Caso Jean Vanier. A responsabilidade dos dominicanos sob o olhar dos historiadores

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29 Fevereiro 2020

Nicolas Tixier, prior da província dominicana da França, fala sobre a responsabilidade de sua ordem após as revelações de abusos envolvendo Jean Vanier e de suas relações com Thomas Philippe. Ele anunciou que está lançando uma investigação histórica para revelar as disfunções institucionais presentes neste dossiê.

A entrevista é de Sophie Lebrun, publicada por La Vie, 25-02-2020. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

Como você reage às revelações da Arca sobre Jean Vanier e Thomas Philippe?

Estou abatido e atordoado. É claro que penso primeiro nas vítimas desses atos e em todos os feridos por essas revelações. Diante dessas informações, a desolação e a tristeza me invadem, mas quero reiterar a condenação de todas as formas de abusos por parte da ordem. Jean Vanier apareceu como uma bela figura evangélica, de vivência da fé com os mais fracos. Este ícone é hoje atingido. Também sinto uma verdadeira dor ao ver as consequências de atos ligados a Thomas Philippe, que foi padre dominicano.

Quem é esse dominicano, o pai espiritual de Jean Vanier?

Quando se conheceram no início dos anos 50, Thomas Philippe (1905-1993) era professor de teologia no convento do Saulchoir, o studium dos dominicanos, em Étiolles, Essonne. Ele era, sem dúvida, carismático, no sentido de que tinha uma aura, um discurso atraente. A comunidade que ele fundou em 1946, bem ao lado do Saulchoir, a Água Viva (que não tem nada a ver com a obra educacional dos Foyers de Charité, nota do editor), pretende ser um centro espiritual a serviço de uma juventude católica em busca de formação. Este lugar teve uma grande influência nos círculos católicos, atraindo muitos jovens em busca de uma formação sólida na fé. Eles encontraram aí uma estrutura intelectual, ensinamentos e uma vida comum. Esta é a experiência que Jean Vanier faz neste lugar, que ele descobre quando está na casa dos vinte anos.

Então os testemunhos de duas mulheres chegam em 1951 à mesa do mestre da ordem dominicana, questionando Thomas Philippe. O Santo Ofício – que em 1965 se tornou a Congregação para a Doutrina da Fé – abriu um processo canônico contra ele. O religioso é tirado da Água Viva da noite para o dia. Durante os anos seguintes, aguardando julgamento, ele ficou na casa dos dominicanos em Roma, o convento de Santa Sabina, e viajava muito. Em 1956, chega a sanção de “pena de deposição”: ele é privado do direito de exercer qualquer ministério e de celebrar os sacramentos. Thomas Philippe passou algum tempo com os irmãos de São João de Deus em um hospital psiquiátrico, como paciente, depois ficou em um mosteiro trapista na Itália e juntou-se novamente ao convento de Santa Sabina.

A investigação da Arca mostra que Jean Vanier assume a direção da Água Viva com a saída de seu “pai espiritual” – por um curto período de tempo, pois o provincial dos dominicanos rapidamente recuperou o controle dessa instituição. Jean Vanier mantém contato com Thomas Philippe ao longo desses anos – ao contrário do que lhe foi pedido. Ele trabalha para ajudar seu retorno à França em 1963. Thomas Philippe permaneceu dominicano, mas foi separado, fora da comunidade, enquanto visitava uma ou duas vezes por ano o convento de Lille. As restrições ao seu ministério foram gradualmente levantadas, cada vez por períodos específicos, renovados, nunca completamente.

Como entender a atitude dos dominicanos após esse julgamento, seja em relação a Thomas Philippe, seja em relação a Jean Vanier?

É verdade que as pesquisas históricas da Arca revelaram o fato de que o prior provincial da época foi encarregado pelo Santo Ofício de dar a conhecer a Jean Vanier – e a um grupo de leigos da Água Viva que apoiava Thomas Philippe – os motivos de sua condenação. O mestre da ordem e provincial Vincent Ducatillon também estava sendo informado, na época, de acordo com essa mesma investigação, de que Jean Vanier era considerado cúmplice de Thomas Philippe. Finalmente, em 1963, sete anos após o julgamento, este foi autorizado a voltar para a França e a celebrar alguns sacramentos. É surpreendente notar que, em 1979, o novo prior dos dominicanos teria pedido ao próprio Jean Vanier uma opinião sobre a evolução do padre Philippe e sobre sua total reabilitação.

