Jean Vanier, fundador da L’Arche, cometeu má conduta sexual durante décadas, segundo relatório interno

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24 Fevereiro 2020

Quando Jean Vanier, o carismático fundador de uma rede global de instituições que atende adultos com deficiências físicas e intelectuais, morreu em maio passado, homenagens foram feitas em todo o mundo, e o The New York Times descreveu-o em um obituário como um “salvador de pessoas às margens”. Menos de um ano depois, uma das comunidades que ele fundou, L’Arche, se depara com detalhes perturbadores do passado de Vanier, incluindo sua participação em um grupo sombrio vinculado a um padre acusado de abuso sexual e espiritual, as mentiras relacionadas àquilo que Vanier sabia sobre aquele padre e as acusações de mulheres que dizem que Vanier se envolveu em comportamentos semelhantes ao longo de várias décadas.

A reportagem é de Michael J. O’Loughlin, publicada por America, 22-02-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Em um relatório que será lançado em breve pela L’Arche, Vanier é acusado de má conduta sexual com seis mulheres adultas e sem deficiência, que buscaram a direção espiritual do falecido ativista, autor e filósofo. De acordo com um comunicado de imprensa da L’Arche USA, a investigação “revela que o próprio Jean Vanier foi acusado de relações sexuais manipulativas e abuso emocional entre 1970 e 2005, geralmente dentro de um contexto relacional em que ele exercia um poder significativo e uma influência psicológica sobre as supostas vítimas”.

Segundo o comunicado, o inquérito “considerou que as acusações são confiáveis”.

“Independentemente umas das outras, as testemunhas descrevem ocorrências semelhantes, que tiveram um impacto duradouro e negativo em suas vidas pessoais e nos relacionamentos subsequentes.”

A investigação, encomendada pela L’Arche International em 2019, pouco antes da morte de Vanier, descobriu que Vanier se envolveu em comportamentos antiéticos e abusivos com mulheres que espelhavam os comportamentos abusivos cometidos pelo seu mentor espiritual e conselheiro inicial de suas organizações, o Pe. Thomas Philippe, que morreu em 1993.

Embora o relatório não tenha encontrado casos de abuso contra as pessoas atendidas pelos ministérios de Vanier, as pessoas que o admiram devem agora entender como o fundador da L’Arche, um homem elogiado por papas e políticos pelo seu trabalho humanitário, possa ter mentido por décadas sobre a sua conexão com um padre abusivo, enquanto ele mesmo praticava um comportamento semelhante. “Isso não entra na minha cabeça”, disse Tina Bovermann, líder nacional da L’Arche USA, em entrevista à revista America. Ela não está sozinha ao tentar entender esse aparente paradoxo.

Vanier escreveu publicamente em 2015 sobre as revelações de abuso cometidas pelo seu mentor espiritual, cuja sabedoria e dedicação às pessoas com deficiência, segundo ele, inspiraram a sua própria vida de serviço. Ele expressou seus sentimentos assim: “Não consigo reconciliar pacificamente essas duas realidades”.

As autoridades da L’Arche USA relatam que não têm conhecimento de acusações semelhantes dentro da L’Arche nos Estados Unidos, acrescentando que “encorajamos qualquer pessoa que tenha experimentado ou testemunhado um comportamento abusivo de qualquer tipo na L’Arche a relatar sua preocupação”.

As autoridades da L’Arche USA acrescentam: “Não é preciso dizer que essas revelações são chocantes e entristecedoras. Condenamos veementemente qualquer comportamento que viole a integridade emocional e física alheia”.

“Na L’Arche, a dignidade importa: acreditamos no valor inerente a todo ser humano. Estamos determinados a refletir sobre o que acreditávamos ser verdade sobre o fundador da L’Arche e sobre a história de fundação da L’Arche”.

As autoridades acrescentam: “Continuamos comprometidos, como sempre, em proteger todos os nossos membros, com e sem deficiência intelectual, aqui nos EUA hoje. Uma iniciativa abrangente de proteção está sendo implementada atualmente como parte do nosso compromisso contínuo com esses valores centrais”.

