Marta de Betânia modelo de serviço

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07 Junho 2017

“Mesmo que Marta e Maria tivessem permanecido na memória cristã como donas-de-casa de uma comunidade doméstica, a partir dos textos emerge que apenas os homens foram considerados tanto para a diaconia da Palavra como para aquela das mesas. Ao contrário, aquelas que "servem" são escolhidas como modelo para as tarefas de direção dos homens, em uma inversão do termo "diaconia" a partir do modelo do Mestre, que é aquele que serve”, escreve Elisabeth Parmentier, teóloga e pastora da Igreja Luterana, em artigo publicado por L’Osservatore Romano, no caderno especial dedicado às mulheres, junho, 2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Elisabeth Parmentier nasceu há 55 anos na França e foi por dezenove anos docente na Faculdade de Teologia Protestante da Universidade de Strasbourg. Desde 2015 leciona na mesma faculdade da universidade de Genebra. Em 1988 foi ordenada pastora da Igreja Luterana da Alsácia. De 2001 a 2006 foi presidente da comunhão das Igrejas protestantes na Europa.

Eis o artigo.

Marta, Maria e Lázaro de Betânia: parece que esse irmão e essas irmãs fossem bem conhecidos dos primeiros cristãos, já que o Evangelho de João afirma: "Jesus amava a Marta, e a sua irmã e a Lázaro" (11, 5). Os três aparecem em João (11, 1-46), no momento da ressurreição de Lázaro; as duas irmãs recebem a visita de Jesus em Lucas (10, 38-42); Maria sozinha unge os pés de Jesus em João (12, I-8), uma unção atribuída, em Mateus e Marcos, a uma mulher sem nome, não em Betânia mas na casa de "Simão, o leproso".

Este artigo concentra-se sobre Marta, pouco amada por muitas mulheres, por ter sido identificada como um bom modelo de dona-de-casa! Por que aconteceu isso, visto que à morte de Lázaro, de acordo com João (11, 1-45), foi ela a verdadeira interlocutora de Jesus, aquela que o relembra de sua responsabilidade de amigo e salvador e o reconhece como Cristo, Filho de Deus (11, 27), antes de chamar Maria? Como é que a tradição posterior acabou confinado-a a servir refeições em Lucas (10: 38-42), muitas vezes subestimando a sua contribuição?

Com a minha colega Pierrette Daviau, do Quebec, examinei alguns comentários para averiguar como esse texto foi recebido ao longo dos séculos pelo cristianismo. O que acontece entre Jesus e as duas irmãs de acordo com essa passagem do Evangelho (Lucas 10: 38-42)?

Caminhando Jesus e os seus discípulos, chegaram a um povoado, onde certa mulher chamada Marta o recebeu em sua casa. Maria, sua irmã, ficou sentada aos pés do Senhor, ouvindo-lhe a palavra. Marta, porém, estava ocupada com muito serviço. E, aproximando-se dele, perguntou: "Senhor, não te importas que minha irmã tenha me deixado sozinha com o serviço? Dize-lhe que me ajude!" Respondeu o Senhor: "Marta! Marta! Você está preocupada e inquieta com muitas coisas; todavia apenas uma é necessária. Maria escolheu a boa parte, e esta não lhe será tirada".

Lucas é o único evangelista a contar essa visita de Jesus à casa das irmãs que parece conhecer bem. A sua resposta pode ser considerada inconveniente, porque coloca Marta de lado em vez de incentivá-la, e apresenta Maria, que não ajuda a irmã, como modelo! E quanto à dedicação de Marta?

Nos comentários dos Padres, da aurora da Igreja cristã até o Iluminismo, o episódio foi usado para ilustrar a vida cristã, afirmando a superioridade da contemplação sobre a ação. É Orígenes, em sua exegese focada na alegoria, que propõe uma interpretação destinada a um sucesso duradouro: as duas mulheres representam a distinção entre ação e contemplação, com a valorização da última. Em uma segunda interpretação, Orígenes afirma que Marta corresponde aos cristãos iniciantes que acolhem a palavra de Deus de maneira mais "corpórea" (somatikòteron), enquanto Maria a recebe de forma "espiritual" (pneumatikòs).

