Homossexualidade. Teóloga Cristina Simonelli: "A escritura pode ser relida"

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28 Junho 2019

Não serve aguardar uma perfeita conversão eclesial antes de promover e apoiar um novo caminho pastoral. Nós nunca estaremos "realmente prontos", porque o Evangelho sempre nos precede.

Portanto, é melhor valorizar o que já existe, na esperança de que os outros se convençam da necessidade de fazer o mesmo. E isso também se aplica aos percursos pastorais dedicados aos homossexuais. Cristina Simonelli, presidente da coordenação das teólogas italianas, professora de teologia patrística em Milão e Verona, está convencida disso.

Cristina Signorelli, leiga (Florença, 1956), ensina história da igreja e teologia patrística em Milão (na faculdade teológica da Itália setentrional e no Seminário Arquiepiscopal) e em Verona (estúdio Teológico de S. Zeno e instituto de estudos religiosos São Pedro Mártir). Viveu no contexto Rom (ciganos) de 1976 até 2012 e considera imprescindível essa experiência.

A entrevista é de Luciano Moia, publicada por Noi, famiglia & vita, suplemento mensal do Avvenire, 23-06-2019. A tradução é de Luisa Rabolini

Eis a entrevista. 

A igreja embarcou em um difícil percurso para dar concretude ao convite do Papa Francisco (AL 250) quanto à necessidade de acompanhar as pessoas homossexuais "para realizar plenamente a vontade de Deus em suas vidas", no respeito à dignidade de cada um e evitando qualquer discriminação. Três anos após a publicação da exortação pós-sinodal, algo mudou, mas ainda há muitas resistências. Você acredita que a igreja ainda não está pronta para iniciar uma pastoral verdadeiramente inclusiva com essas pessoas?

A igreja, que é o sujeito coletivo complexo que formamos juntos, está numa crista: nunca estamos "prontos" totalmente, porque o Evangelho sempre nos precede. E, no entanto, podemos e devemos dar passos, sem esperar estarmos perfeitamente equipados. Ouvimos muitas vezes um raciocínio semelhante em relação à componente mais numerosa de fiéis da igreja, isto é, todas as mulheres: esperar por uma perfeita conversão eclesial e pastoral só pode levar à paralisia, procrastinando de maneira intolerável as questões que nos concernem.

Em ambos os casos, no entanto, o que já está em ato e parte da igreja: não para ser otimista a todo custo ou para falar trivialmente sobre as coisas de sempre, mas pela convicção de que "aquilo que mudou "é importante e, o que mais importa, imparável. Certamente as resistências são algo que não deve ser subestimado: muitas vezes se pensa que podemos enfrenta-las usando razões e argumentos, que são importantes, mas não suficientes, porque aqueles que se opõem a ela de maneira radical frequentemente o fazem com base em elementos profundos que se manifestam como ideias, mas são muito mais, no mínimo desejos, medos e fantasmas.

Em um "Estudo do mês" que editei 4 anos atrás (Mulheres e teologia. Contar a diferença sem ideologias), Lucia Vantini expressou magistralmente a questão (Sentieri interrotti. Le resistenze non riconosciute, Il regno attualità 1/2015, p. .58), mostrando sua transversalidade.

Também no documento final do Sínodo dos Bispos sobre os jovens, solicita-se cuidado pastoral às pessoas homossexuais, mas até agora não há "diretrizes" para estabelecer um percurso específico. Em que critérios deveríamos nos mover?

O percurso sinodal que sintetizou a voz e os debates que eram muito mais amplos é de grande interesse; fora da contração do texto final (DF), que é compreensível sob certo ponto de vista, é significativo observar que dois parágrafos que receberam a menor taxa de aprovação são precisamente o número 121, sobre a forma sinodal da igreja, e o número 150, precisamente, que contém também uma referência à sexualidade. A baixa adesão, de um modo de proceder que resulta, às vezes, quase por aclamação, dá o que pensar e combina com o que acaba de ser dito. Mesmo nesse contexto, a indicação que resulta disso parece-me a mais oportuna neste momento: "em muitas comunidades cristãs já existem caminhos de acompanhamento na fé de pessoas homossexuais: o Sínodo recomenda encorajar tais percursos".

Antes de mais nada, trata-se de “reconhecer”: que nas comunidades eclesiais e não só dentro delas, há pessoas homossexuais e que já existem muitos caminhos de espiritualidade, de oração, de acompanhamento, muito mais do que se poderia pensar olhando os banners da pastoral nos sites das dioceses.

