Charles de Foucauld, um ser humano em busca de Deus. 1º centenário de sua morte

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30 Novembro 2016

Na clássica biografia de 1921 – agora disponível no catálogo da editora Paoline – René Bazin o evocava como “explorador do Marrocos, eremita no Saara”. A “um oficial dissipado e festivo, do tipo mais vulgar”, em vez disso, se referia Paul Claudel, 30 anos depois, na abertura do seu poético retrato do “Visconde de Foucauld”, ou seja, o irmão “Carlo”, como costumeiramente é chamado na Itália o Bem-aventurado Charles de Foucauld.

A reportagem é de Alessandro Zaccuri, publicada no jornal Avvenire, 27-11-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Definições impecáveis, nenhuma das quais pode ser isolada das outras, especialmente na véspera do primeiro centenário da morte – ou, melhor, do martírio – desse homem que se encontrou sendo tudo, mas apenas para descobrir que queria ser nada.

Por ocasião do aniversário, chegam às livrarias reproposições sugestivas (como outra biografia da época, “Charles de Foucauld. Explorador místico”, de Michel Carrouges, Castelvecchi, 228 páginas) e úteis antologias dos escritos (as “Páginas de Nazaré”, editadas por Natale Benazzi para as Edizioni di Terrasanta, 154 páginas, ou as meditações sobre os Evangelhos propostas pela editora San Paolo, com o título “Deus de misericórdia”, 204 páginas). E chega, muito esperado, o romance que o sacerdote-escritor espanhol Pablo d’Ors dedicou ao irmão Charles, “O esquecimento de si” (Vita e Pensiero, 414 páginas).

Charles de Foucauld, de fato, já tinha sido protagonista de outro livro de D’Ors, “O amigo do deserto”, publicado no ano passado pela editora Quodlibet na versão de Marino Magliani. Mas se tratava, naquele caso, de um protagonismo per absentiam, já que todo o relato girava, sim, em torno do desejo de escondimento e contemplação característico do irmão Charles, cujo nome, porém, aflorava de modo intermitente, quase para convencer o leitor da estrutura excêntrica e quase iniciática do livro.

Aparentemente, “O esquecimento de si” assume um andamento mais convencional. O que D’Ors nos apresenta desta vez é até o diário que o irmão Charles teria redigido a pedido do seu pai espiritual (e verdadeiro pai na fé), o abade Henri Huvelin. Justamente por ter sido escrito pelo próprio Charles de Foucauld, o relato é desprovido do dramático final, que coincide com a morte do religioso francês pelos invasores Senussi.

Era o dia 1º de dezembro de 1916, o irmão Charles tinha 58 anos e, há já 15 anos, levava uma vida como eremita no Saara argelino. A igreja-fortaleza de Tamanrasset, alvo do ataque que lhe custou a vida, tinha sido pensada e construída como posto avançado espiritual no coração do deserto. Antes de cair, o evangelizador dos tuaregues tinha salvo a Eucaristia, que representava o centro da sua espiritualidade.

É uma história conhecida, mas que nunca deixa de impressionar, de parecer tão extraordinária a ponto de parecer ter sido inventada por um romancista. Porque Charles de Foucauld nasceu nobre no dia 15 de setembro de 1858, logo se viu órfão e rico, passou por preguiçoso na escola e por fanfarrão no exército, onde também deu prova de coragem e aperfeiçoou a técnica da camuflagem, que lhe seria novamente útil dali a pouco, quando – entre 1883 e 1884 – faria a longa viagem no Marrocos interno, ao qual está ligada a sua fama de explorador.

A conversão remonta a 1886. Inicialmente, Charles foi admitido na Trapa de Nossa Senhora das Neves, em L’Ardèche, mas a sua vocação era inquieta demais para se conformar totalmente à regra monástica.

Os anos decisivos foram os passados em Nazaré, justamente, entre 1897 e 1900. O irmão Charles trabalhou como jardineiro no convento das clarissas, avançando cada vez mais na busca espiritual e esboçando os contornos daquela que, mais tarde, se tornaria a comunidade dos Irmãozinhos e das Irmãzinhas do Sagrado Coração.

Ordenado sacerdote, estabeleceu-se na Argélia, em 1901, primeiro no oásis de Beni Abbes e, por último, em Tamansarret, dedicando-se, dentre outras coisas, à compilação do primeiro e fundamental dicionário berber-francês.

Uma vida que já parece um romance, como dizíamos, mas que Pablo d’Ors consegue reconstruir sem nunca insistir nos elementos mais surpreendentes, preferindo se concentrar na interioridade do irmão Charles. Se a sua entrada em cena pode lembrar a agitação do jovem Rimbaud, o título escolhido para um dos capítulos finais, “A missa sobre o mundo”, retoma literalmente uma expressão cara ao cristocentrismo cósmico de Pierre Teilhard de Chardin, para reafirmar a continuidade acima de tudo espiritual da qual o irmão Charles é testemunha.

Do mesmo modo, nas epígrafes que introduzem cada seção do livro, D’Ors se mantém fiel ao estilo de fraternidade universal do seu Charles de Foucauld, que não guarda segredo do fato de ter redescoberto o Evangelho depois de ter conhecido o Alcorão.

Em “O esquecimento de si”, depois, aparecem citações dos “Contos de um peregrino russo” e do livro de canções sufi de Yunus Emre, dos mestres do zen budismo e das poesias do místico contemporâneo Dag Hammarskjöld, das cartas de São Paulo e do diário de Etty Hillesum.

Não é uma exibição genérica de sincretismo, mas sim a consciência de que a aventura do irmão Charles é, de fato, a aventura de qualquer alma em busca de Deus. De qualquer corpo, deve-se acrescentar, já que um dos aspectos mais convincentes do livro de D’Ors – autor, dentre outros, da magnífica “Biografia do silêncio”, publicada pela Vita e Pensiero em 2014 – consiste precisamente na insistência sobre o vínculo indivisível entre material e imaterial, entre visível e invisível.

Começamos a crer quando nos colocamos de joelhos, adverte o irmão Charles do “Esquecimento de si”, e iniciamos a progredir na imitação de Cristo quando se aprende a praticar o jejum. Não é por acaso, aliás, que, entre as páginas mais belas, estejam precisamente aquelas em que os objetos da cotidianidade, iluminados pela luz sobrenatural da Eucaristia, revelam ao protagonista a silenciosa vastidão da Revelação: “As coisas não reivindicam nada de nós: elas estão, são. E assim é Deus, eu pensava, Aquele que está, Aquele que é, Aquele que se oferece em tudo e em todos”.

O Rimbaud de “Vogais” não está longe, o Teilhard de Chardin do “Cristo na matéria” já está às portas.

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