Os abusos e a desintegração da cultura clerical e hierárquica

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13 Janeiro 2020

Recentemente, eu pensei que um modo de entender o interesse reavivado pelo escândalo dos abusos sexuais clericais depois do caso Theodore McCarrick e do relatório do grande júri da Pensilvânia, de pouco mais de um ano atrás, está no contexto dos estágios de luto de Kübler-Ross. Como se sabe: negação, raiva, barganha, depressão, aceitação.

O comentário é de Tom Roberts, publicado por National Catholic Reporter, 27-11-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eu acho que alguns de nós, na comunidade católica, passamos por vários desses ciclos, dependendo de quando fomos apresentados à crise, de quão profundamente estávamos envolvidos nela e se ela envolvia alguém que conhecíamos como vítima ou agressor. Sem dúvida, os ciclos continuarão.

Mas, em um sentido peculiar e importante, referente à cultura hierárquica no cerne do escândalo, talvez agora possamos dizer com alguma certeza que porções significativas da comunidade chegaram à aceitação da morte da cultura clerical/hierárquica.

Isso pode parecer uma grande afirmação, mas acho seguro dizer que essa cultura, do modo como a conhecemos, terminou. Ela já não desfruta de uma deferência automática como antes por parte da cultura mais ampla; ela perdeu a maior parte da sua credibilidade e influência sobre essa cultura mais ampla; ela perdeu grande parte da sua credibilidade entre os católicos; e, em Francisco, ela encontra um papa cuja forte crítica da cultura não deixa dúvida alguma de que a velha forma está indo embora.

Observar a desintegração de uma cultura, no entanto, não é entender o que a fez desmoronar, como reconstruí-la ou o que a substituirá. Eu gostaria de terminar o ano [de 2019] levando em consideração duas vozes importantes de dentro da cultura que têm intuições distintas sobre o que deu errado e o que será necessário no futuro.

A primeira é a de Thomas Doyle, canonista, padre inativo e ex-membro da ordem dominicana. Leitores regulares do NCR estão familiarizados com ele; ele era aquele clérigo extremamente raro que, desde o início, adotou uma abordagem diferente da maioria da cultura clerical. Uma vez profundamente dentro da cultura, nas últimas décadas, ele esteve em grande parte do lado de fora, como um incansável defensor das vítimas de abuso e como um assessor itinerante para advogados em todos os Estados Unidos e em muitos outros cantos do globo, movendo processos contra a Igreja.

Recentemente, ele deu uma palestra na Gonzaga University, em Spokane, Washington. Foi um evento significativo, pois, apesar da riqueza de intuições que ele oferece sobre o assunto, ele raramente é convidado para os campi católicos para compartilhar seus pontos de vista.

O título da palestra, “O fenômeno das violações sexuais sistêmicas por parte de clérigos e religiosos católicos: a realidade de uma Igreja transformada”, envolve a história, antiga e recente, e as profundas contradições institucionais que formaram a sementeira da atual crise. A palestra na íntegra está disponível aqui [em inglês].

Esse abuso não é novo na Igreja, escreve Doyle. “A proibição mais antiga contra o sexo entre homens adultos e meninos se encontra na Didaché, que data do fim do primeiro século.” Entre aquela época e o documento Vos estis lux mundi do papa Francisco de 2019, que aborda os bispos acusados, “há várias centenas de documentos oficiais sobre o assunto emitidos por papas ou por encontros de bispos”.

A manifestação atual “é uma evidência de uma profunda contradição que atinge o núcleo fundacional da Igreja institucional”, disse ele.

A boa-fé de Doyle decorre da sua experiência pessoal da crise, que remonta ao início dos anos 1980, quando ele começou a ver os primeiros relatos do escândalo, particularmente o caso Gilbert Gauthe, na Louisiana, enquanto ele trabalhava no escritório do núncio em Washington.