Diante disso, estou desamparado e cheio de perguntas. Como a memória desses eventos foi perdida? Como Thomas Philippe foi gradualmente autorizado a assumir um ministério após sua instalação em Trosly-Breuil (Oise)? Qual é a cadeia de decisões que levou à reintegração, mesmo que saibamos que ele nunca foi totalmente reabilitado?

Para responder a isso, você também lançou um trabalho de pesquisa histórica...

Perfeito. Decidi, há algumas semanas, criar dois grupos de especialistas para executar dois projetos, que são hoje fundamentais para entender e analisar o passado, assegurando-nos de que o presente e o futuro não permitem cometer os mesmos erros. O primeiro projeto terá como objetivo reler toda a história de Thomas Philippe e, em particular, seu acompanhamento. Hoje, tudo sugere que a instituição dominicana falhou no acompanhamento desse irmão, para impedi-lo de causar danos, mas devemos nos assegurar disso.

Depois, parece-me muito importante lançar um olhar teológico nas “teorias” de Thomas Philippe: qual é a doutrina espiritual em que ele se baseou e que poderia ter perdurado? Não existe apenas a questão do homem, mas o que seu desvio deu à luz. Porque a investigação da Arca destaca que ele tinha um grupo que o apoiava; as pessoas – começando com Jean Vanier – acreditavam em sua visão de uma teologia que se assemelha a uma “Igreja de iniciados”, onde alguns teriam recebido uma revelação adicional em relação aos demais.

Nós contaremos com especialistas que já conhecem a história da ordem, como Tangi Cavalin, da École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), que estão acostumados com nossos arquivos e poderão liderar uma equipe de cientistas com seriedade. Também queremos reunir historiadores e especialistas externos, que fornecerão uma retrospectiva e uma apreciação crítica. Esperamos poder concluir esse trabalho em dois anos: é mais longo do que gostaríamos – essas perguntas merecem respostas rápidas –, mas estamos ansiosos para apresentar um relatório cujos resultados sejam incontestáveis.

Por que os dominicanos não fizeram esse trabalho nos anos 2000, inclusive em relação ao padre Marie-Dominique Philippe (1912-2006), também considerado cúmplice de seu irmão pelo Santo Ofício em 1956?

Não sei explicar os silêncios do passado, mas, hoje, posso combatê-los. Foi por isso que abri os arquivos dos dominicanos quando a Congregação de São João (fundada por Marie-Dominique Philippe, nota do editor) e a Arca fizeram seus pedidos para mim. No entanto, para dizer a verdade, uma vez que enviei o acordo, fiquei com a dúvida de que determinados documentos estavam, pelo que parece, sob sigilo pontifício. Os arquivos, até então, nós entramos muito pouco neles, e o caso Thomas Philippe sempre foram apresentados como portando o selo desse segredo. Hoje, estamos enfrentando uma mudança de mentalidade sobre esse assunto, e isso é muito bom! Também somos encorajados a fazê-lo pelo próprio Papa, que levantou o segredo pontifício em torno de casos de abusos na Igreja.

Você também analisará a responsabilidade da ordem em relação a Marie-Dominique Philippe?

Os irmãos de São João se envolveram em um importante trabalho de releitura de sua história e de conhecimento de seu fundador, que efetivamente permaneceu dominicano a vida toda, desde a sua entrada na ordem em 1930 até a sua morte, e isto, apesar da fundação, em 1975, da Congregação de São João, da qual ele era o prior geral. Também aqui disponibilizamos nossos arquivos para pesquisa.

Isso permitiu, especialmente, o corajoso comunicado de imprensa apresentado pelos irmãos de São João por ocasião de seu último capítulo geral no outono passado, relatando as tendências do seu fundador. No momento, pretendemos nos concentrar no caso de Thomas Philippe, mas, sem dúvida, teremos que ampliar o escopo da investigação, no interesse de uma autêntica busca pela verdade.

 

Nota da IHU On-Line:

O Instituto Humanitas Unisinos – IHU promove o seu X Colóquio Internacional IHU. Abuso sexual: Vítimas, Contextos, Interfaces, Enfrentamentos, a ser realizado nos dias 14 e 15 de setembro de 2020, no Campus Unisinos Porto Alegre.

X Colóquio Internacional IHU. Abuso sexual: Vítimas, Contextos, Interfaces, Enfrentamentos

 

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