O drama de Maria Madalena ilumina: o perdão de Deus limpa a ardósia

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19 Abril 2017

"Se nos arrependemos verdadeiramente, Deus nos perdoará também fora do confessionário", diz John Wijngaards, teólogo e escritor, professor emérito do Instituto Missionário de Londres e fundador do Instituto Wijngaards para a Pesquisa Católica, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 14-04-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Continuo encontrando pessoas com profundas cicatrizes em suas consciências, gerando feridas por culpa que não conseguem suprimir completamente. Parece que não conseguem encontrar o perdão. O Papa Francisco frequentemente recomenda que busquemos a reconciliação. Somente o perdão de Deus pode causar a verdadeira cura interior e fazer-nos ascender a uma nova vida através do abraço da infinita misericórdia e do amor de Deus, ele nos diz. Mas será que aceitaremos o perdão?

Durante minhas pesquisas sobre Maria Madalena, minha atenção voltou-se recentemente a um minidrama medieval holandês intitulado "Sunte Maria Magdalena Bekeringhe" ou "A conversão de Maria Madalena". A obra pertence a uma série de leituras dramatizadas, leituras com um narrador e personagens-chave que ainda usamos ao ler a paixão durante a Semana Santa. Essas leituras prepararam o caminho para as peças de mistério que se seguem em larga escala mais adiante.

A pequena peça em questão era muito popular e foi preservada em quatro variações para ser dramatizada em igrejas durante a Quaresma e a Páscoa. Maria Madalena era considerada o modelo perfeito de pecador que atingiu o perdão através do arrependimento e da penitência. É uma imagem de Maria Madalena que naturalmente não me atrai.

Pregadora ou pecadora?

Madalena não era vista como pecadora nos primeiros séculos depois de Cristo. Pelo contrário, ela era aclamada como amiga íntima de Jesus, uma das primeiras entre os discípulos que se sentou a seus pés enquanto sua irmã Marta preparava o jantar (Lucas 10: 28-42). Ela estava debaixo da cruz com a mãe de Jesus e Maria Salomé. Ela informou aos apóstolos que o túmulo estava vazio e, depois disso, foi a primeira pessoa a encontrar Jesus ressuscitado (João 20: 1-18).

O Evangelho apócrifo de Maria do século II relata que Maria Madalena desempenhou um papel de liderança na salvação da fé dos apóstolos após a crucificação. Ela os convenceu de que Jesus havia realmente ressuscitado. Isso lhe valeu, na tradição primitiva, o título de "Apóstola dos Apóstolos", um título usado por Francisco em junho passado, ao levar o memorial de Santa Maria Madalena à dignidade de uma festa.

A lenda antiga descreve como ela velejou da Palestina a Marselha, então chamada Massilia, de onde começou a espalhar a fé no sul da França. Uma série de centros de peregrinação por toda a Provença e Languedoc registra seu progresso. Sua história foi documentada em afrescos nas paredes das igrejas, em registros ilustrados em pergaminhos, vitrais nas muitas igrejas dedicadas a ela. Em todas elas, a Maria Madalena evangelizadora figurava suprema. Em tempos em que as mulheres eram proibidas de pregar, Maria Madalena era a contra-heroína, a mulher representada dirigindo-se a grandes multidões em praças da aldeia e palestrando aos fiéis no púlpito. Mas esse papel teve que competir com uma imagem sóbria, a de penitente exemplar.

Os padres latinos Santo Agostinho e São Gregório Magno enfatizaram que sete demônios tinham sido expulsos de "Maria, chamada Madalena" (Lucas 8: 2). Eles não perceberam que nos tempos evangélicos os demônios eram espíritos que infligiam doenças, e não demônios que atormentavam uma pessoa perversa. Maria tinha sido possuída pelo mal, eles pensaram. Então eles a uniram com a mulher pecadora que chorou aos pés de Jesus na casa de Simão, o fariseu (Lucas 7: 36-50). Sua interpretação ganhou terreno. A detalhada "vida de Maria" na influente medieval Legenda Aurea canta seu pecado e arrependimento.

A necessidade de penitência foi sentida profundamente na Idade Média. A morte reinava suprema naquela época, era da lepra e da praga, de incursões devastadoras e guerras violentas, de inundações imprevisíveis e de fome. E o pecado foi apontado como a causa de tudo. Os padres castigaram seus rebanhos prevendo castigos severos. Milhares aderiram a ordens monásticas estritas. Os flagelantes vagavam de cidade em cidade, açoitando-se uns aos outros com flagelos. O hino ameaçador do dia de ira de Deus, o "Dies Irae", foi cantado em todos os funerais. Protestos atrozes de indignidade foram introduzidos em todas as fases da Eucaristia. É neste contexto que devemos colocar o jogo do mistério da conversão de Maria Madalena.

Em uma luta como a minha pelos direitos das mulheres na igreja, como eu poderia confiar em um drama imaginado na Idade Média, misógina e obsessiva pelo pecado? Até mesmo a ficção nos traz profundos insights.

