Os católicos ainda não entenderam: os abusos sexuais não têm a ver com sexo

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28 Fevereiro 2020

Jean Vanier violou o Segundo Mandamento, não o Sexto.

O comentário é de Robert Mickens, publicado por La Croix International, 27-02-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Continuamos ouvindo falar de incidentes que mais do que sugerem que os católicos – e, em particular, seus bispos – aprenderam muito pouco com a crise dos abusos sexuais clericais.

Isso é bastante alarmante e deprimente, porque a Igreja na América do Norte tem lidado com questões relacionadas a padres que abusam de crianças e adolescentes há pelo menos 30 anos, senão 40.

Os católicos da Grã-Bretanha, Irlanda e Austrália enfrentam essa “praga” há quase o mesmo tempo. E os dos países do norte da Europa começaram a levar mais abertamente em consideração os abusos entre as fileiras clericais logo após a virada do milênio.

Nos últimos anos, católicos do restante do mundo também foram forçados a admitir que também há recorrências de abuso sexual de padres nos seus países.

Isso inclui lugares nos antigos bastiões católicos da América Latina e do sul da Europa, o continente amplamente homofóbico da África e a extensão principalmente não cristã da Ásia.

Parece que onde duas ou mais pessoas (centenas de milhares) estão reunidas em nome do catolicismo, há abuso sexual clerical no meio delas.

O sexo cega os católicos

Como católicos, não gostamos de ouvir isso. E também não queremos admitir isso. Mas o pior é que muitos de nós não querem ver – ou talvez estejam muito cegos pela cultura e pela história para ver – o que é realmente o abuso sexual.

Não tem a ver com sexo.

Eu repito e peço que você pare e pense por um momento. Não tem a ver com sexo.

Para a maioria dos católicos, isso provavelmente é ainda mais difícil de ouvir, porque não lidamos muito bem com as questões sexuais. Nossos confusos ensinamentos da Igreja sobre o assunto tendem a tornar a sexualidade humana um ídolo ou (e, felizmente, isso é menos comum hoje em dia) algo sujo.

Reações às recentes revelações de que Jean Vanier abusou sexualmente de várias mulheres comprovam isso.

O leigo franco-canadense, que era visto como um santo vivo pelo seu extraordinário trabalho com pessoas com deficiência mental, não era culpado de pecar contra o Sexto Mandamento.

Pelo menos não principalmente, parece-me claro.

A falsa espiritualização do sexo

As mulheres dizem que Vanier as abusou sexualmente. Mas elas também dizem que ele fez isso sob o pretexto de algum tipo de espiritualidade mística.

Por mais que se tratasse de abuso sexual no sentido físico, era mais ainda um abuso espiritual dessas mulheres, pelo modo como ele usava as coisas de Deus para manipulá-las ou controlá-las.

Jean Vanier usou a espiritualidade – o que eu aprendi a chamar, a partir da minha própria experiência dolorosa, de “intimidade invadida” – como uma maneira para obter o que a outra pessoa não ofereceria ou não poderia oferecer livremente.

Eu nunca ouvi nenhum teólogo ou pregador falar sobre isso dessa maneira, mas estou convencido de que é isso que significa violar o Segundo Mandamento: “Não tomarás o nome do Senhor, teu Deus, em vão”.

Há pessoas na Igreja, especialmente entre os ministros ordenados (diáconos, padres e bispos) ou mesmo entre as lideranças leigas com um certo carisma (como Vanier), que fazem isso de várias maneiras.

Usando o status religioso

Elas usam a sua posição na Igreja ou a sua autoridade espiritual para satisfazer suas próprias necessidades ou desejos autocentrados.

Elas fazem isso – e muitas vezes com pouca autoconsciência, ao que me parece – convencendo as pessoas em nome de Deus a lhes darem dinheiro, sexo, honrarias, informações privadas sobre outras pessoas e todo o tipo de coisas.

Os televangelistas que ficam ricos vendendo a chamada “Teologia da Prosperidade” são o exemplo mais desagradável e flagrante disso. Certas ordens religiosas católicas, manchadas de escândalo, que enganam viúvas e outras pessoas ricas não são nem um pouco melhores.

Tendemos a olhar com desaprovação para elas, e com razão.

Contudo, falhamos em ver como os nossos bons padres e bispos – e outros líderes espirituais carismáticos – podem ser vítimas da mesma tentação de usar seu status religioso (e, muitas vezes inconscientemente!), para alimentar suas próprias necessidades pessoais.

E quando eu digo “nós”, refiro-me a todos nós, católicos. Tendemos a ficar cegos diante dessa realidade. Não queremos vê-la.

Em nome do pai

Provavelmente não é coincidência que, em uma Igreja (e em uma sociedade) dominada por homens, a grande maioria daqueles que se aproveitam sexual ou espiritualmente dos outros sejam homens.

O desejo dos homens de manipular ou mesmo de abusar aqueles que são mais fracos ou estão debaixo da sua autoridade – mulheres, outros homens, adolescentes ou crianças – provavelmente também é reforçado, até mesmo sem querer, pelo simples fato de que os homens sempre foram capazes de fazer isso em um sistema patriarcal como o da Igreja.

O patriarcado e seu filho primogênito, o clericalismo, permitiram que os homens de Deus violassem o verdadeiro significado do Segundo Mandamento, provavelmente desde os dias em que os gigantes da nossa fé caminharam por esta terra.

Eles continuarão a fazer isso até que as mulheres realmente se tornem membros iguais da Igreja, iguais aos homens em todos os níveis de autoridade e de tomada de decisão, e em todos os níveis do serviço ministerial.

Não chegaremos à raiz da crise dos abusos da Igreja enquanto isso não acontecer.

 

Nota da IHU On-Line:

O Instituto Humanitas Unisinos – IHU promove o seu X Colóquio Internacional IHU. Abuso sexual: Vítimas, Contextos, Interfaces, Enfrentamentos, a ser realizado nos dias 14 e 15 de setembro de 2020, no Campus Unisinos Porto Alegre.

X Colóquio Internacional IHU. Abuso sexual: Vítimas, Contextos, Interfaces, Enfrentamentos

 

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