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17 Março 2020

"Foi para mim espontâneo me perguntar: realmente morreu o próximo? Nós cristãos também não sabemos mais o que é necessário para nossa vida e o que é supérfluo? Por fim, o Papa Francisco disse algumas palavras que parecem ter despertado as consciências: devemos manter as igrejas abertas, acompanhar os doentes, visitá-los, fazer resplandecer a esperança da vida onde a morte faz suas incursões, a Igreja deve assumir a postura de Igreja em oração".

O comentário é de Enzo Bianchi, monge italiano e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado por La Repubblica, 16-03-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o comentário.

Nos últimos dias, testemunhamos a epidemia de coronavírus, mas também somos assolados pela epidemia de medo. E nessa condição difícil e sombria, a Igreja também parece estar sobrecarregada. Nenhuma polêmica da minha parte, nenhuma certeza, mas muitas perguntas. Escrevi desde o início desta emergência: temos certeza de que a Igreja, ao adotar medidas contra um possível contágio que evitem liturgias, orações e funerais participados pela comunidade, esteja em solidariedade com quem sofre, tem medo e busca consolo?

É lamentável constatar como a Igreja não seja capaz de uma palavra humilde, sem pretensões, mas clara.

Recebemos disposições eclesiásticas sobre a emergência, equivalentes à disciplina imposta pela autoridade política, na qual não se vislumbra a presença de preocupações pastorais e cristãs ditadas pelo Evangelho: compaixão, urgência no cuidado e da proximidade com os doentes e as pessoas em condições de fragilidade, mensagem de esperança para quem é vítima dessa praga. Nos limitamos ao pedido de suspender as celebrações, de oferecer uma Eucaristia celebrada em privado, de interromper a celebração dos funerais. Mas a virtualização da liturgia significa a morte da liturgia cristã, que é sempre encontro de corpos e de realidades materiais.

Então foi para mim espontâneo me perguntar: realmente morreu o próximo? Nós cristãos também não sabemos mais o que é necessário para nossa vida e o que é supérfluo? Por fim, o Papa Francisco disse algumas palavras que parecem ter despertado as consciências: devemos manter as igrejas abertas, acompanhar os doentes, visitá-los, fazer resplandecer a esperança da vida onde a morte faz suas incursões, a Igreja deve assumir a postura de Igreja em oração. E certamente não podemos nos consolar observando que as preocupações da sociedade são outras: os eventos esportivos, os aperitivos, a vida noturna ... Um cristão teria objeções a fazer diante das várias atitudes que se manifestam nessa emergência, especialmente no que diz respeito à liturgia eucarística, que deve ser sempre ação de toda a comunidade, sem substitutos que desmentem a realidade humana do corpo de Cristo, que é a comunidade e a realidade sacramental do corpo de Cristo no pão e no vinho.

É verdade que se pode orar em casa, em segredo - como Jesus também pede -, mas sem a Eucaristia dominical, não é possível que os cristãos vivam. Aqueles que adoecem e estão perto da morte precisam dos sacramentos, do consolo cristão, de viver a esperança da ressurreição com seus irmãos e irmãs, sem se sentirem abandonados. Se a Igreja não sabe como estar presente no nascimento e na morte das pessoas, como poderá estar presente na vida deles? Pastores sem ovelhas e ovelhas sem pastores? Pastores assalariados menos dispostos a cuidar dos fiéis e de suas necessidades espirituais do que os médicos e enfermeiros do corpo? Por sorte, conheço padres que não abandonam as ovelhas doentes, pelo contrário, vão procurá-las e cuidam delas para que possam viver em plenitude.

 

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