“Apertem os cintos”... Francisco “nos Méxicos”. Ecos de uma visita (bem)aventurada.

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24 Fevereiro 2016

O papa Francisco, entre os dias 12 e 16 de fevereiro, realizou sua primeira viagem de 2016 para o México. Uma nação de rosto marginalizado e fraturado, que aprendeu a forjar sua própria identidade na vitalidade de uma diversidade cultural. Foi a sétima visita de um pontífice ao povo mexicano, ou ainda, à Igreja mexicana.

Desde o início, é possível perceber a tônica da viagem. Sem dúvidas, foi uma visita diferente, porque Francisco não escolheu os percursos confortáveis de uma Igreja amortecida no poder de seus “príncipes”, mas escolheu correr os riscos de um caminho pedregoso como um missionário da misericórdia e da paz.

"A experiência demonstra-nos que quando se busca
o caminho do privilégio ou do benefício para poucos
em detrimento do bem de todos, mais cedo ou mais tarde,
a vida em sociedade transforma-se num terreno fértil
para a corrupção, o tráfico de drogas, a exclusão das culturas diferentes,
a violência e até o tráfico humano, o sequestro e a morte,
que causam sofrimento e travam o desenvolvimento".

Francisco

Os adjetivos que acompanham a condição missionária de Francisco, misericórdia e paz, não apenas se reduzem a bons conceitos e belíssimas ideias, mas tornam-se gestos concretos e grito ensurdecedor. Ele não perdeu a oportunidade de ser profeta.

Do encontro com Kirill, em Havana/Cuba, até o encontro com os marginalizados, em Ciudad Juarez, o papa Francisco conduzia uma palavra digna do Evangelho que a nutre, que possivelmente não foi digerida com facilidade por muitos, mas certamente foi portadora de uma esperança para muitos outros.

"Disponho-me a percorrer este belo e grande país
como missionário e peregrino,
que deseja renovar convosco a experiência da misericórdia.
como um novo horizonte de possibilidade
que é inevitavelmente portador de justiça e de paz"

Francisco

Francisco, ao escolher outro itinerário, transpõe o México, de Sul a Norte, no caminho dos migrantes, mas, sobretudo, no caminho cotidiano das pessoas mexicanas em busca de um “futuro melhor”. Ele perpassa as situações mais difíceis e espinhosas, que acompanham o cotidiano do povo e da Igreja mexicana. Ele não teve medo de nomear os problemas e fazer as “denúncias” pertinentes.

É a aventura de uma palavra-presença. Nutrida por uma espiritualidade evangélica, mas sem descuidar da realidade concreta que a circunda. É um profetismo que faz bem, porque nele porta o frescor e a alegria do Evangelho, que compromete realmente quem quer ser seu seguidor.


“Desamarrem as sandálias....”

Fonte: vatican.va

Para assistir o discurso aos bispos
 Clique aqui 

No encontro com os bispos, Francisco não perde a oportunidade de ser profeta. Exorta seus irmãos no episcopado, animando-os na fé e na unidade, valoriza os progressos no testemunho da fé, mas não deixa em silêncio os dramas vividos pelas pessoas no México de muitos rostos.

Em contraste, encontramos a saudação do cardeal Francisco Robles Ortega, que em tom espiritualizado coloca as situações dolorosas do cotidiano no indeterminado do pecado: “pessoas que se deixando seduzir pelo pecado provocam injustiça, iniquidade ....”.

Em Francisco, o indeterminado tem rosto e nome, não se trata de negar o poder destrutivo e pernicioso, mas tomar consciência de que um discurso nesse tom normalmente recai na tentação do “Complexo do Éden”: encontrar desculpas e culpados.

O interesse de Francisco é pensar com a Igreja mexicana, a começar pelos seus bispos, como é possível uma presença relevante e saudável numa sociedade tão cruel, marcada pelo desinteresse de suas autoridades, pela violência, pelo narcotráfico, pela tensão do futuro diferente.

Não é um pensar intelectualizado, que normalmente paralisa uma ação, mas um pensar na fina sintonia com o que encontramos em Jeremias 33, 6: “vou pensar-lhes as feridas e curá-las, e proporcionar-lhes abundância de felicidade e segurança”.

É o exercício de dobrar-se (reclinar-se) sobre as machucaduras e trabalhar buscando o auxílio necessário para curá-las. Ser com-descendente, próximo, viver a cambalacho se for preciso, para possibilitar uma vivência saudável e transparente da fé. Francisco expõe o programa arriscado que lhe ia acompanhar nos dias que se sucederam, manifestando nas e através das pretensões de poder eclesial e civil, uma ausência e negligência no:

• direito dos indígenas com suas culturas;
• protagonismo dos jovens;
• presença profética junto as pessoas que sofrem;
• compromisso com uma vivência integral da família;
• opressão dos trabalhados em busca de dignidade;
• descaso com os migrantes e prisioneiros.

É um profetismo que “olha” para a “Virgem Morenita”, com um olhar contempla-ativo, porque nela e através dela contempla e encontra o povo mexicano nas suas feições: o Rosto de sua gente e o “coração secreto de cada mexicano”, com suas dores e esperanças, com suas aflições e riquezas.

O povo mexicano encontra-se na "Virgem Morenita" como vale de lágrimas e regaço espaçoso. É a partir desse lugar que Francisco exortava com uma palavra “dura” seus irmãos no episcopado, portando uma mensagem libertadora, pois alcançava sem rodeios os dramas onipresentes do cotidiano das pessoas no México.

