"Maria Madalena e o futuro da Igreja, uma história por escrever", por Xabier Pikaza

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23 Julho 2019

"É muito bom conhecer melhor a histórica Maria Madalena... mas isso não resolveria os problemas. Não há Madalena histórica separada e fixada no passado, mas um caminho aberto por Maria Madalena e Pedro e pelos outros seguidores de Jesus. Nesse sentido, a história de Madalena ainda não está escrita, nós vamos escrevê-la, madalenas e madalenos...", afirma o teólogo basco Xabier Pikaza.

A entrevista é publicada por Religión Digital, 21-07-2019. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Há 25 anos, fiz uma entrevista sobre Maria Madalena, que está publicada em algum site. Agora volto com perguntas semelhantes e alguns livros novos, que coloco sobre minha mesa.

Três livros

Olá, Xabier. Há 25 anos me deixastes alguns livros sobre Madalena, e comprei outros, pois sua história segue me interessando. Eu trouxe esses, os conhece?

Sim, são de colegas ou de amigos.

"Marinella Perroni e Cristina Simonelli. María de Magdala. Una genealogía apostólica. San Pablo, 2016". O que achas?

Um livro esplendido, talvez o melhor que já li sobre o tema, ademais das ciosas que escreveu por aqui Carmen Bernabé, decana da Faculdade de Teologia de Deusto. Não tratam de Maria de Magdala, mas sim do eco de sua vida na Igreja primitiva, na Grande Igreja Ortodoxa e nas Comunidades gnósticas.

Marinella e Cristina são reconhecidas teólogas e historiadoras na Itália. O livro está situado no campo do pensamento e literatura cristã primitiva, que, como você sabe, é estudada em muitas universidades italianas, seguindo e marcando os traços que Maria Madalena deixou na tradição dos Evangelhos, da literatura antiga e gnósticos. Sabemos as lacunas deixadas nas comunidades cristãs. Uma história fascinante, como os autores mostraram neste livro. Por um lado, parece que mal conhecemos Madalena e, no entanto, podemos seguir as reflexões que ela deixou na história política, social e religiosa da antiga igreja.

"María e José Ignacio López VigilSan Pablo Apóstol, el que inventó a Cristo y María Magdalena, la que conoció a Jesús, Fe Adulta, Madrid 2019". Conheces?

Claro! Eles são autores de um best-seller de rádio-literatura sobre Jesus, que causou um grande impacto há cerca de quarenta anos. Eu estava com José Ignacio na apresentação deste novo livro, em Madri, alguns meses atrás. Eu escrevi algo sobre isso no Religión Digital, dizendo que era um estudo muito interessante, mas limitado, com uma tese talvez unilateral sobre bons (Madalena) e maus (Paulo).

É um belo livro, com uma ótima ideia: a diferença e complementaridade entre a visão de Paulo (com sua igreja mais dogmática e moralizadora) e a de Maria Madalena (com sua visão feminina, amorosa e atual de Jesus e sua Igreja). Certamente, uma das linhas de Paulo (o Paulo das Cartas Pastorais) triunfou sobre Madalena na Grande Igreja, até hoje. Mas talvez as coisas sejam mais complexas do que os irmãos Vigil pensam, porque Paulo tem traços muito positivos para o estudo das mulheres na Igreja, para a paz, com a mesma dignidade e autoridade que os homens. É possível que, sem Paulo e sua religião messiânica, o rastro de Jesus estivesse perdido há séculos, e hoje não poderíamos recordar nem de Maria Madalena.

E por fim, livro de "P. M. Lamet. No sé cómo amarte. Cartas de María Magdalena a Jesús de Nazaret. Mensajero, Bilbao 2016".

Eu conheço bem o livro, e eu me considero um amigo de Pedro Miguel Lamet, grande intelectual, bom jornalista, afiado contador de histórias, especialista em sentimentos e experiências de amor e de vida, é autor de algumas das narrativas mais chocantes que existem em castelhano sobre Paulo e Francisco Xavier, sobre Pedro Arrupe e outros personagens-chave da história da Igreja.

