Iniciativa da Universidade de Georgetown destaca trabalho que resta a ser feito contra a crise dos abusos

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09 Novembro 2019

Em seu clássico livro de 1850, “The Idea of a University” [A ideia de uma universidade], o agora santo John Henry Newman ofereceu o seu ponto de vista sobre o objetivo da educação superior.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada em Crux, 08-11-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

“Uma formação universitária é o grande meio comum para um grande fim, mas não comum; visa a elevar o tom intelectual da sociedade”, escreveu Newman. “É a educação que dá ao homem uma clara visão consciente das suas próprias opiniões e julgamentos, uma verdade para desenvolvê-los, uma eloquência para expressá-los e uma força para urgi-los”.

Com um desconto para a linguagem sexista da época, o argumento de Newman era de que a educação deveria ter como objetivo equipar uma pessoa para contribuir de maneira mais inteligente à sociedade à qual ela pertence.

As principais universidades católicas dos EUA, neste ano, parecem estar canalizando o seu Newman interior em relação à sociedade e à Igreja, lançando importantes iniciativas de pesquisa, diálogos internos e fóruns públicos sobre as crises de abuso sexual clerical.

A Notre Dame, por exemplo, dedicou um milhão de dólares para pesquisas relacionadas aos escândalos de abuso, incluindo uma pesquisa inédita nos seminários católicos sobre a questão do assédio sexual, realizada pelo McGrath Institute for Church Life, que faz parte da universidade. Os resultados foram divulgados no dia 25 de setembro, em conjunto com um grande evento no campus da Notre Dame, com a presença do veterano jornalista católico Peter Steinfels, a veterana líder leiga Kathleen McChesney, o sobrevivente chileno Juan Carlos Cruz e o arcebispo William Lori, de Baltimore.

A Notre Dame voltará à ação na próxima semana, organizando outro grande evento na quarta-feira, 13 de novembro, às 19h, no salão de festas Dahnke, no Duncan Student Center. Ele contará com a presença do principal promotor e reformador vaticano, o arcebispo Charles Scicluna, de Malta, em uma conversa com estudantes da Notre Dame e com a comunidade em geral. Assim como no evento anterior, eu serei o moderador e mestre de cerimônias.

Para não ficar atrás, a Universidade de Georgetown também tem promovido a sua própria série de importantes iniciativas relacionadas à crise dos abusos, uma das quais na segunda-feira passada.

Em junho passado, um empreendimento chamado “Liderança leiga para uma Igreja ferida”, projetado pela Initiative on Catholic Social Thought and Public Life da Georgetown, liderada por John Carr, ex-consultor sênior dos bispos dos EUA, e Kim Daniels, ex-porta-voz dos bispos e consultora de comunicação do Vaticano, reuniu mais de 50 líderes leigos representando diversas instituições, experiências e pontos de vista, para tentar encontrar um terreno comum nas divisões habituais.

“Partimos com um entendimento compartilhado de que a crise não acabou”, disse Daniels, descrevendo o espírito do evento. “Para os fiéis nos bancos, a angústia e a raiva continuam, e o júri ainda está em dúvida se a resposta da Igreja será eficaz na promoção da responsabilização, da transparência e da renovação.”

Na segunda-feira, os resultados do esforço foram apresentados na Georgetown. Uma síntese pode ser expressada em dez principais direções estratégicas – nenhuma das quais parecerá surpreendente para qualquer um que esteja acompanhando o arco da crise há décadas, o que sugere que o problema não está tanto em saber o que fazer, quanto em encontrar a vontade e o consenso para fazê-lo.

  • Colocar as vítimas-sobreviventes no centro da resposta da Igreja;
  • Enfrentar o clericalismo, superar o isolamento e apoiar os clérigos fiéis;
  • Responsabilizar as lideranças e insistir na transparência;
  • Focar na formação dos seminários;
  • Promover e refletir a diversidade da Igreja;
  • Focar na nossa missão evangélica e construir unidade;
  • Novas vozes para compartilhar princípios católicos na vida pública;
  • Colaboração nacional entre as pastorais;
  • Construir parcerias e melhorar a colaboração entre clérigos e leigos;
  • Ser humilde e audaz.

Como essas são conclusões em grande parte do senso comum que a maioria dos observadores dos escândalos provavelmente repercutiria, três comentários se fazem necessários.

Primeiro, elas agem como um antídoto às tentações de declarar que a crise em grande parte acabou ou de sugerir que está na hora de a Igreja “seguir em frente”. Certamente, a vida pastoral comum da Igreja não pode ficar refém da gestão de crises indefinidamente, mas a “recuperação”, no sentido pleno esboçado por essas recomendações, é um projeto geracional, talvez improvável de ser concluído durante a vida de qualquer pessoa que esteja lendo estas linhas.

Segundo, a ênfase no apoio aos clérigos fiéis pode se demonstrar especialmente importante.

Muito frequentemente, os movimentos de reforma no catolicismo se esgotam demonizando o clero e a hierarquia, como se a própria existência de uma casta clerical fosse o problema. Durante o período da crise, o uso do termo pejorativo “clericalismo” às vezes pode indicar tal atitude.

No entanto, a história ensina que a maioria dos católicos comuns não está pronta para pegar em foices e tochas contra seus padres e bispos, considerando seus ofícios como essenciais para a fisionomia da Igreja. Qualquer solução duradoura, portanto, quase certamente tem que ser trabalhada em cooperação com o clero, não em oposição a ele.

Terceiro, a “colaboração entre as pastorais” é uma consumação desejada com muita devoção. Qualquer analista de sistemas da Igreja Católica, especialmente nos EUA, ficaria pasmo com a frequência com que os vários componentes da Igreja trabalham isoladamente, perdendo oportunidades óbvias de reunir recursos e alcançar economias de escala.

Isso vale para as ordens religiosas e para os movimentos leigos na maior parte do tempo, por exemplo. Os hospitais católicos costumam estar em planetas diferentes em relação às dioceses locais em que estão localizados, e os líderes das universidades católicas às vezes teriam dificuldade para citar os atuais nomes da cúpula da Conferência dos Bispos dos EUA. Os movimentos leigos de evangelização que se focam na juventude às vezes têm muito pouco contato com as pastorais universitárias.

Poderíamos continuar multiplicando exemplos, mas as subdivisões da vida católica são, com muita frequência, uma realidade. Se a crise dos abusos puder afastar a Igreja desse padrão de comportamento disfuncional, talvez poderá produzir algum pequeno depósito de bem contra a montanha de dor e desilusão que já provocou.

Espera-se que as lideranças da Igreja e os ativistas católicos de todas as alas ponderem cuidadosamente os resultados da Georgetown. Eles podem não encontrar muitas coisas novas, mas serão confrontados novamente com a enormidade da tarefa que resta.

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