberíades, centro comercial de peixe denominado em grego de Tarichea (peixe salgado). Aqui, nos anos 1970, foi realizada uma extensa campanha de escavações pelos franciscanos do Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém: veio à tona uma vasta porção do tecido urbano, que compreende, dentre outras coisas, um grande praça em quadripórtico, uma casa em mosaico e um complexo termal completo.

Com escavações posteriores, os franciscanos também trouxeram à tona importantes restos de instalações portuárias. Em uma área adjacente, de propriedade dos Legionários de Cristo, uma campanha de escavações iniciada em 2009 permitiu reviver a sinagoga da cidade, uma das mais antigas descobertas em Israel: pela sua posição, na estrada que conecta Nazaré e Cafarnaum, considera-se que, provavelmente, ela tenha sido frequentada por Jesus.

Os equívocos sobre a identidade

Maria Madalena faz a sua aparição no capítulo 8 do Evangelho de Lucas: Jesus andava por cidades e vilarejos anunciando a boa notícia do reino de Deus, e com ele estavam os Doze e algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades, e lhe serviam com os seus bens.

Entre eles, estava "Maria, chamada Madalena, da qual haviam saído sete demônios". Como escreveu o cardeal Gianfranco Ravasi, "por si só, a expressão [sete demônios] podia indicar um gravíssimo (sete é o número da plenitude) mal físico ou moral que tinha atingido a mulher e da qual Jesus a tinha libertado. Mas a tradição, que perdurou até hoje, fez de Maria uma prostituta, e isso só porque, na página evangélica anterior – o capítulo 7 de Lucas –, narra-se a história da conversão de uma anônima ‘pecadora conhecida naquela cidade’, que tinha derramado óleo perfumado sobre os pés de Jesus, hóspede na casa de um notável fariseu, banhara-os com as suas lágrimas e enxugara-os com os seus cabelos". Assim, sem nenhuma conexão textual real, Maria Madalena foi identificada com aquela prostituta sem nome.

Mas há outro equívoco: de fato, continua Ravasi, a unção com o óleo perfumado é um gesto que também foi realizado por Maria, a irmã de Marta e de Lázaro, em uma ocasião diferente (Jo 12, 1-8). E, assim, Maria Madalena, "por parte de algumas tradições populares, será identificada precisamente com essa Maria de Betânia, depois de ter sido confundida com a prostituta da Galileia".

A libertação do mal

Afligida por um gravíssimo mal, do qual se ignora a natureza, Maria Madalena pertence, portanto, àquele povo de homens, mulheres e crianças feridos de muitos modos que Jesus subtrai ao desespero, restituindo-os à vida e aos seus entes queridos. Jesus, em nome de Deus, só faz gestos de libertação do mal e de resgate da esperança perdida. O desejo humano de uma vida boa e feliz é justo e pertence à intenção de Deus, que é Deus do cuidado, nunca cúmplice do mal, mesmo que o ser humano (fora e dentro da religião) sempre tem a tentação de imaginá-Lo como um prevaricador de intenções indecifráveis.

Sob a cruz

Maria Madalena aparece novamente nos Evangelhos no momento mais terrível e dramático da vida de Jesus. No seu apego fiel e tenaz ao Mestre, ela O acompanha até o Calvário e, junto com outras mulheres, permanece observando-O de longe. Depois, está presente quando José de Arimateia depõe o corpo de Jesus no sepulcro, que é fechado com uma pedra. Depois do sábado, na manhã do primeiro dia da semana – lê-se no capítulo 20 do Evangelho de João – ela volta ao sepulcro: ele descobre que a pedra foi tirada e corre para avisar Pedro e João, que, por sua vez, vão correr ao sepulcro, descobrindo a ausência do corpo do Senhor.

O encontro com o Ressuscitado

Enquanto os dois discípulos voltam para casa, ela permanece, em lágrimas. E tem início um percurso que, da incredulidade, abre-se progressivamente à fé. Inclinando-se sobre o sepulcro, ela entrevê dois anjos e lhes diz que não sabe onde foi colocado o corpo do Senhor. Depois, voltando-se para trás, vê Jesus, mas não O reconhece, pensa que é o jardineiro, e, quando Ele lhe pergunta o motivo daquelas lágrimas e quem ela está procurando, ela responde: "’Se foi o senhor que levou Jesus, diga-me onde o colocou, e eu irei buscá-lo.’ Então Jesus disse: ‘Maria’" (Jo 20, 15-16).

O cardeal Carlo Maria Martini, a esse respeito, comentava: "Poderíamos imaginar outros modos de se apresentar. Jesus escolheu o modo mais pessoal e o mais imediato: o chamado pelo nome. Em si mesmo, ele não diz nada, porque ‘Maria’ pode ser pronunciado por qualquer um e não explica a ressurreição, nem mesmo o fato de que é o Senhor que a está chamando. Todos, porém, compreendemos que esse chamado, naquele momento, naquela situação, com aquela voz, com aquele tom, é o modo mais pessoal de revelação, e que não diz respeito apenas a Jesus, mas a Jesus na sua relação com ela. Ele Se revela como o seu Senhor, Aquele que ela procura".