Eu escrevi uma resenha deste livro há dois anos no Religión Digital. Não se trata da história externa de Jesus e Madalena em sentido crítico, nem do possível futuro "madaleniano" da Igreja, mas o nascimento e implantação de um amor forte, que está no fundo da relação entre Jesus e Madalena.

São algumas cartas que Magdalena teria escrito a Jesus, sem jamais entregá-las, talvez por modéstia, ainda que/porque Jesus já soubesse como se sentia. Contra os mil romances baratos sobre o amor de Jesus e Madalena, com revelações que se dizem definitiva, mas que são simples murmurações da vida, Pedro Lamet conseguiu introduzir na intra-história de uma mulher que despertou, por Jesus, à vida e à liberdade, a sua missão como pessoa. Talvez isso não seja toda a Madalena, mas é uma Madalena verdadeira e eterna. Um livro para ler.

Quer recordar algum livro mais para começar essa entrevista?

Não, esses três são suficientes. Há 25 anos você me perguntou sobre o musical Jesus Cristo Superstar, com o amor romântico de Jesus e Madalena. Talvez você se lembre de algumas coisas que dissemos. Foi e ainda é uma bela história, na linha de um Love Story... hoje você pode me perguntar sobre Dan Brown, O Código Da Vinci... é um thriller bem orquestrado, de suspense policial com um fundo falsamente histórico. Tem interessado milhões de leitores e amigos do cinema, com um final feliz, onde a bela francesa, descendente de Jesus e Maria Madalena, se encontra, se apaixona (e talvez se casa) com o estadunidense falsamente investigador, para "conservar assim" o Sangue Real (Santo Graal) de Jesus no mundo. Tem seus valores, mas me parece uma desconstrução simplista da história de Jesus para as pessoas atuais que já não querem mais conhecer a história, porque acham que sabem de tudo.

Uma história antiga

E com isso passamos à história. Maria Madalena existiu?

Sem dúvidas. Ela desempenhou um papel importante na tradição cristã, pelo que é dito dela e pelo que se silencia... Sua figura talvez seja o vácuo mais importante do Novo Testamento, como uma sombra-luz de Jesus. Não é uma pura invenção, na sua forma atual, os evangelhos canônicos não poderiam ter criado sua história como uma importante discípula de Jesus, a primeira testemunha de sua Ressurreição, precursora da Igreja (cf. Mc 15,40).

Porém, por que Paulo não a cita?

Porque não entra em seu escopo e visão de Jesus, assim como tampouco ele cita Maria, a mãe de Jesus, nem o discípulo amado, ou as comunidades cristãs da Galileia. Isso não é devido a um tipo de antifeminismo. A Igreja de Paulo, embora mais tarde tenha sido recriada e modelada por homens, é uma Igreja imensamente feminina, onde mulheres e homens vivem e trabalham igualmente e pelo Evangelho..., mas ele quer estar alinhado com Pedro e Tiago... em seu "evangelho oficial" das aparições de Jesus (1Cor 15, 3-8) não deixa espaço para mulheres como Maria Madalena. Não é que Paulo e Madalena se oponham, como dizem os irmãos Vigil, mas eles são colocados em espaços diferentes... Paulo não menciona Madalena, mas é evidente que no fundo de sua mensagem há um "vácuo" de mulheres, uma lacuna na que podemos colocar Maria Madalena.

Por que se chama Madalena?

Porque devia ser de Magdala, cidade de pescadores da costa do mar da Galileia, entre Cafarnaum e Tiberíades, com mais de duzentos barcos, famosa por suas pescarias, cidade que hoje se pode visitar, com um Santuário dedicado à Madalena, com um barco sobre o mar. Se chamva Maria e o fato de que não leve junto o sobrenome de seu pai ou seu marido, mas sim da sua cidade, parece indicar que era uma mulher independente, que não estava submetida a outros (a um pai, um marido...) e que tinha autonomia como mulher e pessoa, para formar parte do grupo de Jesus.