Em segundo lugar, trata-se de "escutar": num sentido imediato, num sentido radical, ouvir as vozes, as experiências, os sofrimentos, por exemplo: o portal Gionata, portal sobre Fé e homossexualidade é uma mina, com muito espaço também para AGEDO e 3volteGenitori.

Esta última observação poderia parecer "paternalista", pela referência aos pais, mas a considero importante por uma das observações que atravessam o mundo eclesial: a fobia com relação ao termo "reivindicação".

Não a compartilho, é claro, mas acredito que, neste caso, a voz dos pais e avós que fazem um caminho "para os outros" e não apenas para si mesmos, seja particularmente eloquente.

Em terceiro lugar, pedir perdão: pelas muitas discriminações, pelo desprezo que vai das piadas sarcásticas à exclusão, mas também a um desconforto com a sexualidade que age transversalmente mesmo em pontos que agora parecem doutrinais, mas que podem ser purificados, aperfeiçoados, convertidos em um novo elemento de purificação da memória. Por fim, “caminhar juntos” que significa colocar-se em um caminho comum, sem unilateralizações e sem forçar. Uma pessoa é muito mais do que uma aparência étnica ou uma orientação sexual: óbvio, mas nem sempre simples. Precisamente por todas essas razões, no entanto, considero que mais do que "diretrizes", que poderiam ser precipitadas e restringentes, seja importante ativar esse tipo de processo, próximo aos critérios da Evangelii Gaudium.

Aqueles que criticam a decisão da diocese de abrir as portas para as pessoas homossexuais geralmente se movem em dois pontos. Os intolerantes absolutos afirmam que não é correto dar espaço a pessoas "culpadas" de um pecado que, de acordo com o catecismo de Pio X, "clama por vingança aos olhos de Deus". Os intolerantes mascarados acreditam que não é justo "guetizar" do ponto de vista pastoral essas pessoas e que seria suficiente direcioná-las para as propostas comuns. O que responde a essas críticas?

Vou começar pela segunda, que também pode ser encontrada em relação a pastorais específicas de grupos étnicos e que muitas vezes, como já está sugerido na pergunta, "mascara" a recusa. Primeiro, porém, vou recolher uma sugestão útil: grupos específicos podem ser importantes precisamente porque a pressão é tão forte que há necessidade de lugares de reflexão, de aprofundamento, de pesquisa em que se reconhecer. Mas essas realidades não devem, absolutamente, ser guetos, é toda a comunidade, sua catequese, sua liturgia e cada sua expressão de tudo e de todos, um lugar onde todos possam se reconhecer e sentir-se expressos. Repito também a esse respeito, além disso, que toda pessoa é uma realidade complexa, que entre os vários aspectos também tem a orientação afetiva e sexual, mas ninguém pode ser identificado apenas em um aspecto.

Acrescento que também conheço muitas pessoas, mulheres homens e, entre elas, também várias pessoas que fazem parte do clero que, aumentando a confiança recíproca, também me falam de sua orientação não heterossexual. Muitas vezes são situações de sofrimento porque o não-dito força-os/as a uma posição muito desconfortável: mas é importante saber disso, tanto porque a sua resistência a se manifestar fala do nível de agressividade que as pessoas homossexuais ainda sofrem, seja porque, como acabamos de dizer, ninguém deveria ser forçado a restringir a definição de si mesmo apenas a um elemento. A forma de rejeição total, ao contrário, por um lado encontra-se num nível agora inaceitável na dimensão "contra a natureza" da homossexualidade, não mais presente nos documentos do Magistério; pelo outro desloca-se para um aspecto ainda muito discutido, que é o que afirma o acolhimento das pessoas, negando, porém, a legitimidade de sua vida afetiva e sensual. Essa segunda posição, no entanto, é, na minha opinião, contraditória: considero que deveria ter pelo menos a forma da questio disputata.

A diocese de Turim esteve no centro de fortes polêmicas sobre a decisão de propor aos homossexuais crentes um percurso sobre a fidelidade. O encontro, após as críticas de 2018, foi realizado em abril passado. Os ataques se repetiram na convicção de que seja incoerente falar de fidelidade a pessoas que não deveriam ser encorajadas a permanecer "fiéis ao pecado", mas apenas a mudar suas vidas. Como você avalia esses "conselhos"?

Como acabamos de mencionar, há uma contradição em dizer de acolher as pessoas, impondo, porém, um celibato forçado a elas. Prefiro falar de "celibato" (mesmo que muito masculino, a isso logo vou retornar) em vez de castidade, porque castidade significa também uma relação respeitosa e fiel: concordo com essa abordagem, parece-me séria e capaz de acolher casais que eles já são formados vivem seu amor com profundidade.

