Maria Madalena, a primeira mensageira

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22 Julho 2019

"Apóstola dos apóstolos" para São Tomás, na tradição ocidental a sua figura resumiu em si vários episódios evangélicos. O estudo da biblista Landrivon.

O cometário é de Roberto Righetto, jornalista, publicado por Avvenire, 19-07-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Tirem as mãos de Maria Madalena”: foi assim que nos intitulamos um artigo de Gianfranco Ravasi nestas páginas alguns anos atrás. Era a época do lançamento do Código Da Vinci de Dan Brown, com suas fantasias sobre a personagem feminina dos Evangelhos e sobre sua relação com Jesus. Mas além de desmontar os equívocos sobre Maria de Magdala, bem como as sugestões gnósticas dos textos apócrifos, o biblista agora cardeal delineava os contornos de sua figura, que erroneamente muitos Padres da Igreja identificavam com a prostituta arrependida que unge os pés de Cristo com óleo perfumado e os seca com os cabelos. O episódio é narrado por Lucas no capítulo 7 e naquele imediatamente seguinte, entre as discípulas do Messias é citada Maria de Magdala "de quem saíram sete demônios". Disso surge a confusão. Depois devem ser lembrados os episódios narrados por Marcos e Mateus sobre a mulher anônima que na casa de Simão, o leproso em Betânia, derrama na cabeça de Jesus o óleo aromático contido um vaso de alabastro e, finalmente, o análogo de Maria de Betânia, a irmã de Marta e de Lázaro, que sempre em Lucas, senta-se aos pés do Salvador também fazendo o gesto da unção.

Sylvaine Landrivon 
Maria Maddalena La fine della notte
Queriniana
P. 192. Euro 16,00

Pois bem, uma ampla tradição teológica acabou reunindo todas essas figuras femininas em uma pessoa, Maria Madalena, grande pecadora redimida por Jesus. Condicionando também de forma decisiva o mundo da arte e da literatura, que a retratou com o muitas vezes com o corpo despido e os cabelos soltos em uma atitude de penitência (como, por exemplo, na famosa pintura de Georges de la Tour exposta no Metropolitan Museum de Nova York) ou nas obras de Pasternak e Achmatova, Jacob e Claudel, até Rebora e Saramago. A uma revisão deste modelo consolidado também nas mentes de tantos fiéis é o que convida um ensaio da teóloga francesa Sylvaine Landrivon, professora da Universidade Católica de Lyon, que define desde as primeiras páginas Maria de Magdala, aldeia nas margens ocidentais do Lago de Tiberíades, “uma personagem incômoda que não deixou de despertar suspeitas e questionamentos”, muitas vezes transformada em símbolo da imoralidade capaz de sair da escuridão com uma vida de penitência e se sublimar no impulso místico. A autora destaca perfeitamente a diferente avaliação expressa pela tradição ocidental, inclinada a reconhecer uma única mulher nos escritos dos evangelistas, em relação àquela oriental, que acolheu sem confundi-las a presença de personagens femininas diferentes. Os Padres Gregos não estabelecem qualquer relação entre Maria de Magdala e as mulheres protagonistas das várias cenas de unção. Assim, por exemplo, Severo de Antioquia: “Haviam três mulheres distintas pela qualidades pessoais, pelo modo de agir, pela diversidade do tempo”. Da mesma forma, Tertuliano, Clemente Alexandrino, João Crisóstomo e Romano o Melodista evitam qualquer sobreposição. Não assim Agostinho, segundo o qual estamos lidando com "a mesma pecadora".

Mas no Ocidente, será principalmente Gregório Magno que transformará essas mulheres do Evangelho em uma e mesma pessoa, agora chamada Maria Madalena, e determinar o culto de santa pecadora, considerada padroeira dos penitentes. "Fortalecidos por esta mensagem poderosa - escreve Landrivon - os séculos seguintes não mais considerarão esta discípula de Jesus de acordo com critérios diferentes daqueles de uma mulher de má reputação, tocada pelo remorso, pela desolação e pelo arrependimento". Sabe-se que o Papa Francisco, em 2016, elevou ao grau de festa a celebração de Santa Maria Madalena (que até então tinha sido apenas "memória"), destacando a função peculiar de Maria de Magdala como primeira testemunha que viu o Ressuscitado e primeira mensageira que anunciou aos apóstolos a ressurreição do Senhor. E é justamente esse papel essencial que, segundo a autora, no cristianismo ocidental acabou sendo colocado em segundo plano. Todos os evangelistas concordam em apontar em primeiro lugar a sua presença no momento da crucificação e do sepultamento de Cristo.

Tudo depois culmina no famoso encontro entre Cristo e Maria de Magdala diante do túmulo contado pelo Evangelho de João, quando a mulher inicialmente confundiu-o com o zelador do jardim, até o momento em que Jesus se faz reconhecer e a famosa cena do "Noli me tangere”, tantas vezes ilustrada pela iconografia. Mas Gregório e muitos outros privilegiam a mistura de luxúria e lágrimas ao apresentar a figura: "O que esses sete demônios significam - escreve na Homilia XXIII – senão todos os vícios?"

Na realidade, como Ravasi apontou, "o demônio na linguagem evangélica não é apenas a raiz de um mal moral, mas também físico que pode permear uma pessoa. O ‘sete’, inclusive, é o número simbólico da plenitude. Não podemos, portanto, saber muito sobre o grave mal, moral ou psíquico ou físico, que atingia Maria e que Jesus havia eliminado". Os demônios expulsos de seu corpo não representam necessariamente os vícios, e luxúria em particular.

Sobre Maria de Magdala, devemos antes destacar a especificidade como primeira testemunha da Ressurreição: por que Jesus apareceu primeiro a ela e não aos onze? Até mesmo Tomás de Aquino enfatizou três de seus privilégios: "Primeiro, o privilégio dos profetas, porque ela mereceu ver os anjos. Segundo, a sublimidade dos anjos, devido ao fato de que ela viu Cristo, em quem os anjos desejam fixar o olhar. Terceiro, a tarefa dos apóstolos; aliás, ela foi feita apóstola dos apóstolos, porque lhe foi confiada a tarefa de anunciar aos discípulos a ressurreição do Senhor". A denominação de "apóstola dos apóstolos" remonta a Hipólito de Roma, mas raramente foi retomada e desenvolvida. Pode ser encontrada precisamente no Aquinate e nas recentes expressões de alguns pontífices, entre os quais Bento XVI e Francisco. "Como parece nos convidar a fazer o Papa Francisco - conclui a autora do ensaio - através da nova liturgia reservada a Maria Madalena, talvez tenha chegada a hora tanto de reconhecer melhor o valor desse testemunho feminino, tão próximo da revelação, como de conceder em base a tal fundamento às mulheres outras funções na Igreja”.

Sem propor o sacerdócio feminino, Landrivon sugere abertamente novas valorizações para a mulher, mas acima de tudo, uma nova abordagem. Um pouco como fez o próprio Papa na cúpula sobre a pedofilia no Vaticano em fevereiro passado, depois de ouvir a intervenção de uma relatora: “Todos nós falamos sobre a Igreja, desta vez foi a própria Igreja que falou. É o gênio feminino que se reflete na Igreja que é mulher. Não se trata de dar mais funções à mulher na Igreja - sim, isso é bom, mas não resolve o problema - é uma questão de integrar a mulher como figura da Igreja no nosso pensamento”. Maria de Magdala, discípula e amiga de Jesus, que foi a primeira a vê-lo ressuscitado, pode ajudar-nos nesta redescoberta contra o clericalismo e o machismo que prende o catolicismo

 

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