Como e quando ela conheceu Jesus?

Não sabemos. É possível que Jesus passara por Magdala, é possível que ela o buscara, porque eram “espíritos afins”. Estou seguro de que Jesus causou um grande impacto em Madalena, porém que também Madalena causou um grande impacto em Jesus, em linha do amor e do Evangelho, de vida e liberdade... Isso, os evangelistas atuais, não puderam dizer, ainda que aparece de fundo em algumas narrativas, como a da mulher esquizofrênica de Marcos 7 e a mulher da unção de Marcos 14. Também se vislumbra essa “dependência” de Jesus a respeito de Maria na aparição pascoal de João 20, onde se vê claramente que Jesus a necessita para afirmar e espalhar seu Evangelho. Em Lucas 8, 2, se diz que ele a libertou de sete demônios. Assim podemos supor que estava doente e que Jesus a curou. Porém esse dado parece que deve se entender simbolicamente. É provável que ela mesma buscara a Jesus o que Jesus a chamara. Porém não sabemos. O importante e novo é que ela, com outras mulheres, foi companheira peregrina de Jesus e seus amigos.

Te referes à pagã de Marcos 7. Madalena era pagã?

Parece judia, ainda que o mesmo Jesus dos Evangelhos aprendeu a amar e curar com professoras e amidas pagãs, como quer dizer Mc 7. De qualquer maneira, o que sabemos sobre ela, tudo nos leva a pensar que Madalena era judia, não só por sua origem (Magdala era uma cidade de judeus, embora devesse ser um ponto de encontro com pescadores pagãos e mercadores), mas porque os discípulos de Jesus eram judeus. Este dado pode ser importante: Magdala era uma cidade judaica, junto ao lago, uma cidade galileana, com bom comércio com pagãos, com muitos sírios e gregos pelas ruas e barcos, de qualquer forma, o fato de ela ser judia ou pagã é secundário. O que importa é a sua função messiânica; discípula-companheira de Jesus, precursora da experiência pascal.

Fez parte da história de Jesus, até a última ceia.

Estava integrada no círculo mais íntimo dos discípulos?

Evidentemente! Em certo sentido, na linha do messianismo judaico, para evocar e recriar o sinal dos doze patriarcas de Israel, Jesus escolheu doze homens para acompanhá-lo. Mas eles não eram os únicos discípulos, nem precisavam ser os mais próximos, nem eram os "criadores" do cristianismo. Esta é uma história que ainda precisa ser explorada. A tradição posterior "absolutizou" os Doze, e assim Paulo faz em 1Coríntios 15, e o mesmo relato em Atos 1-2.

Mas essa história dos Doze "triunfantes e fieis" de Jesus “faz a água” assim que vamos aos textos. Por muito querem um tipo de Pedro e Lucas (Livro de Atos), a igreja primitiva não começou com os Doze fiéis de Jesus (exceto Judas!), mas sim com Madalena e algumas mulheres, que o entenderam, seguiram-no e o amavam. Este é o grande "vácuo" da primeira história cristã: como diz Atos 10, 37, "a coisa de Jesus" começou na Galileia, e assim supõe Mc 18, 1-8 (com Mt 28, 16-20). Além disso, podemos e devemos dizer que a coisa começou com Maria Madalena, e que a última história oficial não conseguiu apagá-la.

Era do grupo de mulher que sustentava economicamente aos seguidores de Jesus? Formava parte dos amigos próximos de Jesus?

É evidente que fazia parte da intimidade messiânica de Jesus, como assume Lc 8, 2-3 (e de alguma forma Mc 15, 40-41). Mas Lc 8,2-3 parece querer ocultar a interpretação desse fato, apresentado a Madalena com outras mulheres como "patronas" de Jesus, mulheres ricas que apoiavam sua aventura messiânica (como sustentaram e presidiram depois muitas igrejas primitivas, como patronas, “bispas” e presbíteras). Certamente, pode haver alguma verdade nisso. Mas esses dados parecem tardios e são, pelo menos, ambíguos porque o grupo itinerante de Jesus não era patrocinado por "chefes" que alimentavam "clientes" pobres. Madalena não era uma patrona sedentária e rica do grupo de Jesus, mas uma discípula peregrina, e assim subiu com ele a Jerusalém. Além disso, no caso de ela ter sido rica, ela teria dado tudo para seguir Jesus (seus amigos iam sem bolsa e sem dinheiro).

