Como foi o caminho de Charles de Foucauld aos altares?

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30 Mai 2020

Foi preciso se passarem 104 anos do seu assassinato em Tamanrasset (Saara argenlino), graças ao impulso do papa Francisco.

Com a data de 27 de maio, chega-nos a notícia de que o beato Charles de Foucauld será canonizado santo.

Ao final de sua vida, Foucauld não propôs mais uma ordem religiosa, e sim “um movimento evangelizador universal”.

O artigo é de J. L. Vàzquez Borau, publicado por Religión Digital, 27-05-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Eis o artigo.

Com a data de 27 de maio, chega-nos a notícia de que o beato Charles de Foucauld será canonizado santo. A canonização é o ato mediante o qual a Igreja Católica, tanto em seu rito oriental como no ocidental, declara como santa uma pessoa falecida.


Crédito: Religión Digital

O milagre aprovado pelo Papa, antes pela comissão teológica e previamente por unanimidade pela comissão médica da Causa dos Santos, é a sobrevivência quase sem sequelas de um jovem carpinteiro francês que caiu de um andaime a 15 metros de altura de uma igreja, apesar dos graves ferimentos.

Aconteceu cem anos depois de morrer o beato, em 30 de novembro de 2016, em Saumur (França), na igreja de Saint-Louis. Foi preciso se passarem 104 anos depois de seu assassinato em Tamanrasset (Saara argelino), graças ao impulso do papa Francisco. Passaram-se quinze anos desde sua beatificação em Roma, em 13 de novembro de 2005, quando o papa Bento XVI, falando em francês, deu graças a Deus pelo testemunho do padre de Foucauld dizendo que “através de sua vida contemplativa, escondida em Nazaré, encontrou a verdade da humanidade de Jesus, convidando-nos a contemplar o mistério da Encarnação. Descobriu que Jesus veio para se unir a nós em nossa humanidade, convidando-nos à fraternidade universal, vivendo mais tarde no Saara, dando-nos exemplo do amor a Cristo”. E seguiu dizendo: “Como padre, pôs a Eucaristia e o Evangelho no centro de sua existência”.

Como foi esse processo?


Crédito: Religión Digital

Em 01 de dezembro de 1916, Foucauld estava só em seu eremitério; em torno de quarenta rebeldes chegaram silenciosamente; alguém que o conhecia anunciou falsamente que eram os correios. Foucauld abriu a porta, pegaram-no e jogaram-no ao chão, colocando-o de joelhos na porta do eremitério; de joelhos e calado; mandaram-no colocar os braços para trás e ataram seus punhos; interrogaram-no, e ele disse em árabe: “Vou morrer”. Confiaram-no ao cuidado de um rapaz de quinze anos e saquearam o eremitério. Alguém grita: estão vindo dois soldados. Disparam. O rapaz fica nervoso e dispara em Foucauld; a bala entra por trás da orelha e sai pelo olho esquerdo. O drama dura um quarto de hora.

Foucauld queria ser enterrado onde morresse, porém os Padres Brancos trasladam seus restos aos pés da Basílica em El Golea (Argélia). Somente o coração de Foucauld fica em Tamanrasset.

O processo começou em 1925, em dez dioceses, Argel, Paris, Viviers, Périgueux, etc., onde houve testemunhos de sua vida, no que se chama o “processo requisitório”. Enquanto se reunia, classificava e decifrava tudo o que irmão Charles escreveu.

Dez anos, entre 1930 e 1940, demoraram as Irmãs Brancas de Argel para datilografar todo o material, já que de trabalhos científicos havia 539 laudas; escritos espirituais, 7.624; de correspondência, 6.417 laudas. No total, 14.580 laudas. Todo esse material, recolhido em três volumes, junto com as Atas dos diferentes Procedimentos, chegou a Roma em 1946.


Crédito: Religión Digital

Dez anos mais tarde, por causa da guerra da Argélia, o papa Pio XII pediu para parar o processo, que não se reabriu até março de 1967. O Concílio Vaticano II, que foi inaugurado pelo papa João XXIII, em 11 de outubro de 1962, deu um novo alento a essa causa, pois sem mencioná-lo diretamente, Charles de Foucauld esteve em primeiro plano. Apesar de seu nome não sair em nenhum documento, muitos bispos, as comunidades de base que surgiam por todas as partes e o movimento “Por uma Igreja servidora e pobre” liderada pelo padre Paul Gauthier em Nazaré, fizeram com que o processo avançasse. Foi nesse contexto que o padre Congar disse aos padres conciliares: “Teresa de Lisieux e Charles de Foucauld são dois faróis que Deus colocou em nosso caminho”.

Foi no ano de 1979 quando a Congregação para a Causa dos Santos pediu uma positio documentada, isto é, uma relação, com documentação de apoio, sobre as questões mais delicadas.

Quais eram as questões?

Primeira questão: Charles de Foucauld, que viveu com uma mulher quando teve um vida dissoluta, teve descendência? Pergunta difícil e delicada que o presidente da associação Amitiés Charles de Foucauld, o general Charles de Suremain, antigo especialista em documentos militares, durante três anos de pesquisa, tentou esclarecer. A senhora que viveu com Foucauld, conhecida pelo nome de Mimi, era de Pont-à-Mousson e foi bailarina. O general de Suremain pesquisou nos arquivos da ópera de Paris. Investigou em um grupo de bailarinas que vinham, convidadas por Foucauld, a suas movimentadas festas. Em nenhum caso o General encontrou rastros de Mimi, nem de qualquer outra bailarina que tenha visitado o jovem Foucauld.

