Livros. A Igreja Católica face aos abusos sexuais de menores, de Marie-Jo Thiel, e Um momento de verdade, de Véronique Margron

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12 Setembro 2019

Alguns anos atrás, Hans Küng, teólogo crítico da Igreja Católica há mais de cinquenta anos, fez a seguinte pergunta: A Igreja tem salvação? (1) Enumerando as muitas razões e lugares da crise do “sistema romano” durante as últimas décadas, ele mencionou os abusos sexuais – na Bélgica e nos Estados Unidos – entre os “surtos de febre” que testemunham a gravidade da doença católica. Mas era apenas um sinal desolador entre outros. Oito anos depois, os abusos aparecem, pelo número e pela gravidade, não apenas em relação às crianças, mas também em relação às mulheres adultas, como os principais sinais anunciadores de um colapso da antiga instituição. Como chegamos a essa situação?

O artigo é de Jean-Louis Schlegel, publicado na revista Esprit, edição de setembro de 2019. A tradução é de André Langer.

Há vinte anos, Marie-Jo Thiel foi a primeira a alertar os bispos franceses sobre a importância dos abusos sexuais de menores por padres. Ela é também a primeira, hoje, a oferecer uma verdadeira suma sobre o tema da pedofilia dos padres, como se costumam chamar os abusos contra crianças e jovens. Ela o faz, inicialmente, de múltiplos ângulos que podemos chamar de “gerais”: históricos, geográficos, sociológicos, psicológicos, com definições precisas para os atos e atores envolvidos (pederastia, efebofilia, pedofilia, homossexualidade masculina...), comparações internacionais sobre a situação dos países em questão, comparações também entre a Igreja e as sociedades civis. Uma parte importante é consagrada às disposições legais e sua recente evolução, teórica e prática, nas sociedades democráticas modernas – medidas que ampliaram o fosso com o direito canônico da Igreja e a prática dos tribunais eclesiásticos. O papel específico da confissão individual dos pecados na Igreja Católica não é esquecido.

Dois grandes capítulos são dedicados, por um lado, ao “menor vítima”, aos seus traumas e sofrimentos e, por outro lado, aos “autores das agressões sexuais”, ao seu perfil psicológico, ao número e aos atendimentos, etc. Na segunda parte do livro, a autora trata especificamente “dos abusos sexuais de religiosos e clérigos da Igreja Católica”. Aqui, novamente, o cuidado de ser exaustivo para reunir os conhecimentos e as reflexões hoje disponíveis, é admirável. Os fatos nas Igrejas nacionais por várias décadas, as respostas do magistério romano e as questões que elas suscitam, a análise das causas e da parte de cada uma delas (um poder eclesiástico não moderado, o celibato e o “clericalismo”), uma determinada concepção da “vocação”, uma teologia questionável do sacerdócio...) precedem uma tentativa de reflexão ética e teológica no último capítulo. Ao fazer isso, Marie-Jo Thiel, ativamente engajada na Igreja Católica, não coloca sua bandeira no bolso: ela confronta in fine sua fé em um Deus impotente com atos desprezíveis que fizeram muitas vítimas – atos onde se ligam relações perversas entre poder espiritual e domínio sexual.

Vai longe o suficiente na análise e nas reformas sugeridas? Isso pode ser discutido. O tema comporta várias gavetas. Assim, apareceu, entretanto, Sodoma, o livro em que Frédéric Martel ilumina a estranha relação entre a homossexualidade de figuras de alta categoria da Igreja e suas posições rigoristas em questões de ética sexual (2). Rigorismo que foi acentuado pelo Papa João Paulo II como um dique necessário contra a liberdade sexual e a “civilização da morte”. Mas neste campo do desejo, a resistência voluntarista não é uma solução mais que arriscada? De qualquer forma, é como se o relacionamento com o corpo sexuado tivesse se tornado, em todas as etapas da instituição, o maior teste para decidir o futuro da Igreja Católica.

De qualquer forma, nesta tragédia dos abusos sexuais que está longe de terminar, o livro de Marie-Jo Thiel continuará sendo uma obra única, onde a autora analisa múltiplos fatos, desemaranha situações (humanas, legais, médicas) complicadas, chama um gato de gato, mas recusa denúncias simplistas. Uma investigação com um bisturi, no fundo, onde a médica, que se tornou professora de ética da Faculdade de Teologia de Estrasburgo, também presta uma homenagem, talvez sem querer, ao seu primeiro emprego.

Embora use parcialmente os mesmos materiais (fatos e números) que Marie-Jo Thiel, o belo livro de Véronique Margron, freira dominicana, professora de teologia no Instituto Católico de Paris, presidente da Conferência dos Religiosos e Religiosas da França, é muito diferente. Parece-se mais a um grito – contra o desastre moral representado pelos crimes dos abusos em uma instituição que, resumidamente, prega o amor ao próximo e, acima de tudo, aos mais frágeis e mais pequeninos. Grito da “intelectual orgânica” que ela é, cujos discursos teológicos perdem o sentido se eles não tentarem dizer também a mentira da instituição em cujo nome ela fala. Um grito de raiva em nome das vítimas que ela escuta e encontra há um longo tempo e do qual ela mesma faz parte, como ela diz calmamente na dobra de uma página.

Os católicos encontrarão neste livro palavras teológicas novas e fortes para expressar sua dor e sua esperança de recuperação. Parece-se um pouco com o clamor dos profetas bíblicos após a catástrofe do exílio. Resta saber se o “momento de verdade” (3) anunciado pelo título do livro realmente ocorrerá. Mas a história irá reter, talvez, que, na tempestade criada na Igreja pelas revelações dos abusos sexuais, foram duas mulheres que expressaram mais apropriadamente a terrível realidade dos fatos e o que é preciso pensar sobre isso.

Notas:

1.- KÜNG, Hans. A Igreja tem salvação? [2011], trad. por Saulo Krieger. São Paulo: Paulus, 2012.

2.- MARTEL, Frédéric. Sodoma. Enquête au coeur du Vatican. Paris: Robert Laffont, 2019 e minha resenha em esprit.presse.fr.

3.- MARGRON, Véronique. Un moment de vérité. Abus sexuels dans l’Église. Une théologienne s’engaje. Paris: Michel Albin, 2019.

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