Padres pedófilos e o silêncio conivente da Igreja. Entrevista com o teólogo Berten

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23 Janeiro 2020

O teólogo dominicano Ignace Berten: “Os abusos clericais não são apenas de natureza sexual, mas também de poder e de consciência. Na origem dos escândalos está a sacralização do poder”. E sobre o sacerdócio, ele diz: "O sacerdote deve ser um homem ou uma mulher, celibatário ou casado, com função vitalícia ou por tempo determinado”.

A entrevista é de Emanuela Provera, publicada por MicroMega, 16-01-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Depois de todos os escândalos que ocorreram nos últimos anos, quem sabe se a igreja amadureceu uma reflexão sobre as causas do abuso clerical. Em busca de uma resposta, vou a Bruxelas encontrar frei Ignace Berten. Nascido em 1940, é um teólogo dominicano belga [1]. Depois de ter lecionado no Instituto Internacional Lumen Vitae, dedicou-se à formação teológica em ambientes populares. Ele também exerceu responsabilidades de formação no Brasil e realizou várias missões de Justiça e Paz na América Latina na época das ditaduras. Ele trabalhou nas dimensões sociais, éticas e espirituais da construção europeia.

Eis a entrevista.

Há um ano, o senhor escreveu um documento (2) sobre o tema da pedofilia clerical, no qual especificava: “Em primeiro lugar, aviso que neste momento não estou me questionando sobre as causas dessas práticas pedófilas ou de outras práticas sexuais desviantes ou maus-tratos. Estou me questionando principalmente sobre o fenômeno do silêncio da Igreja, sobre o silêncio conivente". Pois bem, agora lhe pergunto se considera que a igreja tenha desenvolvido uma reflexão sobre as causas do abuso clerical:

O que Francisco fala sobre clericalismo, penso que diga respeito ao tema específico da causa do abuso. O abuso foi desenvolvido pelo Papa Francisco a partir do estupro, e é preciso dizer que o clericalismo não é a única causa.

O clericalismo reforça o abuso, porque o abuso também ocorre em famílias e locais de educação, nas escolas, ou seja, em locais que não são clericais. Mas na igreja não há apenas delitos de natureza sexual, há também abusos de poder e de consciência, abusos espirituais. Nesses casos, se trata de um clericalismo que não provém apenas dos padres, porque esses fenômenos também ocorrem nos movimentos leigos, como o dos Focolares, como na Opus Dei, onde os superiores ou responsáveis são leigos, mas se colocam explicitamente como emanação direta da vontade de Deus. Ou seja, há uma sacralização do poder que a expressão clericalismo não sugere imediatamente. Há dois ou três anos, o papa vem se referindo não apenas à violência sexual, mas também ao abuso de poder e de consciência e considero esse fato digno de nota.

Penso que os abusos hoje, graças a muitos testemunhos como o recente de Renata Patti (Movimento dos Focolares) e outras pessoas que fizeram parte dos movimentos da igreja, estão começando a aparecer publicamente e esse fenômeno é muito importante.

Em que lugares e circunstâncias os abusos ocorrem com mais frequência dentro da igreja?

Estudos mostram que os abusos, sejam sexuais, de consciência ou de poder, são manifestamente mais frequentes nos novos movimentos do que nas antigas ordens religiosas; nessas ordens religiosas antigas existem regras de vida que são protetoras e há uma distinção muito clara, nem sempre observada, mas no direito canônico é bem definida, entre foro externo e foro interno. O foro externo refere-se ao conjunto das práticas definidas pelos Estatutos; o foro interno é o da consciência pessoal. Nesses movimentos, muitas vezes acontece que o/a responsável ou superior administra tanto o foro externo como o interno na relação com os membros da comunidade; e isso causa graves problemas. Além do direito canônico, inclusive na própria regra interna das ordens religiosas, o superior deve trabalhar apenas no foro externo da comunidade, e é muito importante que isso seja respeitado. 

O papa conhece essas situações que ocorrem nos movimentos eclesiais?

Sim.

O papa, pelo que o senhor conhece, está pensando em uma regulamentação dos movimentos eclesiais reconhecidos por João Paulo II nos anos 1980-90 [Opus Dei, Comunhão e Libertação, Legionários de Cristo, etc.], ou a intenção de tratar deles ainda não amadureceu?

Eu acredito que o papa, em relação aos novos movimentos, seja muito prudente.

O Sínodo dos Bispos para a região Pan-Amazônica, realizado em outubro do ano passado, tinha como título "Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral". Para identificar novos caminhos de evangelização, parece que a igreja pretenda se abrir à ordenação sacerdotal dos viri probati e ao diaconato feminino [3]. O que o senhor pensa a respeito?