Em uma terceira interpretação, associa Marta à "Sinagoga" e Maria, a "Igreja vinda das nações, que escolheu a melhor parte da lei espiritual, a que não lhe será tirada". Santo Agostinho, o Padre mais influente da Igreja ocidental, vê nas duas mulheres a "vida deste mundo" e a "vida do mundo que virá", a melhor parte consagrada aos valores eternos. Essa parte boa ou melhor teria alimentado o ideal monástico da vida contemplativa.

Exceto por Meister Eckhart (Eckhart von Hochheim, 1260-1327), místico renano, que empreendeu um caminho original. Para ele, é Marta que vive a espiritualidade mais evoluída, livre, perto de Deus e do próximo, fecunda. Ela já está ancorada na fé e sabe por experiência que é preciso superar os sentimentos na união com Deus, enquanto Maria ainda tem que aprendê-lo, ela que está imersa em Deus e aspira a essas sensações. O pregador persegue uma meta pragmática: naquele sermão destinado a algumas religiosas polemiza contra o esquecimento do trabalho concreto e diário!

Martinho Lutero (1483-1546) recusou-se a identificar Maria com o ideal monástico; ele ressaltou que a única coisa necessária é a escuta da Palavra, porque não se trata de imitar Cristo, mas de se ligar apenas a ele. A originalidade de sua interpretação é que Marta não é considerada segunda, porque representa Jesus Cristo na sua humanidade, no seu reino temporário e terreno. Lá onde se preferiria estar do lado (divino) de Maria, Marta lembra que o caminho para Deus não pode prescindir da humanidade de Jesus.

João Calvino (1509-1564) teve a preocupação de reabilitar a vida no mundo e, portanto, do trabalho doméstico de Marta. Da mesma forma que Lutero, ele era contrário à vida monástica que corre o risco de criar uma teologia dos méritos espirituais. Embora ressaltando o valor do trabalho, criticou o excesso de Marta e o fato de que sua "ocupação" a impede de beneficiar-se da presença de Jesus.

Esses poucos exemplos não podem ser explorados neste âmbito restrito, mas têm em comum o fato de considerar as irmãs como tipologias. Se ninguém condenou Marta, todos (exceto Eckhart) valorizaram a contemplação e a escuta da Palavra.

Mais inovadoras foram as leituras das teólogas feministas que, após os anos 1970, valeram-se da exegese histórica e crítica para examinar o texto grego e eventuais deturpações ou omissões da tradição. A interpretação alegórica foi substituída pela indagação sobre o papel das mulheres reais Marta e Maria e, através deles, das mulheres do cristianismo primitivo.

Elisabeth Schüssler Fiorenza, teóloga católica, a partir de 1983 trabalhou em uma reconstrução histórica mostrando os conflitos dentro das primeiras comunidades. Em sua opinião, os dois "tipos" não são a ativa e a contemplativa, mas duas funções: a "diaconia" e a "escuta da Palavra". O verbo grego diakonèin "servir", é traduzido corretamente, mas Marta não serve uma refeição! Marta garante o serviço eclesial, a diaconia. Segundo a autora, Marta é responsável pelo serviço da comunidade cristã e de fato reclama que Maria deixa-a sozinha com essa responsabilidade (e não que ela não a ajuda na cozinha!)

A hipótese de Schüssler Fiorenza é que na época em que aquele evangelho foi redigido, o termo "diaconia" já era um termo técnico para os ministérios na Igreja, enquanto os comentários não consideram a diaconia das mulheres como serviços práticos aos homens missionários. Sua hipótese é baseada na ligação com os Atos dos Apóstolos (6: 1-6), escritos pelo mesmo autor. Marta reclama porque sua irmã "deixa a ela a diaconia" para ouvir Jesus, no trecho dos Atos, os Doze não querem "negligenciar a Palavra de Deus" (a pregação) para o "serviço das mesas". E, em ambos os casos, o redator subordina a diaconia das mesas à escuta ou ao anúncio da Palavra. Na passagem dos Atos dos Apóstolos sete "helenistas" são escolhidos para a "diaconia das mesas", enquanto os Doze têm a "diaconia da palavra."

