Charles de Foucauld: um mártir sem verdugos

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03 Dezembro 2016

Charles de Foucauld é a figura que ensina aos batizados a autêntica natureza do martírio cristão, muitas vezes distorcida pela “ideologia da perseguição”. O irmão Michael Davide Semeraro, monge beneditino e mestre de espiritualidade, oferece uma perspectiva muito original sobre o “pequeno irmão” e sobre sua herança, a cem anos de sua morte. A figura de Foucauld, como explica em seu livro “Charles de Foucauld. Explorador e profeta da fraternidade universal”, não é indiferente na intempérie eclesial contemporânea, marcada por uma relação para muitos problemática, quando não conflitiva com o islã.

A reportagem é de Paolo Affatato, publicada por Vatican Insider, 01-12-2016. A tradução é do Cepat.

A experiência de Charles é muito útil para voltar a considerar hoje o sentido e o significado profundo do martírio cristão: “Nele é vivido sem a necessidade de buscar o verdugo. Só assim se sai do círculo vicioso da vingança e se entra na esfera do Evangelho. O verdugo não é necessário para o mártir cristão: o que conta é a disponibilidade de dar a vida até o profundo”, explicou o beneditino ao Vatican Insider. Aqui está a sutil diferença, que distancia as histórias dos mártires daqueles que as utilizam como pretexto para mobilizações identitárias ou como ponto de partida para campanhas de indignação, em uma chave político-cultural.

Na atualidade, muitas vezes, o martírio sofre uma “modificação genética”, quando os sofrimentos dos fiéis são instrumentalizados segundo lógicas de poder e, inclusive, de acordo com os negócios. Ou quando o enfoque com o qual se vê é o da mera “reivindicação de direitos”, que se encerra na ala da Igreja “modelo Anistia Internacional”.

Charles de Foucauld representa para a história da Igreja um ponto do qual não se pode voltar: sua profecia caiu no deserto do Saara como o evangélico grão de trigo, o primeiro de dezembro de 1916. Abriu novos sendeiros e novos caminhos muito antes que o Concílio Vaticano II ganhasse consciência”, explicou Semeraro. O beneditino encontra em sua vida referências a Bento de Núrsia e a Francisco de Assis: “Da tradição beneditina, vivida no tempo em que passou como trapista, cultiva o aspecto contemplativo de atenção a Deus e aos irmãos. De Francisco de Assis imita a paixão por um constante retorno ao Evangelho sine glossa e a condição de minoridade, que sempre é o que permite dar o primeiro e incondicional passo até o outro”.

E se para o Santo de Assis a viagem para a tenda de Saladino representou um momento importante de seu caminho interior, “o encontro com o islã foi, para o visconde Charles de Foucauld, um chamado à interioridade e à transcendência. São justamente os muçulmanos, com sua atitude de oração diante do Altíssimo, que lhe permitem voltar a descobrir sua fé batismal”.

Assim, o explorador geográfico-militar se transforma em um “explorador humano” que procura adotar o ponto de vista do outro com humildade autêntica. É um processo de despojamento de si: “o primeiro passo é aprender dos outros e aprender a língua do outro, para conhecer sua vida, suas emoções, seus desejos, a maneira como estão acostumados a perceber o mistério da vida, com suas alegrias e fadigas. Charles escreve em seu diário: para fazer o bem às almas é preciso poder lhes falar, e para falar do bom Deus e das coisas interiores é preciso saber bem a língua”. “Neste sentido – prossegue Semeraro –, Charles retoma a intuição de grandes missionários como Cirilo e Metódio, como Matteo Ricci. Por isso, aprende a língua dos tuaregues, prepara dicionários, reúne centenas de poemas por meio dos quais se transmite a sabedoria destes povos”.

Na relação com o próximo, não parte pensando que é o depósito da verdade: “A verdade é uma pessoa, Cristo Jesus, e é só a conformação a sua forma de falar, de atuar, de se fazer presente às necessidades do outro o que permite ser reconhecidos e, em certo sentido, amados”.

Décadas mais tarde, esta mesma estrutura de pensamento e de ação se reproduz novamente em Tibhirine, nos monges trapistas assassinados em 1996, em Notre Dame de Atlas. E, no terceiro milênio, após o atentado contra as Torres Gêmeas e os ataques terroristas na Europa, a experiência de Charles, segundo Semeraro, pode ajudar os cristãos “a ler com uma visão de fé a presença dos ‘outros’, deslegitimando o que muitos consideram uma batalha contra a civilização islâmica”.

Uma das mensagens mais fortes e significativas de Foucauld se relaciona, pois, com o enfoque no islã: “O beato, hoje, oferece testemunho da plena adesão ao Evangelho em seu se expor unilateralmente, ou seja, sem reciprocidade, à relação fraterna com os muçulmanos”.

No profundo do deserto argelino, onde acabará sua vida terrena, Charles de Foucauld lê o Evangelho e adora a presença de Cristo na Eucaristia não para se proteger com a couraça de uma identidade forte e contraposta, mas para se abrir a uma fraternidade cada vez mais universal.

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