Acredito que a igreja atualmente não esteja pronta para repensar com urgência e de maneira diferente todos os ministérios. Alguns teólogos feministas reivindicam a ordenação das mulheres, eu não estou apenas de acordo, mas proponho ir além. Vou explicar melhor: atualmente o ministério do padre está centrado em quatro pontos cardeais,

1. é um homem,
2. é celibatário,
3. é empenhado de forma vitalícia,
4. é em período integral.

Essas quatro condições devem ser repensadas, organizando-as de maneira diferente.

Reorganizar significa que o padre pode ser um homem ou uma mulher, que pode ser celibatário ou casado, que pode se empenhar de forma vitalícia (ou seja, para toda a vida) ou por um tempo determinado, e que pode desempenhar o ministério em período integral ou parcial.

Para elaborar essas reflexões, parti da realidade dos hospitais: há equipes de capelães, homens ou mulheres, que trabalham em período integral ou parcial, que acompanham as pessoas, recebem confidências sobre suas histórias e que, se a pessoa solicita o sacramento dos enfermos ou a confissão, oficialmente o padre deve ser chamado; mas este último, completamente estranho a uma relação com os doentes, deve acolher suas últimas confidências, em um clima de intimidade espiritual que um pouco antes não existia. O paciente é obrigado a repetir sua história, e isso não é respeitoso com sua pessoa. Nesse ponto, digo que é necessário dar um "delegação sacramental". 

Ao dar uma delegação sacramental, as pessoas não precisam ser ordenadas, confere-se a elas o poder de agir pelo tempo do compromisso em tal função e somente naquele local físico (o hospital), não em outro lugar.

Eu acredito que a mesma coisa poderia ser pensada, na animação de uma paróquia ou em outros serviços diferentes na igreja; ao lado disso, acredito que seja importante que haja homens ou mulheres solteiros que possam se comprometer por toda a vida no serviço à comunidade. No entanto, continua sendo importante que as congregações religiosas continuem a existir, onde se confirme a regra do celibato vitalício, como valor para a igreja, mas principalmente para a vida religiosa.

Amoris Laetitia, a exortação apostólica do Papa Francisco de março de 2016, realmente abriu a possibilidade de os divorciados e recasados se aproximarem dos sacramentos?

É importante reconhecer que pode haver fracassos na vida; estou me referindo a casamentos e casais, ou a quem, pelos eventos da vida, enfrenta uma crise e, nessas circunstâncias, temos que admitir que possa ser necessário reconstruir aquela vida de outra maneira; é a razão pela qual nós dominicanos, no âmbito da comunidade para a qual trabalhava anteriormente, quarenta anos atrás, iniciamos um trabalho de reconciliação eucarística para os divorciados recasados; essa obra se realizava com a colaboração de um padre diocesano e, na época, com uma missão oficial da diocese da qual o bispo era o cardeal Léon-Joseph Suenens, ou seja, dentro de um projeto. Posteriormente, devido a uma intervenção corretiva romana, essa experiência continuou de maneira não oficial.

Após o Sínodo sobre a família, que decidiu a questão do acesso aos sacramentos das pessoas divorciadas e recasadas, e após o documento final do Papa Francisco "Amoris laetitia", que se colocava implicitamente no sentido da abertura, existem apenas duas conferências episcopais nacionais, exatamente Malta e Bélgica [4], abertas nessa direção. A região episcopal de Buenos Aires publicou uma declaração de abertura, que foi confirmada por uma carta pública do papa [5]. 

No que diz respeito à Itália, o cardeal vigário da diocese de Roma, Agostino Vallini, expressou-se durante a assembleia pastoral da diocese de 19 de setembro de 2016, abrindo também a possibilidade da reconciliação dos divorciados com a Eucaristia: “A alegria de amor”. O caminho das famílias em Roma [6].

É preciso ressaltar que, tanto em Buenos Aires quanto em Roma, as condições programadas para a implementação dessa reconciliação são bastante rigorosas, portanto acredito que na prática esse programa deva ser modulado. Aqui na Bélgica, há uma visão mais aberta e tolerante sobre esse tema. 

Diante do fato de que muitos crentes, primeiro divorciados e depois recasados, se distanciaram da igreja, tanto pela atitude desta última quanto por razões pessoais, esse diálogo começou; os divorciados e recasados crentes participavam da Eucaristia com sofrimento, sem fazer a comunhão. Na assistência espiritual, nós os conduzimos à decisão de se reaproximar da comunhão e, desde aquele dia, muitos casais e crentes recasados tomam a decisão sozinhos de se aproximar os sacramentos, sem pedir uma permissão, sem fazer um acompanhamento espiritual, eles fazem isso e são apoiados pela maioria dos padres, obviamente não por todos os padres (estamos falando da Bélgica); os padres poloneses e africanos são totalmente contrários a essa prática. Lembro que os jovens sacerdotes belgas também se opunham a essa prática, mas agora muitos deles estão mudando de opinião, ou seja, desde que a conferência episcopal belga abriu esse novo caminho.