O argumento prossegue em João (11, 5-45), mostrando Lázaro e suas irmãs, Maria e Marta, como discípulos que chamam Jesus "mestre" e consideram-no "amigo". Depois de sua profissão de fé, Marta chama Maria (11, 28), como André e Felipe chamaram Pedro e Natanael. Segundo o autor, o momento crucial não é a ressurreição de Lázaro, mas a revelação de que Jesus Cristo é a ressurreição e a profissão de Marta é paralela à de Pedro (João 6: 66-71 e Mateus 16: 15-16 ). O autor também se baseia em outro episódio (João 12: 1-8), a unção de Jesus com unguento precioso, onde Maria está no centro da ação, em oposição a Judas. Maria não apenas prepara Jesus para a glória, mas também antecipa o seu pedido para lavar os pés, ato que será mostrado como um sinal dos verdadeiros discípulos mais adiante (João 13: 1-16). Todos esses elementos demonstram que aquelas mulheres eram discípulas e que o verdadeiro tema destacado pelo texto é a formação do discípulo.

Turid Seim, exegeta luterana, responde de maneira mais sutil. Com base na história social dos primeiros cristãos, ela vê em Marta (termo que significa "senhora" ou "patroa"), uma dessas mulheres ricas que colocavam seus bens à disposição das comunidades, uma vez que recebe Jesus em sua casa. A autora acredita que os termos relacionados com a raiz "diaconia" não sigam um único uso normativo.

O "serviço das mesas" e o "serviço da Palavra" são criações linguísticas de Lucas, enquanto o interesse reside na evolução do termo: diaconia é inicialmente utilizado apenas para o papel subalterno das mulheres (e, neste caso, refere-se ao serviço das refeições). Depois passa para o lado dos homens, para o papel dos discípulos. No capítulo 17 de Lucas, é apresentada a verdadeira relação do Mestre com os discípulos, com a inversão dos papéis: o Mestre é quem serve (um conceito desenvolvido no capítulo 22 como norma para os líderes das comunidades, com Jesus como modelo). O serviço das mulheres adquire uma nova dignidade, uma vez que se torna exemplar pela função de direção dos homens!

Outro termo importante é "parte" ("boa" ou "melhor", segundo cada manuscrito). Para a autora, quando Jesus esclarece que a parte boa não vai ser tirada de Maria, estabelece uma prioridade, mas não uma oposição. Turid Seim valoriza o eco entre o sentido próprio e o sentido metafórico dando ao que é "necessário" (Lc 10, 42a) o sentido próprio de "prato" (é necessário um único prato ou uma única porção de alimento) e apenas depois (10, 42b) o sentido metafórico de "parte" do Reino, o que levaria Jesus a dizer: seria suficiente comer um único prato, uma vez que Maria já provou a boa parte, que é a palavra de Deus. Assim, para as mulheres, "a parte boa, que não será tirada delas" – a nenhuma delas! - constituiria uma alternativa importante acessível já na época: o pertencimento recíproco entre o Senhor e os seus.

A interpretação é fiel ao contexto, o caminho de Jesus para Jerusalém com os seus discípulos. No mesmo evangelho, um pouco antes (Lc 9, 51), há a partida para a Paixão. Jesus expõe em várias etapas as condições para poder segui-lo (9, 57-62), designa os Setenta e Dois e suas missões (10: 1-20), afirma que é às criancinhas que o Pai se revela (10: 21-24). Conta ao doutor da lei a parábola do Bom Samaritano (10: 29-37), o ensinamento sobre a ação, depois visita as irmãs, o ensinamento sobre a escuta, para concluir com a Oração do Pai Nosso. A narrativa vai gradualmente construindo o perfil dos verdadeiros discípulos.

Em Lucas, proteger o direito das mulheres para ouvir a palavra de Deus é a parte boa, mesmo à custa de suas funções habituais. São apresentadas como discípulas, porém como recebedoras da Palavra, e estão ligadas à casa. Pois bem, é aqui que a interpretação também deve ser histórica: Turid Seim e Schüssler Fiorenza salientam que isso não significa que as mulheres seriam discípulas-donas-de-casa. Porque a "casa" é o lugar da igreja primitiva! Inclusive a afirmação de que Jesus entra nas casas não é anódina, mas é uma indicação do autor em relação ao nascimento da Igreja cristã. O potencial de igualdade assim criado para as mulheres não poderia deixar de suscitar uma dificuldade na intersecção com a situação cultural.

Mesmo que Marta e Maria tivessem permanecido na memória cristã como donas-de-casa de uma comunidade doméstica, a partir dos textos emerge que apenas os homens foram considerados tanto para a diaconia da Palavra como para aquela das mesas. Ao contrário, aquelas que "servem" são escolhidas como modelo para as tarefas de direção dos homens, em uma inversão do termo "diaconia" a partir do modelo do Mestre, que é aquele que serve.

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