O que Madalena ensinou a Jesus?

Eu já disse. Ela simplesmente ensinou a ele humanidade, os problemas e experiências, os valores reais e promessas da carne e sangue, do sofrimento e desejo de amor dos homens e mulheres. Jesus era "mal-educado", no sentido em que foi um discípulo de João, "o maior dos nascidos de mulheres" (Mt 11, par) ..., mas longe do Reino, um homem de penitência e julgamento. Contra isso, Madalena é a humanidade sofredora e amante, é o amor da vida, como mulher e pessoa, que situa Jesus diante das principais questões da humanidade, os doentes, os solitários, os marginalizados... Jesus, sem a realidade sangrenta e amante de Madalena, não poderia ter sido quem ele foi... nem Maddalena, sem Jesus.

Ela esteve na Última Ceia? Jesus a fez sacerdote?

É provável que sim. Mas não sabemos como, nem quando, nem quem acompanhou Jesus na chamada Última Ceia, pois os evangelhos sinópticos (Mc, Mt, Lc) interpretaram esse jantar de maneira simbólica, apresentando-o como um sinal da culminação da jornada de Jesus, mas também do fracasso dos Doze que não entendem o que Jesus está fazendo. Por outro lado, uma certa igreja posterior carregou sobre esse jantar uma grande carga de temas essenciais para a posterior hierarquia: Fundação do Sacerdócio e da Eucaristia, formulação do Sacrifício de Cristo...

Tudo isso deve ser matizado, tanto o sacerdócio como o uma eucaristia sacrificial. Seja como for, que o simbolismo sacerdotal e eucarístico posterior (ligado às funções de poder da Igreja) se aplicaria à Madalena e às mulheres o mesmo (ou melhor) do que aos Doze. De qualquer forma, isso deve ser melhor especificado.

Uma prostituta? Que família teve?

Por que e quando se identifica com uma prostituta?

Os evangelhos não dizem que foi, a menos que a identifiquemos como a mulher de Lc 7,37-39, o que é quase impossível. Alguns disseram que era, pelo seu próprio nome – não tem o nome do pai ou do marido, mas da sua cidade Magdala, que era um centro de trabalho, riqueza e negócios, onde deve haver mulheres "públicas", isto é, “livres" do pai e do marido, com os riscos e valores que isso implicava... Mas isso não é mais do que conjectura, e se ela foi uma prostituta, isso não seria desonra no sentido cristão evangélico (Mt 21,31-32). Somente a partir do segundo século ela é chamada de prostituta, para destacar a misericórdia de Jesus com ela e talvez para diminuir sua "autoridade".

Esteve possuída pelo demônio?

Isto é o que diz Lucas 8, 2-3, mas este fato deve ser tomado em um sentido simbólico: Madalena seria um exemplo de mulheres curadas por Jesus. A tradição anterior não diz nada sobre isso. De qualquer forma, nem o fato de ela ter sido demonizada, no sentido antigo, significaria qualquer desonra para ela, mas pelo contrário. Os "desonrados" do Evangelho não são os “possuídos pelo demônio”, mas sim os “fazem o demônio possuir”, na linha política, social, econômica e/ou religiosa.

Está de fundo o tema da “boa” prostituta?

Sim e não, como o tema da adúltera de João 10, com quem sua figura poderia estar ligada. Mas a questão não é moralista. É evidente que Jesus "andou" num contexto de publicanos e prostitutas, mas não como cafetão de bairro, ou como aproveitador, mas simplesmente (e com muito mais profundidade) como pessoa que entende, que acompanha, que ama, incentiva... Certamente, pode haver boas prostitutas, mas também "ruins”. Mas o problema não é moral, e sim social, de opressão e liberdade...