Como concordo com aqueles que afirmam que atos dentro de um casal homossexual devem ser avaliados com base nos frutos espirituais que produzem. Devemos nos perguntar: são ordenados ou não, ou seja, para construir o bem da pessoa?

O Papa Francisco fala frequentemente de inclusividade, integração, misericórdia, acolhimento. Existem fundamentos bíblicos para estender essas atitudes pastorais até mesmo para pessoas homossexuais?

Até muito recentemente eu não havia medido o uso restritivo que fazemos de muitas passagens do Evangelho que convidam ao acolhimento, ao reconhecimento mútuo, à plenitude da lei reconhecível no Ágape, à bênção, e finalmente ao poder, mesmo nesse sentido, do afresco escatológico do capítulo 25 de Mateus: "vocês o fizeram a mim".

Devo à reflexão e à pastoral LGBT a sugestão de uma leitura inclusiva desses e de muitas outras passagens, inclusive dos Atos 11, 17 ("Portanto, se Deus lhes deu o mesmo dom que a nós, quando havemos crido no Senhor Jesus Cristo, quem era então eu, para que pudesse resistir a Deus? ”), que ouvi magistralmente comentada por James Allison. Incluindo também o versículo que orientava a jornada contra a homofobia deste ano ("Não temas, porque eu te remi; chamei-te pelo teu nome; tu és meu. Enquanto foste precioso aos meus olhos, também foste glorificado, e eu te amei", Isaías 43, 1-4); incluindo o ficar diante do outro na reciprocidade, o ezer kenegdo do Gênesis 2.18.

Além disso, sabe-se que temos uma relação muitas vezes ambígua com a escritura, embora provavelmente em boa fé: algumas passagens as bloqueamos em um literalismo rígido (por exemplo, os códigos familiares, as passagens sobre a submissão das mulheres), outras as passamos tranquilamente para um registro de vários e eventuais (por exemplo, dar a outra face, não levar nem bolsa, nem sacola). Como aconteceu no terceiro século, quando a crise da comunidade após a perseguição "obrigou" a reler em termos mais amplos as passagens sobre o perdão, assim pode acontecer ainda hoje, se a vida das pessoas nos ajuda a purificar e aprofundar nossa leitura. Não "sobre" os outros, mas junto com os outros.

Evangelizar o mundo homossexual é realmente possível? Você acredita que uma atitude diferente da parte da igreja possa induzir aqueles que hoje está definitivamente longe a olhar com maior atenção para um percurso de fé?

Aqui me permito, em primeiro lugar, uma crítica que talvez eu devesse ter expressado imediatamente: posso chegar a compreender que a sigla lgbt/iq possa ser preferida a à “homossexuais/homossexualidade”, considerada talvez menos transgressora e imóvel. Mas se depois esta se restringe novamente e se torna "gay", é exclusivamente masculina, não posso deixar isso passar tranquilamente.

Um defeito de língua, uma escolha comunicativa? Como aquela que em "homem" pensou ao longo dos séculos poder dizer, ou melhor ocultar, todas as mulheres? As palavras têm sua importância, eu convidaria a uma maior vigilância. Além disso, apesar de uma presença e reflexão lésbica importante também na Itália, são frequentemente os homens que tomam a palavra nesse sentido: tudo bem? Deveríamos prestar muita atenção, para não ter nesse caso, uma exclusão da experiência feminina, com certeza, ao quadrado. Os movimentos das mulheres trans-feministas se abriram para posições muito inclusivas de toda diferença, mas isso requer um tipo de reciprocidade atenta.

Voltando ao que era o centro da pergunta, eu a redirecionaria: é possível que o mundo LGBT possa evangelizar a igreja levando a uma melhor compreensão do Evangelho? Eu acho que seja possível. Além disso, é possível que pessoas homossexuais que não fazem parte da igreja e talvez de seu clero possam fazer um percurso com o resto da comunidade? Sim, acho que seja possível. Finalmente, isso também tem a ver com pessoas que fazem parte da igreja?

Eu penso que seja um aspecto muito importante, porque ser desprezado, fere de qualquer maneira, portanto, mesmo para aqueles que não mais se reconhecem na igreja “importa” como nos expressamos em relação a eles.

Nascerão conversões daqui? Esperamos as nossas, são meus votos. Para aquelas alheias, "não nos cabe conhecer os tempos e os momentos" (Atos 1, 7) de um caminho do qual podemos ser testemunhas, não proprietários.

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