Ressurreição através do encontro com Jesus

Em Jerusalém, vivia um cavaleiro de descendência real chamado Lázaro, dizem. Ele teve duas filhas: Marta, que viveu uma vida exemplar gerenciando a casa, e Maria, que entregou-se a prazeres terrestres.

"Minha querida irmã", dizia Maria, "você não concorda que eu sou bonita? Então por que não me rodear pelos luxos do mundo e pela atenção dos rapazes? Com um coração feliz, desfrutarei da riqueza do meu pai e procurarei satisfação na indulgência!"

A chegada de Jesus de Nazaré à cidade mudou tudo. Para resumir, através da mensagem e da personalidade de Jesus, Maria passou a enxergar o sentido. Ela sentiu um profundo remorso.

"Por que eu estava tão ansiosa para viver, eu que mereci a morte eterna! Que satisfação podem me dar todos os prazeres mundanos se serei entregue às dores do inferno? Prazer, por que me seduziste? Como eu poderia deixar você destruir a honra da minha virgindade! É por sua causa que, em vez de ser virgem, sou conhecida como prostituta!"

A história conta então como Lázaro traz Jesus para sua casa. Maria tem seu primeiro encontro com Jesus. Ele olha para ela, seus olhos gentis penetram sua alma. No entanto, Maria recua com sentimentos de culpa. Ela corre para o quarto, fecha a porta e chora. O narrador dirige-se ao público: "Ó povo pecador, se você tivesse visto naquela época o remorso e as lágrimas daquela mulher, também teria se convertido como ela. E mesmo que tivesse um coração duro como uma rocha inquebrável, ele teria ficado macio como cera!"

No dia seguinte, Simão, o fariseu, um dos vizinhos de Lázaro, convidou Jesus para uma refeição. Enquanto estava lá, Jesus orava por Maria. Por um impulso espiritual, Maria saiu do quarto e entrou na casa de Simão. Ajoelhou-se diante de Jesus, beijou-lhe os pés e lavou-os com suas lágrimas. Ela secou os pés de Jesus com seu cabelo e os ungiu com unguento. Jesus falou amavelmente a Maria, dizendo: "Seus pecados estão perdoados!"

Este é o clímax da história, ou é o que você acredita que seria, mas não de acordo com o professor pastoral que criou o jogo de mistério. Maria foi para casa triste e deprimida. Ela não acreditava que havia sido verdadeiramente perdoada.

Perdão é perdão

Ainda cheia de remorso, Maria voltou para seu quarto. Ela continuou torcendo as mãos, puxando os cabelos, chorando e espancando as bochechas. Felizmente para ela, a mãe de Jesus, Maria, também estava na cidade. Ela ouviu falar de Maria Madalena e resolveu confortá-la, mas Maria Madalena estava petrificada. A mãe de Jesus não era a mais pura das santas, sem pecados, a imaculada?

Ela gritou: "Ó santíssima virgem, mantenha-se longe de mim. Não é certo que eu, a maior pecadora do mundo, que tenho o pecado em meu corpo e estou suja e impura por dentro, esteja perto da virgem imaculada".

Mas a mãe de Jesus abraçou-a e beijou-a. "Jesus não te perdoou?", ela perguntou.

"Sim", respondeu Maria Madalena.

"Então o que há de errado?", continuou a mãe de Jesus. "A completa limpeza de Deus de seus pecados passados é um presente tão generoso quanto ele ter me preservado como imaculada desde a minha concepção."

Este é o dom libertador de Deus em ambos os casos, libertando ambas do pecado - igualmente. Se realmente nos arrependemos, o amor de Deus anula os pecados passados. O perdão é o que Paulo chama de nova criação e nos torna imaculados de novo.

Para muitos católicos, a confissão saiu de moda. Compreensivelmente, talvez, considerando a frequência infrutífera com que nos foi infligida no passado. Mas isso também tem um custo. Se nos arrependemos verdadeiramente, Deus nos perdoará também fora do confessionário.

Mas o sacramento acrescenta uma dimensão. Quando ferimos outra pessoa, normalmente não podemos presumir que fomos perdoados, somente a parte ferida pode oferecer o perdão como presente. Se o aceitarmos, a cura acontece. Admitir a culpa frente a frente na confissão e ter a absolvição sacerdotal transcende a esfera subjetiva. É Cristo que nos dá paz: "Seus pecados foram perdoados!" Mas se Deus nos absolve na nossa oração interior ou através do sacramento, não há espaço para a demonstração de culpa.

A conversão de Maria Madalena não se completou até que ela aceitasse o amor de Deus com todo o coração. A peça diz que depois das palavras de Maria ela se levantou e dançou com alegria. Ela conseguiu se livrar de sua culpa, levantar do túmulo de seu passado sombrio. O perdão limpa a ardósia. Podemos começar uma nova vida.

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