Depois de décadas lendo detalhes infindáveis nos depoimentos, nas correspondências das cúrias e em outros documentos, e conversando com as vítimas e suas famílias, ele chegou a algumas conclusões gerais. E a primeira é esta contradição fundamental:

“A Igreja, descrita como o Corpo Místico de Cristo, o Povo de Deus, a fonte da nossa felicidade terrena e a nossa esperança para a vida eterna, deu ao seu povo um dos códigos de conduta sexual mais rigorosos e restritivos da história e ensinou-lhe que até mesmo violações leves podem resultar em condenação eterna.

“Ao mesmo tempo, aqueles que ensinaram e impuseram esse caminho em favor de Deus cometeram e permitiram sistematicamente a prática de atos contra os mais vulneráveis em nosso meio, que são considerados pela maioria das sociedades, senão por todas, como os mais horríveis e repugnantes que podem ser cometidos contra outro ser humano. (...) É um profundo dano espiritual que só pode ser descrito como o assassinato da alma.”

Já não há como negar, dados os estudos e investigações exaustivas ao longo das últimas três décadas, que “o elemento comum da causalidade” na crise dos abusos, escreve ele, “tem sido o papel dos bispos e a inadequação da resposta”.

Nesse sentido, ele começa, desde o início, a “não apenas incluir, mas também destacar” os esforços fracassados do papa João Paulo II “para negar, minimizar e desviar a culpa”.

Doyle lista cinco pontos que ilustram “uma dura realidade” revelada pelo escândalo e pela tentativa de encobrimento:

- A violação sexual e outras formas de corrupção estão enraizadas na cultura clerical, que protege os clérigos e não as vítimas.

- A obsessão da hierarquia “com a proteção da sua imagem, status e poder às custas das vítimas teve o efeito oposto e, de fato, produziu uma erosão do respeito e da confiança”.

- “Essa realidade revelou uma ‘Igreja’ muito diferente daquela da Lumen gentium, do Catecismo ou do Código de Direito Canônico.”

- A história dos abusos, negações e encobrimentos foi “incorporada à cultura clerical que não apenas a protegeu, mas também a possibilitou, e essa cultura não é mais capaz de escondê-la, controlá-la, minimizá-la ou erradicá-la. Também não é capaz de continuar sustentando o mito da superioridade clerical baseado no pensamento mágico sobre a natureza das sagradas ordens”.

- “Esse fenômeno complexo é muito mais do que a violação física de menores por clérigos e a resposta desastrada da liderança da Igreja.”

A fala de Doyle está cheia de uma autenticidade obtida através da sua própria experiência dolorosa ao lidar com a Igreja e com incontáveis vítimas ao longo das décadas. Provavelmente, existe uma razão para ele não ser um convidado regular no circuito acadêmico ou não ser convidado a aconselhar a hierarquia. As suas conclusões – que, na verdade, levam a um vislumbre de esperança no futuro – são francas e diretas.

“A horrível história da violação sexual e da resposta sistêmica e destrutiva, agora em campo aberto, reconheceu o que a hierarquia não quer enfrentar: o Povo de Deus e a estrutura governamental hierárquica não são a mesma coisa, e a culpa pela autoria da estrutura hierárquica com a qual vivemos dificilmente pode ser atribuída a Cristo.”

Eu recomendo dedicar um tempo a essa palestra. Poucos no planeta trazem o nível de experiência, compreensão e verdade nua de Doyle sobre o assunto. As suas palavras carregam o diagnóstico e o prognóstico que podem levar à aceitação necessária para seguir em frente.

Nota da IHU On-Line:

Instituto Humanitas Unisinos – IHU promove o seu X Colóquio Internacional IHU. Abuso sexual: Vítimas, Contextos, Interfaces, Enfrentamentos, a ser realizado nos dias 14 e 15 de setembro de 2020, no Campus Unisinos Porto Alegre.

X Colóquio Internacional IHU. Abuso sexual: Vítimas, Contextos, Interfaces, Enfrentamentos

 

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