Sobre o assunto de abuso clerical, várias hipóteses foram sendo elaboradas sobre as causas que o espalham em larga escala. Além do encobrimento dos bispos, alguns quiseram fazer acreditar que a homossexualidade tenha sido um fator decisivo. O que o senhor acha disso? Além disso, considera que a orientação sexual realmente tenha aumentado o número de vocações sacerdotais na Igreja Católica?

O jornalista francês Frederic Martel, autor do livro "Sodoma", descreve o fenômeno da difusão da homossexualidade na igreja. Numa época em que a homossexualidade era condenada por princípio pela igreja, e não apenas pela igreja, mas também por algumas sociedades, ainda havia jovens que não se sentiam à vontade na sexualidade e na relação com as mulheres, ou que já estavam cientes de sua homossexualidade; determinado número desses garotos esperou, ao entrar no seminário, poder se curar dessa condição. A cura (infelizmente) não aconteceu e essa situação levou ao resultado da presença de tantos padres homossexuais

Hoje a situação é diferente, na maioria dos países a homossexualidade é aceita e também a igreja está dividida, manifestando-se mais aberta a esse tema, apesar do fato de o sínodo da família não ter conseguido se expressar nesses termos sobre a questão.

Basta pensar que a passagem conclusiva no documento final do sínodo é certamente menos aberta que o catecismo da Igreja Católica.

Este último afirma que as pessoas homossexuais devem ser respeitadas e existem documentos da igreja que não afirmam mais que se trata de uma escolha. Enquanto documento final do sínodo, refere-se apenas ao acompanhamento das famílias, onde há uma pessoa homossexual, uma criança ou jovem, mas ainda falta uma abertura clara e definitiva de respeito pela pessoa homossexual.

Não sei se leram um documento recente da Congregação para a Educação Católica [7], dirigido a todas as escolas cristãs sobre a questão do "gênero". Nesse documento, a palavra homossexual ou homossexualidade nem mesmo aparece, isso é absolutamente inacreditável!

Também a questão da discriminação contra as mulheres não aparece nesse documento, embora esses dois temas sejam o ponto de partida no que diz respeito ao discurso sobre gênero. O termo gênero foi inicialmente usado para denunciar a discriminação da qual são vítimas as mulheres; em um segundo momento, tratou-se da discriminação contra as pessoas homossexuais ou as minorias sexuais. A partir dos Estados Unidos, desenvolveu-se um uso minoritário radical que coloca em discussão a própria distinção entre homem e mulher, que podem escolher livremente sua própria identidade ... 

Nota da IHU On-Line:

O Instituto Humanitas Unisinos – IHU promove o seu X Colóquio Internacional IHU. Abuso sexual: Vítimas, Contextos, Interfaces, Enfrentamentos, a ser realizado nos dias 14 e 15 de setembro de 2020, no Campus Unisinos Porto Alegre.

X Colóquio Internacional IHU. Abuso sexual: Vítimas, Contextos, Interfaces, Enfrentamentos

Notas:

[1] Publicações de Ignace Berten: Croire en un Dieu trinitaire (Namur, Fidélité, 2008), Les divorcés remariés peuvent-ils communier? Enjeux ecclésiaux des débats autour du Synode sur la famille et d’Amoris laetitia (Namur, Lessius, 2017), La théorie du genre (Namur, Fidélité, 2018) et La sollicitude. Un mode de vie évangélique (Paris, Salvator, 2019).

[2] “Pourquoi un si long silence? Eglise, pédophilie, abuse sexuels and maltraitance" www.dominicains.be, setembro 2018 [transformado em texto de uma petição de denúncia lançada no site charge.org por Renata Patti “Perché un silenzio così lungo? Chiesa, pedofilia, abusi sessuali, maltrattamenti"].

[3] A ordenação sacerdotal de homens casados de certa idade e de fé comprovada, que podem celebrar missas nas comunidades que têm escassez de sacerdotes e onde é difícil para um padre possa ir com regularidade.

[4] Carta pastoral de 09/05/2017.

[5 ] Carta pastoral de 05/09/2016.

[6] Diocesi di Roma. Convegno Pastorale 2016. “La letizia dell’amore”: il cammino delle famiglie a Roma. Relazione del Cardinale Vicario

[7] http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/ccatheduc/documentos/rc_con_ccatheduc_doc_20190202_maschio-and-femmina_it.pdf

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