Novos caminhos a serem percorridos para acompanhar as pessoas homossexuais na Igreja Católica

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12 Abril 2018

Texto de Claude Besson extraído da introdução de seu livro Homosexuels catholiques, sortir de l'impasse (Homossexuais católicos, sair do impasse), Éditions de l'Atelier, Paris, 2012, tradução livre de Dino Robert, Véronique, Marie, Olivier, Yvon, Luc et Sylvie, Heloise, Jean...

Essa lista de nomes poderia ocupar diversas páginas, são todas as pessoas que conheci, e encontrei ao longo de meu caminho e que me confidenciaram as suas alegrias, as suas esperanças, mas também as suas dificuldades.

São todos cristãos, homossexuais ou pais com filhos homossexuais. Independentemente de sua condição (solteiros, sacerdotes, religiosos, pais e mães, casais homossexuais ...), todos tentam viver o que são, para construir uma existência sensata e coerente que lhe permita viver feliz.

O texto é publicado por www.gionata.org, 11-04-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Claude Besson é encarregado da pastoral escolar na diocese de Reseau La Salle (França). Editou vários debates nas paróquias e dioceses católicas francesas sobre o tema "do acolhimento das pessoas homossexuais na Igreja Católica" e coordena o grupo Reflexion et Partage de Nantes. É' autor do livro "Homosexuels Catholiques - Sortir de l'Impasse" (Editions de l'Atelier, 2012).

O livro Homosexuels catholiques, sortir de l'impasse é constelado por seus testemunhos pessoais. Todos os nomes, por razões de privacidade, foram alterados. Mas esses testemunhos não podem substituir a discussão e, por si só, nunca constituem a "verdade". No entanto, devemos ouvi-los para comparar as nossas ideias com a realidade, através do filtro de suas experiências. Eles revelam assim os seus rostos humanos, porque são pessoas que não podem ser encerradas em um único aspecto de sua identidade. Algumas alcançaram uma vida harmoniosa e aceitaram a sua homossexualidade com alegria, enquanto outras, divididas entre a culpa e a libertação, debatem-se ainda nos meandros de suas vidas. Quanto aos pais, muitas vezes estão desorientados, isolados, quando descobrem que um de seus filhos é homossexual.

Apesar do progresso considerável ao longo dos últimos trinta anos, especialmente na França com a instituição, em 1999, do PACS (Pacto Civil de Solidariedade) e também pelo casamento civil, em 2013, mesmo assim a homofobia persiste e não ajuda a pessoa homossexual a desenvolver a sua autoestima. Aliás, em alguns círculos católicos, o reconhecimento das uniões homossexuais trouxe à tona a homofobia latente, por meio de ações violentas cada vez mais frequentes, com demonstrações durante as quais são repetidos slogans como "gays para a fogueira" que causaram indignação na consciência de muitos cristãos.

Devemos tomar ciência dessa visão negativa e excludente, termos que na realidade são bastante fracos para definir o que acontece na realidade. Por isso, com um grande número de católicos atentos às instâncias das pessoas homossexuais, em 2000, junto com um amigo padre e algumas outras pessoas, criamos o grupo Réflexion et Partage que hoje tornou-se uma associação sem fim lucrativo. Nosso objetivo é contribuir para a reflexão das comunidades cristãs para ajudá-las a abrir-se e acolher as pessoas homossexuais, para garantir que elas possam viver plenamente a realidade de sua fé. Muitas vezes são pessoas inseridas em movimentos ou que desempenham tarefas na vida das paróquias, portanto um novo olhar na sua comunidade lhe permitiria viver a fé de uma forma mais serena, e ocupar na comunidade o lugar que lhe cabe.