Um artigo de 2008 na America descreveu Vanier como um “líder espiritual celibatário que não é padre”, embora ele tenha dirigido retiros, escrito muitos livros sobre fé e espiritualidade e se engajado em aconselhamento espiritual. Foi através dessa direção espiritual, diz o relatório, que Vanier conheceu jovens mulheres com as quais ele se envolveu em relações sexuais durante anos. Vanier defendeu que os relacionamentos eram consensuais, mas as mulheres dizem que eram vulneráveis, e que Vanier abusou de sua posição e autoridade.

O comportamento do fundador da L’Arche parecia repetir o padrão de abuso iniciado pelo seu mentor, de acordo com a investigação. O Pe. Philippe havia sido o “pai espiritual” de Vanier, que o inspirou a iniciar seu ministério com pessoas com deficiência. Os dois se conheceram em 1950, quando Vanier, então com 20 anos, ingressou na L’Eau Vive, uma comunidade para estudantes de teologia na França fundada pelo Pe. Philippe. Dois anos depois, o Pe. Philippe foi chamado a Roma e removido do ministério ostensivamente por motivos de saúde não especificados.

Alguns estudiosos sugerem que o Pe. Philippe foi removido do ministério na época devido à “sua falta de ortodoxia e a uma mística mariana exagerada, que se baseava em uma experiência que ele teve em oração em 1937”. Essa teologia parece ter sido usada na promoção das práticas sexuais do Pe. Philippe em seu aconselhamento espiritual.

De acordo com a L’Arche, “pelo menos uma década antes da fundação da L’Arche, Jean Vanier tomou conhecimento do fato de que o Pe. Thomas Philippe, seu diretor espiritual, havia abusado emocional e sexualmente de mulheres adultas sem deficiência. Esse abuso ocorreu no contexto da direção espiritual de Philippe em 1951 e 1952”.

Vanier defendeu durante anos que não sabia por que o Pe. Philippe havia sido retirado do ministério em 1952. Em 2015, ele escreveu em uma carta que ficou “abalado e chocado” ao saber das acusações feitas contra o seu ex-mentor espiritual. Ele escreveu que, “alguns anos atrás”, ele tomou conhecimento de certas acusações, mas acrescentou que “permaneceu totalmente na escuridão quanto à profundidade da gravidade delas” até 2015. Mas a nova investigação revela que isso não era verdade.

Segundo o relatório, “é do conhecimento geral que Philippe foi proibido de exercer qualquer ministério público ou privado em um julgamento conduzido pela Igreja Católica em 1956. Jean Vanier declarou repetida e publicamente que não sabia por que Philippe havia sido condenado. Agora sabemos que Jean Vanier mentiu. Ele estava ciente dos comportamentos do seu mentor”.

O Pe. Philippe continuou atuando como mentor de Vanier e, em 1963, foi restaurado para o ministério. Ele atuou como capelão em uma casa para homens com deficiência intelectual na cidade francesa de Trosly-Breuil. Vanier o visitou, e o Pe. Philippe pediu que ele respondesse aos sentimentos que o incentivavam a realizar um trabalho semelhante.

Esse incentivo levou Vanier a estabelecer aquela que se tornaria a primeira comunidade L’Arche, uma pequena casa que ele dividia com dois homens com deficiência de desenvolvimento. O Pe. Philippe atuou como capelão dessa comunidade até a sua morte em 1993 (O irmão do Pe. Philippe, o Pe. Marie-Dominique Philippe, fundou um movimento religioso na França em 1975. Em 2013, a comunidade anunciou que havia tomado conhecimento de que o Pe. Marie-Dominique havia abusado sexualmente de várias mulheres adultas e ajudado a esconder o abuso de seu irmão, o Pe. Thomas).

A investigação da L’Arche descobriu que Vanier sabia do comportamento do Pe. Philippe. De fato, Vanier havia sido nomeado no relatório sobre o Pe. Philiippe. O padre foi instruído a não se comunicar com Vanier e com vários outros jovens adultos que estudaram com ele na L’Eau Vive.