Sabemos se ela tinha outra família? Foi a irmã de Lázaro e de Marta?

Assim supõe certa tradição, a partir do Evangelho de João, talvez para não multiplicar mais as Marias, talvez para situar a Madalena em “boa” companhia, isso é, no começo da Igreja, formada de um modo especial por mulher-irmãs (cristãs), como se insinua em Lucas 10, 39 e em João 11-12... Porém tudo nos faz supor que Madalena não formava parte das famílias exemplares de Marta e Lázaro.

Maria, irmã de Lázaro e de Marta, pertence a um contexto social e familiar diferente, com grande casa de acolhida para a comunidade, com sepulcro honrado... Mais sentido tinha identificar Madalena com a mulher da unção de Marcos 14, 3-9, pois as duas se vinculam à morte e páscoa de Jesus, porém tampouco isso é provável. Pelo que sabemos do final de Marcos (Mc 15-17), Madalena formava parte de um grupo de mulheres amigas de Jesus, que foram e seguem sendo o “laboratório” de surgimento da (nova) igreja.

Madalena e a origem da Igreja. Uma histeria coletiva?

Qual significado tem ser a primeira a ver o ressuscitado?

Bem, foi a primeiro cristã, no sentido primitivo de "mulher messiânica"! Ela foi a primeira a entender o que implica o modo de vida e morte de Jesus, algo que, depois, o Evangelho de Lucas aplica a Maria, a Mãe de Jesus, ao falar de seu nascimento e seu gesto de "se perder" no templo (Lc 1, 19.51). Nessa linha, podemos e devemos afirmar que a primeira igreja era o coração de Madalena e de suas mulheres-companheiras, as amigas de Jesus.

Ela está ligada à tradição da cruz e do sepultamento de Jesus, sendo, com outras mulheres (e com o Amado Discípulo do Evangelho de João, que tem mais características simbólicas), a única crente que, segundo os Evangelhos, viu Jesus morrer, embora não pode “enterrá-lo” (pois não tinha autoridade para fazê-lo). Ela foi a primeira a descobrir, por experiência pessoal, que Jesus está vivo, que ele não poderia ser procurado no sepulcro.

Que papel desempenhou na Igreja primitiva?

Essencial! Assim mostram os textos da Paixão e da Páscoa dos quatro Evangelhos e, de maneira especial, no final "canônico" de Marcos (Mc 16, 9), com Jo 20, 1-18, onde é expressamente afirmado que ela foi a primeira cristã, a primeira testemunha e apóstola da igreja, antes dos Doze. Isso é reconhecido pelo início do livro de Atos (Atos 1, 13-14), embora depois não se fale mais dela.

Por que depois ela desaparece da tradição cristã?

Ela não desaparece. Desaparecem com ela, mas sem conseguir, pois, sem ela não se entende nada do que se segue! Quem sabe ler descobre que sua figura e função são essenciais nos Evangelhos, que não respondem talvez ao que gostaríamos de perguntar, mas que dizem muito sobre o papel de Madalena na igreja primitiva. Celso, o mais lúcido dos críticos anticristãos do segundo século, levanta bem a questão quando afirma que Madalena (uma mulher histérica!) foi a fundadora do cristianismo.

Por que histérica?

Porque há coisas que só um tipo histéricas e históricas mulheres podem saber: que uma pessoa morta como Jesus está viva; que sua morte não foi um fracasso, mas muito pelo contrário, uma "explosão messiânica", a descoberta e a explosão superior do amor que supera a mentira do poder e da morte tributária. Ela era uma mulher histérica, mas no novo sentido de recriada, uma mulher que começou a viver numa dimensão diferente da realidade, a do amor sobre a morte. Nesse sentido, o cristianismo começou (e continua a ser) uma espécie de histeria de amor, uma experiência de "mutação", vinculada à vida que é compartilhada e dada de graça, como a única esperança para o futuro, no tempo de Jesus... e neste ano fatídico de 2019, quando, sem um tipo de aposta de amor como o de Madalena, toda essa confusão econômica-política pode saltar pelo ar.