Para divulgar a nossa associação e as atividades que estamos realizando, em abril de 2000, reunimos em um pequeno volume treze depoimentos escritos por pessoas cristãs e homossexuais e seus pais. As reações a esse livro têm sido muito positivas, especialmente aquela de um teólogo de Nantes que nos escreveu: "Fiquei impressionado pela verdade que emana desses testemunhos, pela dignidade encontrada ou adquirida, muitas vezes apaixonadamente, uma dignidade que tem o sabor da vida e da ressurreição, desses testemunhos não só trazem esperança, mas também a experiência [...]". Na verdade, esses testemunhos permitem entender como é possível ser homossexual e viver concretamente a própria fé cristã. Esse texto pretende ser uma ajuda adicional nessa reflexão. O seu objetivo é duplo: queremos também ajudar as pessoas a viver a sua homossexualidade e sua fé cristã, mas também trazer um contributo para a criação de uma pastoral inclusiva para as pessoas homossexuais. Já em 1977, mons. L'Heureux, bispo de Perpignan, abordando a questão da homossexualidade em um artigo no jornal católico La Croix, havia definida nos seguintes termos a missão da Igreja: “É absolutamente necessário, neste momento, chegar a uma definição, eu diria, de uma pastoral que possa ajudar os homossexuais a acessar mais livremente os sacramentos, a mergulhar mais profundamente na Palavra de Deus, a reunir-se em grupos, entre si e também com outros, para refletir sobre as necessidades de sua vida cristã, e assim, finalmente, não se culpar pelos atos que eles seriam levados a fazer, e que nos parecem anormais em relação à nossa tradição cristã". (3)

Também o teólogo moralista padre Xavier Thevenot (1), já mais de vinte anos atrás, ressaltava a necessidade urgente "é preciso saber que a prova desta condição psíquica e social, além de sérios riscos, inclui também a possibilidade de um encontro autêntico de Deus. Sem cair na armadilha de dar conselhos não coerentes com sua maneira de ser, faremos o possível para ajudar esses cristãos a encontrar ou a reencontrar uma boa imagem de si mesmos, um verdadeiro sentido de Deus, uma solidariedade eclesial".

Muitos preconceitos ainda estão profundamente enraizados em nossas representações mentais, muitas vezes devido à falta de conhecimento e de informações sobre a vivência das pessoas. A reflexão do Magistério da Igreja por muitos anos manteve-se cristalizado em afirmações que não levam em conta nem as pesquisas contemporâneas na área das ciências humanas, nem os progressos feitos pela exegese, e muito menos as multíplices contribuições oferecidas por muitos teólogos moralistas. Nesse campo, a Igreja tem um dever a cumprir: "Tem a missão de acolher e orientar com grande responsabilidade moral as pessoas que devem de viver a sua homossexualidade". (2)

Então, em primeiro lugar, quero refletir sobre o tema da homossexualidade do ponto de vista antropológico, para tentar compreender melhor essa realidade: gênese, identidade, escolhas, recusas, alteridade. Em um segundo momento, partindo das vivências de alguns homossexuais católicos, tentarei evidenciar como as afirmações do Magistério da Igreja Católica, longe de acolhê-los e orientá-los, contribuem apenas para causar sofrimento a essas pessoas, provocando profundos conflitos internos e obrigando-as a manter o silêncio sobre a sua maneira de ser. Finalmente, quero sugerir alguns caminhos possíveis no campo pastoral, a fim de sair deste beco sem saída.

“A Igreja tem uma grande responsabilidade. Deveríamos permitir que as pessoas pudessem falar tudo. Em vez disso, pedimos a pessoas que não escolheram a própria diversidade que se considerem, em primeira instância, como pecadoras. Na melhor das hipóteses, mesmo que se aceite como elas são, se pede que se abstenham de qualquer relacionamento físico, privando-as assim do direito fundamental de desenvolver plenamente a sua personalidade. Acolher essas realidades e acompanhá-las com uma palavra ética são, em minha opinião, o único meio de sair do impasse" (3).

Entre a reivindicação militante, à qual certo número de pessoas homossexuais não se sente disposta a participar, e o pesado silêncio gerado pela culpa e vergonha, que procuram superar, felizmente é possível abrir percursos diferentes para ajudar cada um a viver corajosamente na dignidade, acolhendo e respeitando aquele mistério único que é cada pessoa, porque "a glória de Deus é o homem que vive" (4).
_________

Notas:

(1) Xavier Thevenot, "L’action pastoral auprès des homosexuels" Lumière et Vie, No. 147, 1980.

(2) Francis Deniau, Un évêque en toute bonne foi, Paris , Fayard, 2011, p. 120.

(3) Père Benneteau, in Frédéric Martel (sous la dir.), Le Rose et le Noir, les homosexuels en France depuis 1968, Paris, Le Seuil, 1996, p. 291.

(4) Saint Irenee de Lyon, Contre les Heresies (188). Dénonciation et refutation de la gnose au nom menteur, Paris, Le Cerf, Livre IV, Coll. Sources chrétiennes de 1965.

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