Madalena, emancipada pelo Espírito. Artigo de Antonella Lumini

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22 Julho 2016

"O mandato da apóstola dos apóstolos consiste em testemunhar a potência da ressurreição em curso que atua para transformar, que torna a humanidade partícipe da vida do Ressuscitado. Ela chama a se abrir sem reservas ao amor de Jesus, ao ardor do Seu espírito que suscita à nova vida. Esse é o anúncio da apóstola que, particularmente as mulheres, dentro da Igreja, são chamadas a captar e assumir. Maria Madalena é a mulher emancipada do Espírito, liberta porque foi libertada interiormente. Ela expressa o deslocamento que investe sobre a carne e o sangue."

A opinião é da filósofa e eremita urbana leiga italiana Antonella Lumini, em artigo publicado no jornal L'Osservatore Romano, 21-07-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O decreto emitido no dia 3 de junho por desejo do Papa Francisco, com o qual a celebração litúrgica de Santa Maria Madalena foi elevada à categoria de festa, assim como a dos apóstolos, está destinada a marcar, sem dúvida, uma reviravolta. A "apóstola dos apóstolos", como São Tomás de Aquino a define, foi oficialmente posta como "paradigma da tarefa das mulheres na Igreja". Como delinear isso à luz daquilo que emerge da sua figura?

O culto dirigido a Maria Madalena iniciou no Oriente, com a comemoração das miróforas, as mulheres que levam os aromas para a unção do corpo de Jesus deposto no sepulcro. No Ocidente, ele se difundiu na França, onde a lenda a quis, e onde se encontram as basílicas mais antigas dedicadas a ela, ainda hoje importantes metas de peregrinação, a basílica de Vézelay e a de Saint-Maximin-la-Sainte-Baume. Ela sempre foi objeto de grande devoção popular, especialmente por parte das mulheres que nela se reconheceram.

Maria Madalena é a mulher que se sente olhada profundamente, para além das aparências. O encontro com o Mestre ocorre em um plano que investe sobre a sua parte mais autêntica, que permaneceu na sombra, mas logo foi suscitada assim que foi iluminada pelo olhar d’Ele, elevada a outro nível, o das bodas místicas em que a alma é vivificada pelo Espírito. Cada elemento da narrativa remete a esse plano, que, porém, não é desencarnado, mas ativo justamente na carne e na psique, transformando a humanidade.

A santa, por tradição identificada também Maria de Magdala e na pecadora (cf. Lucas 7, 37-38), traz à tona múltiplos valores femininos que o Evangelho valoriza e torna irradiantes sobre o mundo. O Senhor e Mestre não fica perturbado com ela, nem pelas outras mulheres, porque é completamente livre para amá-las e acompanhá-las até a Sua ressurreição. Ou, melhor, é apoiado, seguido por toda a parte, até a cruz.

"Então Maria Madalena foi e anunciou aos discípulos: ‘Eu vi o Senhor’. E contou o que Jesus tinha dito" (João 20, 18). Ela é a primeira a ver o Ressuscitado e a levar o Seu anúncio aos apóstolos. O evangelista João fundamenta os relatos da ressurreição justamente sobre o ver: "Os discípulos se alegraram por ver o Senhor" (João 20, 20), "Vimos o Senhor!" (João 20, 25), e sobre Maria Madalena diz: "Maria virou-se e viu Jesus de pé; mas não sabia que era Jesus" (João 20, 14).

Nada é posto como extraordinário, mas em um cenário aberto onde tudo parece natural: é o ver do coração. Por outro lado, nos sinóticos, a ressurreição está sempre associada à Galileia: "Lá vocês o verão" (Mateus 28, 7). A Galileia é o lugar da experiência vivida com o Mestre. Para continuar a vê-Lo, é necessário voltar àquilo que se sedimentou no coração através do contato vivo com Ele. Experiência de vida eterna, ressuscitada. O próprio Jesus diz: "Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em mim, mesmo que morra, viverá" (João 11, 25). A Sua vida encarnada, portanto, já é ressurreição.