Jesus ressuscitou em seu amor, como surgiu a Igreja

Queres dizer que sem amor como o de Madalena, isso se acaba... Isso significaria que Jesus ressuscitou em seu amor...

Algo disso. Sem amor, compreensão mútua, sem acolhimento aos loucos-pobres-mutilados e diferentes (exilados, migrantes, excluídos, doentes ...) este mundo humano acaba (ou já está terminando). É verdade, o amor ressuscita aqueles que morreram e dá vida aos homens e mulheres que, em outro sentido, parecem mortos... Nessa linha poderíamos dizer que Jesus foi um ser vivo ressuscitado, de modo que, num sentido muito profundo, Ele já havia ressuscitado antes de morrer, ele havia acendido o grande amor em Maria Madalena e nos outros amigos e discípulos. Nesse sentido, podemos dizer que Jesus ressuscitou nela... e que ela mesmo era, como eu disse, uma ressuscitada, de modo que sua presença vive e alenta a Igreja.

Isso é bonito, porém é talvez demasiado intangível. As pessoas buscam um amor mais tangível. Nessa linha, que valor tem que dar a relação afetiva que alguns apócrifos dizem que ela manteve com Jesus?

Jesus a amava, como aos outros discípulos (e assim diz o historiador judeu F. Josefo: "aqueles que o amaram seguiram o amando depois da morte", Antiguidades Judias XVI, 3, 63). Nesse sentido, Jesus e Madalena se amavam. Mas fazer dela uma namorada estrita ou esposa formal de Jesus é fantasia. Os apócrifos (Ev. Filipe 55), quando dizem que Jesus a amava e a beijava na boca (a Salomé mais do que Maria ...), dão a esse beijo um significado anti-carnal, como supõe Ev. Tomas 114 ao afirmar que, para completar seu caminho de salvação, ela precisa "se tornar um homem". A gnóstica Maria é uma mulher assexuada.

Podemos dizer que ela forma parte do Discípulo amado?

Talvez sim. Portanto, o discípulo amado de Jesus não é um homem ou mulher fechado em si mesmo, mas o amigo, homem e/ou mulher. Nesse sentido, a presença de Madalena em Jo 20-21 é surpreendente (talvez até massiva). Parece claro que no fundo do Evangelho de João e a figura do discípulo amado influenciou a tradição de Madalena. João não se expande, mas sim reduz sua influência em favor de Pedro e do Discípulo Amado. Isso significa que, na igreja anterior, Madalena foi ainda mais importante do que o Evangelho de João supõe.

A Igreja tem que pedir perdão por ter falsificado a figura de Maria Madalena? Os gnósticos não entenderam melhor a sua figura?

Talvez, mas não devemos colocar a questão naquele plano. Você tem que pedir perdão com vida, não com palavras! Além disso, a palavra "falsificar" não é justa. Nem a igreja oficial falsificou Madalena, nem os gnósticos mantiveram sua figura intacta, mas ambos a interpretaram. A solução não é retornar aos gnósticos, mas recuperar a história de Jesus e da igreja primitiva de um modo que não seja mais patriarcal, nem androcêntrica, a partir do programa de Gálatas 3, 28 (não há homem, nem mulher). O papa Francisco declarou que Maria Madalena é o apóstola apostolorum, Apóstola dos Apóstolos. Mas nada mudou com isso, já que as mulheres continuam a ocupar o lugar habitual na igreja, pelo menos desde o século III d.C.

Uma Igreja de Maria Madalena

Se pode falar de uma Igreja de Pedro, de Paulo, de Madalena...?

