Há 60 anos, a morte do ''jesuíta proibido'', Pierre Teilhard de Chardin

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08 Abril 2015

Há 60 anos, Pierre Teilhard de Chardin – o "jesuíta proibido" (definição de Giancarlo Vigorelli) – morria em Nova York. Era o dia 10 de abril de 1955, dia de Páscoa. Teilhard de Chardin tinha 74 anos e, há pouco, tinha se estabelecido definitivamente na cidade norte-americana, fortemente enfraquecido por problemas cardíacos.

A reportagem é de Luis Badilla, publicada no sítio Il Sismografo, 07-04-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Em Nova York, tinha chegado em 1951 como colaborador permanente da Wenner-Gren Foundation for Anthropological Research. Em nome dessa fundação de pesquisas antropológicas, dirigiu-se duas vezes para a África (África do Sul e Rodésia), em 1951 e 1953.

O ilustre jesuíta foi sepultado no cemitério do noviciado dos jesuítas em Saint Andrew on Hudson (hoje, Hyde Park de Nova York).

O professor Michele Marsonet tem razão quando enfatiza "a constante atualidade do pensamento de Pierre Teilhard de Chardin", embora as referências às teses teilhardianas, que muitas vezes anteciparam temas que se tornaram depois muito populares e amplamente difundidos, parecem borrados e até mesmo escondidos.

Nada de estranho: mesmo quando estava vivo, Pierre Teilhard de Chardin foi contestado e mal interpretado, e não raramente marginalizado e considerado um caso de heresia borderline.

A sua ideia-guia, "a convergência", sempre no centro das suas elaborações científicas e teológicas, nem sempre foi bem entendida, e muitos fizeram de tudo para desnaturalizá-la.

O mesmo destino teve o seu novo conceito de "noosfera" (simétrico a "biosfera") sobre o qual ele falou pela primeira vez ainda nos seus escritos de 1925.

As suas relações com os seus superiores nem sempre foram fáceis e, com alguns dicastérios da Santa Sé, foram bastante problemáticas e não poucas vezes ameaçadoras e punitivas, porém, dois papas – Paulo VI e Bento XVI –, sobre o pensamento de Teilhard de Chardin, expressaram juízos de elogio e de alto interesse e apreciação.

O Papa Montini, no dia 24 de fevereiro de 1966, no discurso pronunciado durante uma visita a uma importante indústria farmacêutica, disse, segundo o relato do site da Santa Sé: "Ora, quando o homem diz que a ciência é tudo, a Igreja responde que a ciência é uma descoberta, porque, por força de observar, de investigar, acaba descobrindo, para ver a essência das coisas e a sua real natureza. Um célebre cientista afirmava: quanto mais estudo a matéria, mais eu encontro o espírito. Quem prescruta na matéria vê que existem leis; este mundo que parecia opaco, inerte, é uma maravilha, e o papa pensa que será justamente a ciência – que parece afastar as massas, os homens modernos, a juventude de Deus – que irá reconduzi-los a Deus, quando o mundo for verdadeiramente inteligente e disser: eu devo dar razão do que vejo; não fui eu que criei isto: o mundo é criado por Alguém que fez chover a sua sabedoria sobre todas as coisas. E o Santo Padre cita Teilhard de Chardin, que deu uma explicação do universo e, entre tantas fantasias, tantas coisas insensatas, soube ler dentro das coisas um princípio inteligente que deve se chamar Deus. A própria ciência, portanto, obriga a ser religioso, e quem é inteligente deve se ajoelhar e dizer: aqui há Deus" (cfr. Alocução, 24-02-1966, Ensinamentos, IV (1966), p. 992-993).

Uma nota da época lembra como era bastante complexa a relação do jesuíta francês com o Vaticano: "No dia 12 de maio de 1981, em uma carta enviada pelo cardeal secretário de Estado, Agostino Casaroli, ao Mons. Paul Poupard, reitor do Institut Catholique de Paris, por ocasião do centenário do nascimento do paleontólogo francês, afirmava-se que nele "uma forte intuição poética do valor profundo da natureza, uma aguçada percepção do dinamismo da criação e uma ampla visão do devir do mundo se conjugam com um incontestável fervor religioso".

Na mesma carta, também se acrescenta que, "sem dúvida, os nossos tempos não deixarão cair, para além das dificuldades dos conceitos e das deficiências de expressão da sua audaz tentativa de síntese, o testemunho de uma vida unificada, o de um homem conquistado por Cristo nas profundezas do seu ser e que teve a preocupação de honrar, ao mesmo tempo, a fé e a razão, antecipando assim uma resposta ao apelo de João Paulo II: 'Não tenham medo, abram, escancarem as portas a Cristo'" (Ensinamentos, IV, 1 (1981), p. 1.248-1.249).

Uma breve nota publicada no L'Osservatore Romano do dia 11 de julho do mesmo ano pela Sala de Imprensa da Santa Sé esclareceria que a carta em questão não devia ser considerada como uma "reabilitação" do jesuíta francês, nem deviam se considerar como resolvidos os aspectos problemáticos no seu pensamento.

Na sua homilia do dia 24 de julho de 2009, na catedral de Aosta, o então cardeal Joseph Ratzinger disse: "No capítulo 15, onde Paulo descreve o apostolado como sacerdócio, a função do sacerdócio é consagrar o mundo para que se torne 'hóstia viva', para que o mundo se torne liturgia. Que a liturgia não seja algo ao lado da realidade do mundo, mas que o próprio mundo se torne 'hóstia viva', torne-se liturgia. É a grande visão que, depois, Teilhard de Chardin também teve, de que, no fim, teremos uma verdadeira liturgia cósmica, e o cosmos se tornará hóstia viva".

Antes ainda, Joseph Ratzinger, nos Princípios de Teologia Católica (1987), tinha ressaltado que um dos documentos principais do Concílio Vaticano II, a Gaudium et Spes, era fortemente permeada pelo pensamento de Pierre Teilhard de Chardin.

Pode-se dizer que, desde logo, a publicação dos escritos do Pe. Teilhard de Chardin provocou fortes polêmicas. Muitas pessoas consideram, porém, que se trataram de polêmicas que devem ser enquadradas principalmente nos contrastes entre "inovadores" e "conservadores" precedentes ao Concílio Vaticano II.

Entre as múltiplas críticas dirigidas ao paleontólogo francês, a mais recorrente era a que o indiciava de "panteísmo". A esse respeito, Teilhard de Chardin comentava: "No início, consideraram-me como um otimista ou um utopista beato, um sonhador de um estado de euforia humana em um futuro qualquer. Depois, algo mais grave ainda, foi-se repetindo que eu sou o profeta de um universo que destrói os valores individuais. Na verdade, a minha maior preocupação foi a de afirmar que a união entre o homem e Deus, entre o homem e um outro homem, entre o homem e o cosmos nunca anula a diferença. Eu me encontro nos antípodas tanto de um 'totalitarismo social' que leva a um 'cupinzeiro', quanto de um 'panteísmo hinduizante', que leva a uma fusão e a uma identificação entre os seres".

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