O diálogo no sepulcro continua: Maria Madalena "virou-se e exclamou em hebraico: ‘Rabuni!’ (que quer dizer: Mestre). Jesus disse: ‘Não me segure, porque ainda não voltei para o Pai. Mas vá dizer aos meus irmãos: Subo para junto do meu Pai, que é Pai de vocês, do meu Deus, que é o Deus de vocês’. Então Maria Madalena foi e anunciou aos discípulos: ‘Eu vi o Senhor’. E contou o que Jesus tinha dito" (Jo 20, 16-18).

A maternidade de Madalena

"Madalena é a primeira entre as mulheres no seguimento Jesus que O proclama como Aquele que venceu a morte, a primeira apóstola a anunciar a alegre mensagem central da Páscoa", observa a teóloga Cristiana Dobner, carmelita descalça. "Ela expressa a maternidade na e da fé, ou seja, aquela atitude a gerar vida verdadeira, uma vida como filhos de Deus, na qual o esforço existencial comum a cada ser humano encontra o seu destino na ressurreição e na eternidade prometidas e inauguradas pelo Filho, ‘primogênito’ de muitos irmãos (Rm 8, 29). Com Maria Madalena, abre-se aquela longa fileira, ainda hoje pouco conhecida, de mães [madres] que, ao longo dos séculos, se entregaram à geração de filhos de Deus e que podem ser postas ao lado dos Padres da Igreja: junto com a Patrística, também existe, escondida mas presente, uma Matrística. A decisão por Francisco é um belo dom, expressão de uma revolução antropológica que toca a mulher e investe sobre toda a realidade eclesial. A instituição dessa festa, de fato, não deve ser lida como uma vingança feminina: assim, se cairia estupidamente na mentalidade das ‘cotas rosas’. O significado é bem diferente: compreender que homem e mulher juntos, e somente juntos, em uma dualidade encarnada, podem se tornar anunciadores luminosos do Ressuscitado".

Na história da arte: a mirófora

Maria Madalena, ao longo dos séculos, foi representada principalmente de quatro modos: "Acima de tudo – afirma o Mons. Timothy Verdon, professor de história da arte na Stanford University e diretor do Museo dell'Opera do Duomo de Florença – ela é frequentemente retratada como uma das miróforas, as piedosas mulheres que, na manhã de Páscoa, foram ao sepulcro levando os unguentos para o corpo do Senhor. Entre elas, Maria Madalena é reconhecível pelo fato de que, a partir do fim da Idade Média, ela é representada com longos cabelos soltos, muitas vezes loiros: isso dá a entender que os artistas, de acordo com uma tradição que se afirmou no Ocidente (e não compartilhada no Oriente cristão), identificavam-na com a mulher pecadora que tinha enxugado os pés de Jesus com os próprios cabelos. Os cabelos longos, portanto, são uma alusão a esse contato íntimo e à condição de prostituta: as mulheres de bem não andavam por aí com os cabelos soltos".

A penitente

Na arte do fim da Idade Média, Maria Madalena também aparece como penitente, porque – explica Verdon –, segundo uma lenda, ela era uma grande pecadora que, depois da conversão e do encontro com o Ressuscitado, tinha passado a viver como eremita no sul da França, perto de Marselha, onde anunciava o evangelho: "O culto da Madalena penitente fascinou muitos artistas, que a consideraram o correspectivo feminino de João Batista. Em geral, ela é representada com roupas semelhantes às do Batista ou está coberta apenas pelos cabelos. A beleza exterior a abandonou, o rosto está marcado pelos jejuns e pelas vigílias noturnas em oração, mas ela é iluminada pela beleza interior, porque encontrou paz e alegria no Senhor. A estátua da Madalena penitente de Donatello, esculpida para o Batistério de Florença, é uma autêntica obra-prima".

A dolorosa

Muitas vezes, Madalena é retratada também aos pés da cruz: uma das obras mais significativas, na opinião de Verdon, é um pequeno painel de Masaccio (exposto em Nápoles), no qual Madalena é retratada de costas, sob a cruz, com os braços estendidos para Cristo, os longos cabelos loiros que caem quase espalhados sobre um enorme manto vermelho: "Uma imagem de forte dramaticidade. Não raramente, a dor composta da Virgem foi contraposta à de Madalena, quase sem controle. Pense-se, por exemplo, na Pietà de Ticiano, na qual a mulher avança como se quisesse chamar o mundo inteiro a reconhecer a injustiça da morte de Jesus, que jaz entre os braços de Maria; ou se pense no célebre grupo escultório de Niccolò dell’Arca, no qual, entre as muitas figuras, a mais teatral é precisamente a de Maria Madalena, que se precipita com a força de um furacão em direção ao Cristo morto".

Chamada pelo nome

Além disso, há muitas representações do encontro com o Ressuscitado: "São exemplares e magníficas as de Giotto, na Cappella degli Scrovegni (imagem acima), e de Fra Angelico, no Convento de São Marcos", conclui Verdon. "Maria Madalena viveu uma experiência de salvação profunda por obra de Jesus: quando ela se sente chamada pelo nome, acende-se nela a recordação de toda a história vivida com Ele: há tudo isso na iconografia da cena que chamamos de ‘Noli me tangere’".

Veja também:

  • Maria de Magdala. 'Apóstola dos Apóstolos'. Revista IHU On-Line, no. 489

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