Claro, mas com cuidado, sem misturar os matizes... sem acabar abrangendo tudo em Pedro ou Paulo, reconhecendo diferenças de matizes... Uma história católica posterior centrou quase tudo em Pedro, em um Pedro que Jesus disse, em um sentido diferente, "sobre esta pedra edificarei a minha igreja" (Mt 16, 18), como está escrito na cúpula do Vaticano. Mas a "petra" ou rocha sobre a qual Jesus fundou a igreja não é simplesmente o "Petros", ou a pedra da tradição de Mateus ... Essa Petra é a fé, a confissão messiânica, que Pedro aprendeu com Maria Madalena e Marta, como João 11 destacou no Evangelho de Marta e Maria.

O que podemos fazer? Rever a sua figura, despojando-a da ficção científica, ajudaria a reivindicar o papel da mulher na Igreja?

Que a ficção-científica faça sua ficção, mas faça bem! A igreja oficial temia Madalena e preferia a Mãe de Jesus, mas as duas mulheres caminham juntas em João 19, 25 e em Marcos 15, 40.47; 16, 1 par. Ambos são essenciais na primeira igreja. Madalena não poderia ser bispo ou papa na igreja que triunfou no século II-III, mas poderia estar em uma igreja não-hierárquica ou patriarcal do futuro.

Não seria melhor voltar à Madalena histórica e deixar de teorias?

É muito bom conhecer melhor a histórica Madalena... mas isso não resolveria os problemas. Não há Madalena histórica separada e fixada no passado, mas um caminho aberto por Maria Madalena e Pedro e pelos outros seguidores de Jesus. Nesse sentido, a história de Madalena ainda não está escrita, nós vamos escrevê-la, madalenas e madalenos...

Há 25 anos me mostrou o esquema de um livro que querias escrever sobre Maria Madalena. O que há desse desejo?

Passaram-se anos... e o esquema segue. O tenho no computador, te passo em algum momento. Não terá mais 25 anos para seguir pensando no tema, mas talvez possa escrever ainda uma história do passado e do futuro de Maria Madalena.

Obrigado Xabier, foi um prazer, depois de 25 anos... Me envie o esquema.

Aí está, copio o esquema-índice do livro. Não o escrevi em 25 anos, talvez nunca o escreva. Porém o conservo separado, onde coloco “livros por escrever” com umas 80 páginas escritas... Abaixo está o índice. Precisaria de muito mais, mas M. Perrone, C. Bernabé e outras grandes pesquisados já escreveram o essencial. Talvez eu acrescente pouco...

[Em espanhol]

MARIA MAGDALENA. HISTORIA Y SIMBOLOGÍA

1.- DISCÍPULA DE JESÚS. MC 15
- Historia básica: paradigma del discipulado
- Culminación del discipulado en la cruz

2.- TESTIGO PASCUAL MC 16 Y JN 20
- Mc 16,1‒8: tumba vacía, mujeres que no van a Galilea
‒ Mc 16, 9‒12. Final “canónico”: Se apareció primero a María Magdalena
- Lc: las mujeres en la iglesia (Hech 1, 13-14), silencio posterior
- Jn: María como creyente pascual, apóstol de los apóstoles

3. ¿PECADORA CONVERTIDA Lc 7-8?
- Necesidad de "encarnar" el pecado: María como signo de pecado.
- La tradición de Magdalena penitente

4.- PROFETA. MUJER DE LA UNCIÓN de Mc 14, 3‒9 a Jn 12, 1‒8
- María, la que conoce a Jesús y le unge para la muerte pascual
- María como "obispo" en la tradición mediev

5. MAGDALENA, LA UNIÓN DE TODAS LAS MARÍAS (MENOS LA MADRE DE JESÚS)
‒ María Magdalena histórica
‒ La mujer de la unción
‒ La pecadora de Lucas
‒ María la hermana de Marta, en las tradiciones de Lucas y de Juan

6.- SIGNO FEMENINO DE SALVACION. GNOSIS
- Historicidad de fondo…Necesidad de buscar la Magdalena de fondo.
- Idealización gnóstica en siglos II‒IV: María, signo de lo femenino.
- Novela gnóstica moderna: María como la amante-esposa de Jesús

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"Maria Madalena e o futuro da Igreja, uma história por escrever", por Xabier Pikaza - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

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