Maria vê o Ressuscitado porque participa da força da ressurreição, suscitada à nova vida pelo toque do amor puro que penetra e arde. Dissolvida da força da morte, da escuridão espiritual. Ela, a mulher "da qual saíram sete demônios" (Lucas 8, 2), talvez também a pecadora, abre-se profundamente ao divino amor, deixando-O agir dentro de si mesma, a ponto de ser completamente regenerada por Ele. Os "sete demônios", reconectando-se ao monaquismo das origens, poderiam ser os sete pecados capitais, isto é, o conjunto das potências psíquicas que dominam a alma, e que os monges chamavam de demônios. Além disso, a ação taumatúrgica de Jesus liberta e cura dessas forças que produzem doenças físicas, psíquicas e espirituais.

Se Maria, mãe de Jesus, encarna a pureza da origem, Maria Madalena encarna o esforço da transformação que investe sobre a natureza humana quando é alcançada pelo toque do divino amor. A iconografia que a retrata penitente ressalta isso. Tendo recebido misericórdia, ela se torna modelo de misericórdia, toma sobre si o peso da humanidade. Tendo sido libertada de um imenso sofrimento, ela o reconhece onde quer que seja, sofre-o, aceita assumi-lo. Isso a une ao amado de um amor sublime, coloca-a em profunda comunhão com ele. A sua resposta sem reservas aumenta nela a intensidade de amor, abrindo-a universalmente à sabedoria do coração, à compaixão.

Sentindo-se curada, torna-se testemunha de um amor infinito, ao mesmo tempo imagem da luta interior que o Espírito realiza profundamente para abalar e libertar. É justamente no texto joanino que se torna explícita a passagem: "Jesus lhe disse: ‘Não me segure. Mas vá dizer aos meus irmãos: Subo para junto do meu Pai, que é Pai de vocês, do meu Deus, que é o Deus de vocês’" (João 20, 16). Na conversa com Jesus ressuscitado, aflora a sublimidade de um amor que supera a dimensão natural.

Maria, recém-chamada pelo nome, reconhece o Mestre, naquele instante percebe a indissolubilidade da comunhão de amor que une para sempre sem ligar. O fato de vê-lo vivo torna-se para ela extraordinária consolação, mas, ao mesmo tempo, impõe-lhe uma erradicação da identificação com os limites espaciais e temporais, insta-a a captar a mudança de perspectiva que eleva em direção a Ele, ponto de atração de toda a humanidade.

O mandato da apóstola dos apóstolos, portanto, consiste em testemunhar a potência da ressurreição em curso que atua para transformar, que torna a humanidade partícipe da vida do Ressuscitado. Ela chama a se abrir sem reservas ao amor de Jesus, ao ardor do Seu espírito que suscita à nova vida, como afirma o texto joanino: "Ninguém pode entrar no Reino de Deus se não nasce da água e do Espírito" (João 3, 5). A ressurreição da carne é o processo em curso que purifica e santifica a vida encarnada naqueles que acreditam e se abrem à luz do Ressuscitado.

Esse é o anúncio da apóstola que, particularmente as mulheres, dentro da Igreja, são chamadas a captar e assumir. Maria Madalena é a mulher emancipada do Espírito, liberta porque foi libertada interiormente. Ela expressa o deslocamento que investe sobre a carne e o sangue. Testemunha o itinerário de transformação pelo qual, como afirma São Paulo, "é semeado corpo animal (sòma psychikòn), mas ressuscita corpo espiritual (sòma pneumatikòn)" (1Coríntios 15, 44). Itinerário que envolve, em primeiro lugar, a transformação do eros.

É, portanto, a humanidade vivificada pelo Espírito e plena de piedade para testemunhar a ressurreição. A apóstola anuncia que Jesus ressuscitou através da própria vida, do próprio amor não mais sedutor, possessivo, mas límpido, luminoso, compassivo. Essa é a passagem-chave que abre para a verdadeira piedade, caso contrário, o anúncio se torna representação vazia daquilo que deveria ser, mas que não é.

Focar o valor do corpo, da vida terrena, como instrumentos vivos da ação salvífica e santificante é, ao mesmo tempo, reavaliar o feminino, dentro da Igreja sempre associado ao corpo, ao pecado e mantido à margem. A força da ressurreição em curso passa pelo aqui e agora, onde eterno e tempo convergem.

As mulheres, portanto, são solicitadas a reconhecer e a assumir o traçado que se delineia através da vida da apóstola para encarná-lo. Onde não há verdadeiro amor entre homens e mulheres, a humanidade se torna estéril. Assim como está acontecendo no mundo, está acontecendo na Igreja: poucos nascimentos, poucas vocações.

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