Segunda questão: A congregação queria saber a razão pela qual durante toda sua vida, inclusive quando deixou o mundo, estava tão unido a sua família. E concretamente, qual foi sua relação com sua prima Maria de Bondy? Não houve uma história amorosa entre eles? Demonstrou-se que foi uma relação de profundo respeito. Foram seus diretores espirituais que o animaram a manter esses laços com sua família, que não o desprotegeu de bens, o que foi útil para a abadia de Trapa.

Terceira questão: As autoridades vaticanas queriam saber qual era a situação da compra que Foucauld fez da Montanha das Bem-Aventuranças, pois havia um litígio com os franciscanos, que finalmente se fizeram com o lugar. A Postulação pôde demonstrar que quem atuava em nome de Foucauld não ganhou dinheiro nessa gestão e que a família não recuperou o dinheiro adiantado.


Crédito: Religión Digital

Quarta questão: Roma queria se assegurar da estabilidade de sua vocação. Como explicar que quis ser trapista, ermitão e depois missionário? A Postulação conseguiu demonstrar que era uma mesma vocação à procura e que se poderia realizar.

Quinta questão: Quais foram suas relações com os militares franceses, por que alguns o apresentaram como espião do exército francês? A Postulação provou que se estava próximo aos soldados franceses era porque se sentia responsável por eles e desejava que tivessem um comportamento impecável. Em relação aos informes, esses não eram de índole militar, já que chegavam, dadas as distâncias, pelo menos dois dias depois de produzi-los.

Sexta questão: Por que foi tão virulento contra a Alemanha? Por que tanta paixão-ódio, em uma pessoa tão afável? A Postulação demonstrou que não atacava os alemães, mas sim a civilização prussiana profundamente anticatólica. Se falava de “cruzada”, palavra nada pacífica, era para defender a civilização cristã contra o paganismo alemão e contra a ideia de uma “raça forte”. Foucauld pensava sinceramente que um povo que faz guerra contra a França é hostil à Igreja e à liberdade.

Sétima questão: Era antissemita quando descrevia os judeus como “sujos, gananciosos e trapaceiros? Isso fez em uma descrição, em circunstâncias concretas, em sua viagem ao Marrocos, porém se sabe que logo teve amigos judeus.

Todas essas perguntas levaram muito tempo para serem respondidas, e a partir de 1990, a equipe de Postulação estava composta por cinco ou seis pessoas, autênticos militares foucauldianos que trabalhavam junto a dom Bouvier. Pierre Sourisseau, o secretário, o general de Suremain, o irmão de Jesús Antoine Chatelard, Maurice Serpette, e Louis Kergoat, sentiram-se às vezes um pouco sozinhos quando se tinha que prosseguir com as investigações. Ademais, tiveram que rebater ideias ou calúnias contra Foucauld, como a do escritor Jean-Edern Hallier, que escreveu uma biografia novelada e provocadora de Charles de Foucauld, “L’Evangile du fou” (O Evangelho do louco), onde o acusa de pedofilia por estar sempre rodeado de crianças; ou a resposta a Jean-Marie Muller, membro fundador do “Movimento por uma alternativa não-violenta”, que acusa Foucauld de ser colonialista e nacionalista por defender a guerra, ainda que fosse justa, pois, segundo o autor do livro “Charles de Foucauld, irmão universal ou monge-soldado”, diante da guerra nada é mais um anátema.

O que responder? Como provar? Essas questões são as que fizeram retardar a causa de beatificação e que de uma maneira clara e honesta são respondidas no livro escrito pelo postulador da causa Pierre Sourisseau e Jean François Six, El Testamento de Carlos de Foucauld, publicado na Espanha pelo Editorial San Pablo, em 2005.

Qual é a proposta de Foucauld hoje?

Foucauld não propôs ao final de sua vida uma ordem religiosa, mas sim “um movimento evangelizador universal”, “que será uma revolução na Igreja enquanto comunidade evangélica e evangelizadora, uma comunidade nômade com seus membros dispersos, mas que não atuam de maneira dispersa: estão reunidos na Comunhão dos Santos”. Hoje Foucauld tem uma grande família de um homem que morreu solitário! Em 1955, a Association Famille Spirituelle Charles de Foucauld contava com oito grupos ou fraternidades (irmãos, irmãs, fraternidade secular, sacerdotes, etc.), porém hoje são mais de vinte grupos ou movimentos associados em diversos países, com mais de 13 mil membros. E a família dos e das que encontram em Charles de Foucauld uma inspiração para suas vidas.


Crédito: Religión Digital

Atuando de que maneira?

Pelo testemunho pessoal e comunitário, e praticando o apostolado da bondade. Em um mundo cheio de palavras, frequentemente enganosas, temos necessidade de testemunhos de vida autênticos. Temos necessidade de silêncio adorador e compromisso pela justiça. A novidade da mensagem de Foucauld é conjugar bem estas três dimensões que Jesus viveu: Nazaré, Deserto e Palestina, porém sempre ancorado em Nazaré, vida humilde e pobre, utilizando sempre meios pobres.

Em uma palavra

Se tivéssemos que dizer em poucas palavras a relevância de Foucauld, diríamos que foi um homem que seguindo seu querido Senhor Jesus, se uniu no coração da Missão da Igreja, soube captar a paciência de Deus na realização dos seus planos e, em meio a um mundo que não conhecia Jesus, quis ser um Evangelho vivo, encarnando plenamente em seu ambiente, interessando-se pelo progresso humano e praticando o apostolado da bondade.

 

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