Quando os santos caem. Artigo de Thomas Reese

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27 Fevereiro 2020

“Se você também está com raiva e deprimido com as falhas de grandes homens, se todas essas falhas estão transformando você em um cínico, não deixe que o pecado cegue você para a presença da graça no nosso mundo”.

O comentário é de Thomas J. Reese, jesuíta estadunidense, ex-editor-chefe da revista America, dos jesuítas dos Estados Unidos, de 1998 a 2005, e autor de “O Vaticano por dentro” (Ed. Edusc, 1998), em artigo publicado por Religion News Service, 25-02-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Em uma das minhas primeiras lembranças, meu pai me alertava sobre um homem famoso: “Lembre-se, ele ainda coloca as calças uma perna de cada vez”. Lembrei-me desse aviso quando soube da queda de outro ícone famoso, Jean Vanier, o reverenciado fundador da L’Arche, uma comunidade ecumênica em que pessoas com ou sem deficiência vivem em comunhão cristã.

Vanier, que morreu no ano passado aos 90 anos, foi acusado confiavelmente de manter um relacionamento sexual abusivo com seis mulheres adultas sem deficiência, para as quais ele dava orientação espiritual. Em outras palavras, não foi apenas um caso de uma noite com alguém com quem ele se encontrou em um bar para solteiros. Foram ataques calculados e manipuladores contra mulheres, sob o pretexto de aproximá-las mais de Deus.

Essas acusações foram investigadas por uma agência independente a pedido da nova liderança da L’Arche, que concordou com as descobertas e as tornou públicas. Apesar da nossa raiva, devemos felicitar a L’Arche pela sua transparência. Também devemos agradecer às mulheres que tiveram a coragem de se pronunciar.

Vanier já foi apontado como um possível ganhador do Prêmio Nobel da Paz e até rumo à canonização. Descobrir que essa pessoa foi uma fraude me deixa com raiva.

Ao mesmo tempo, eu me pergunto: por que estou surpreso? A história nos ensina o caráter defeituoso e pecaminoso dos homens mais famosos. Alguns dos pais fundadores [dos EUA] tiveram filhos com seus escravos. A história está cheia de maus papas, bispos e padres. A história europeia e norte-americana está cheia de grandes líderes e pensadores que eram antissemitas e racistas.

Durante a minha vida, John Kennedy e Thomas Merton tiveram seus casos. O movimento “Me Too” rasgou a cortina para expor homens que não são os cavalheiros que eles projetavam publicamente.

Até mesmo as Escrituras descrevem pessoas que desempenharam papéis importantes na história da salvação como imperfeitas: Eva, Abraão, Moisés, Davi e os Doze. É praticamente impossível encontrar uma figura importante na Bíblia que também não seja pecadora. No Evangelho de Marcos, ninguém entende Jesus, nem mesmo a sua mãe (Marcos 3).

Isso significa que devemos descartar tudo o que esses pecadores fizeram? Devemos parar de honrar Abraão porque ele apresentou sua esposa ao faraó em troca de gado e escravos? Devemos parar de rezar os Salmos porque Davi matou Urias para que ele pudesse ter sua esposa, Betsabá? Devemos queimar os livros de Thomas Merton porque ele teve um caso? Devemos fechar a L’Arche porque Vanier abusou de sua posição como pai espiritual?

A mensagem das Escrituras não é a de que esses são homens santos, mas sim que Deus pode usar pessoas imperfeitas e pecadoras para fazer grandes coisas. Continuamos vendo isso ao longo da história e do nosso tempo. Parte do crescimento é reconhecer que nossos heróis têm pés de barro.

Mas o perdão é outra coisa.

Eu posso perdoar Eva, os Doze, Merton e os pecados da fraqueza, mas não estou pronto para perdoar Abraão, Davi, Theodore McCarrick, Vanier, Harvey Weinstein e outros que abusaram de seu poder para atacar pessoas vulneráveis. Deixarei o perdão deles para Deus.

Eu ainda estou com raiva por causa do mal causado às pessoas que foram exploradas por esses homens. Também estou com raiva porque eles me deixaram cínico em relação a grandes artistas, políticos e líderes religiosos. Chegou ao ponto de eu ficar com um pé atrás na hora de acreditar na Madre Teresa, no Papa Francisco e no Garibaldo.

Como cientista social, nunca fico surpreso com o pecado, a corrupção e o conflito. Acredito firmemente no Pecado Original, do qual existem muitas evidências empíricas, embora não culpe Eva e a maçã por isso.

Para mim, o Pecado Original é a realidade de que os pecados do passado fornecem um campo fértil para pecados do presente (pensemos na escravidão e no racismo). E os pecados do nosso tempo tornarão mais difícil que as pessoas sejam boas no futuro (pensemos no aquecimento global).

O que me surpreende é a bondade, a gentileza e o amor, que são sinais da graça de Deus no mundo.

Muitas pessoas se afastam de Deus porque não conseguem resolver o problema do mal: como pode haver um Deus quando existe todo esse mal no mundo?

Eu faço a pergunta oposta.

Dado que estamos lutando para sobreviver desde que saímos do meio do mato, o mal não me surpreende. Fico surpreso com o problema do bem. Por que existe o bem no mundo?

Dado de onde viemos e o mundo em que vivemos, por que existe o amor? Por que existe o autossacrifício? São milagres da graça. São sinais do Espírito Santo, a presença de Deus no mundo. É o Espírito Santo que nos empurra para cima na nossa jornada evolutiva para além do egoísmo e do pecado, rumo à bondade e ao amor.

Portanto, se você também está com raiva e deprimido com as falhas de grandes homens, se todas essas falhas estão transformando você em um cínico, não deixe que o pecado cegue você para a presença da graça no nosso mundo. Seja surpreendido pelo amor.

 

Nota da IHU On-Line:

O Instituto Humanitas Unisinos – IHU promove o seu X Colóquio Internacional IHU. Abuso sexual: Vítimas, Contextos, Interfaces, Enfrentamentos, a ser realizado nos dias 14 e 15 de setembro de 2020, no Campus Unisinos Porto Alegre.

X Colóquio Internacional IHU. Abuso sexual: Vítimas, Contextos, Interfaces, Enfrentamentos

 

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