Para contornar essas restrições, o novo relatório constatou que Vanier e os outros adotavam nomes secretos ao enviar cartas uns aos outros e se reuniam às escondidas para aprender com o Pe. Philippe. Vanier, de acordo com o comunicado de imprensa, “compartilhou práticas sexuais, semelhantes às de Philippe, com várias mulheres”.

Em uma carta escrita em 2015 para a rede L’Arche com sede em Paris, a organização reconheceu que o Pe. Philippe havia sido colocado sob sanções canônicas que limitaram seu ministério em 1956, antes da fundação da L’Arche.

Uma investigação posterior determinou que as sanções estavam “relacionadas ao comportamento inapropriado do Père Thomas durante o acompanhamento espiritual; comportamento que levaria várias mulheres a apresentarem queixa contra ele”. Então, em 2014, a organização ficou sabendo que várias mulheres adultas sem deficiência relataram “gestos sexuais seriamente inapropriados durante o acompanhamento espiritual”.

Uma investigação liderada pela Igreja concluiu em 2015 que o Pe. Philippe era o “perpetrador de comportamentos sexuais abusivos contra mulheres adultas”. O padre havia defendido suas ações, dizendo que ele procurava “revelar e comunicar uma experiência mística”.

“Independentemente do bem que o Père Thomas possa ter feito, pelo qual muitos são gratos, esses atos e a sua justificativa são uma prova de uma consciência distorcida que envolveu muitas vítimas conhecidas e, sem dúvida, desconhecidas para as quais a justiça deve ser feita”, disse o relatório.

Nos anos seguintes ao relatório, as lideranças da L’Arche começaram uma investigação interna sobre a cultura da organização. Em junho de 2019, a organização escreveu em uma carta que estava realizando uma auditoria externa sobre a sua história, a fim de entender “como o Pe. Thomas foi capaz de cometer esses abusos”.

Como parte da revisão, a L’Arche buscou respostas para “perguntas sobre o ambiente em torno do Pe. Thomas na época, incluindo o papel de Jean Vanier nesse ambiente”. Em uma mensagem de outubro passado, a organização escreveu que a investigação estava demorando mais do que o esperado e disse que as suas descobertas provavelmente “nos deixarão com uma imagem menos idealizada e mais crítica” sobre a história da L’Arche.

O comunicado de imprensa informa que Vanier havia sido contatado por algumas das vítimas do Pe. Philippe, mas não agiu com base nas informações que recebeu. Jean Vanier tinha ouvido algumas das sobreviventes, mas descartou a dor e o sofrimento das mulheres que confiavam nele. Ele não investigou ou denunciou essas acusações de abuso sexual. Jean Vanier, portanto, foi cúmplice ao encobrir os abusos de Philippe”, diz o comunicado de imprensa.

Vanier, nascido em Genebra e cidadão canadense, recebeu muitos prêmios e honrarias de prestígio, incluindo o Prêmio Templeton, a Legião de Honra, o maior prêmio da França, e o Prêmio Internacional Paulo VI, concedido pelo Papa João Paulo II em 1997. Suas duas organizações, L’Arche e Faith and Light, têm mais de 1.500 comunidades operando em dezenas de países. Elas reúnem adultos com e sem deficiência para viver e trabalhar juntos e são amplamente elogiadas pelos seus esforços.

No comunicado de imprensa, as autoridades da L’Arche USA concluem: “Reconhecemos a incrível coragem das testemunhas que testemunharam durante esta investigação. A bravura dessas mulheres nos chama a reconhecer a importância de dizer a verdade e o seu alinhamento com nossos valores fundamentais. Embora muitas perguntas ainda serão respondidas nos meses e anos vindouros, estamos hoje do lado daqueles que foram feridos”.

 

Nota da IHU On-Line:

O Instituto Humanitas Unisinos – IHU promove o seu X Colóquio Internacional IHU. Abuso sexual: Vítimas, Contextos, Interfaces, Enfrentamentos, a ser realizado nos dias 14 e 15 de setembro de 2020, no Campus Unisinos Porto Alegre.

X Colóquio Internacional IHU. Abuso sexual: Vítimas, Contextos, Interfaces, Enfrentamentos

 

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