“Ela disse-nos que tem a 'honra' de ser nossa mãe.
Isso nos dá a certeza de que as lágrimas
dos que sofrem não são estéreis.
Elas são uma oração silenciosa que sobre até o céu
e que em Maria encontra sempre lugar em seu manto.
Nela e com ela, Deus se faz irmãos
e companheiro de caminho, carrega conosco as cruzes
para não cairmos por nossas dores esmagadoras”


Papa Francisco

Os mexicanos chamam de “casita... sagrada” o espaço de encontro com Deus e a “Virgem Morenita”. Nesse modo de nomear, Francisco identifica uma realidade muito viva nos povos latino-americanos: o diminutivo. No Continente da Esperança e da Libertação, os povos aprenderam a se arranjar, entre a força carinhosa do “inho” e o peso domidador/diminuidor daqueles que lhes negam seus direitos e dignidade.

É uma vivência na modéstia, não por opção, mas por falta de oportunidade. Estão condicionados a buscar seu sustento, com o suor do seu rosto e como diz o ditado popular: “matando um leão por dia”. É uma condição importa por um sistema econômico e financeiro, que não promove a justiça social, mas subjulga na ilusão de uma possibilidade de compra e seu consequente endividamento.

Perdão! Perdão, irmãos(as)!

Fonte: vatican.va

Para assistir a homília
Clique aqui

Em Chiapas, encontramos uma liturgia culturalmente relevante: a Palavra de Deus toma carne e história dos povos que lá se encontram. A Palavra de Deus é ouvida em sua própria língua. Francisco inicia sua homilia citando a antífona do salmo em língua local “Li smantal Kajvaltike toj lek” - A lei do Senhor Deus é perfeita, seguindo com uma significativa reflexão a cerca dessa lei.

A lei é um símbolo de liberdade e libertação, porque não fica esvaziada em um juridicismo iniquo, mas toma rosto, carne, historia para acompanhar e sustentar o povo. A lei perfeita conferida por Deus ao seu povo, vem em resposta aos sofrimentos da escravidão. Eles são chamados a “viver na liberdade”. Deus que “viu a aflição” do Povo no Egito, hoje se torna companheiro.

Nessa proximidade encontramos o autêntico Rosto de um Deus que não é indiferente à dor, iniquidade, injustiça. O anseio de liberdade encontra seu sabor de “terra prometida”, uma terra que não reserva espaço para a opressão e degradação – não é a moeda corrente. É uma terra que não permite espaço para a desvalorização, mas sim fraterndade; injustiça vencida pela solidariedade e a violência vencida pela paz.

É uma terra que precisa de cuidado. Não é suficiente sustentar o paradigma da conquista e da exploração. Diante da crise que nos circuda, torna-se urgente uma mudança paradigmática tendo a dádiva como referência. Nisso, os indígenas são mestres. Francisco pede perdão e convida a humanidade aprender uma nova postura e relação com a terra, considerando a mútua relação e a integralidade que a compõe.

Encher de vontade...

Fonte: vatican.va

Para assistir o discurso às famílias
Clique aqui

Em Tuxtla Gutiérrez, encontra-se com as famílias mexicanas: escuta seus dilemas e suas aspirações. Frente a todos os desafios, Francisco, comunica o Reino como referência para participar de uma “nova lógica, que põe em movimento uma dinâmica de abrir os céus, capaz de abrir nossos corações, nossas mentes, nossas mãos e desafiarmos com novos horizontes”.

É um Reino que reclama corresponsabilidade e vida compartilhada, sobretudo frente ao desafio de relações precarizadas e da solidão. Muitas vezes tais relações são precarizadas, porque os pais precisam trabalhar e conseguem viver a família apenas nos finais de semana. É uma realidade onisciente no cotidiano das pessoas, que precisam trabalhar “dignamente”, enfrentando um descaso no trabalho e uma mobilidade humana ineficaz.

A consequência dessa precariedade gera “solidão” e “isolamento”, inclusive são maus conselheiros. Em Francisco, esse sistema de desgaste e adoecimento é denunciado, porque nele privam-se as pessoas de viverem outros direitos, como por exemplo: lazer, vida familiar, etc.

Não existe uma resposta única para combater essa precarização e solidão. É preciso “encher-se de vontade” e lutar pelos direitos. Na luta encontramos dois níveis, que compõem um binômio plausível – leis e compromisso:

• os legisladores precisam protejer e garantir o mínimo necessário para que cada pessoa possa desenvolver-se por meio do estudo e um trabalho digno;
• através do serviço e na doação aos demais, especialmente os sofredores, como resposta ao amor de Deus que faz experimentar um novo modo de ser.

“Prefiro uma família com rosto cansado
pela entrega do que uma família com rostos maquiados,
que não vivido a ternura e a compaixão.
Prefiro um homem e uma mulher,
com o rosto enrugado pelas lutas de todos os dias,
que depois de 50 anos seguem-se querendo.
Essas são as famílias”.
Francisco

“Vos sois a riqueza do México e da Igreja, para construir a esperança”

Fonte: vatican.va

Para assitir o discurso aos jovens
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Em Morélia, o papa se encontrou com os jovens, após presidir a celebração eucarística com sacerdotes, religiosos(as), consagrado(as) e seminaristas. Ele ressaltou a riqueza da juventude, que precisa transforma-la em esperança. A transformação acontece com trabalho árduo. É uma esperança construída.

A primeira ameaça à esperança são os discursos que desvalorizam. Eles vão tirando a capacidade de sonhar e de ser amado. Eles sugam o valor, a importância e o entusiasmo, fazendo com que os jovens fiquem com o coração triste. Discursos que fazem os jovens se sentirem de segunda classe.

A outra ameaça à esperança são as pseudo-convicções de que a felicidade está no externo: carro do ano, roupa de marca, tênis da moda, dinheiro no bolso, etc. Essas coisas podem ser úteis e até promover prestigio inclusive a capacidade de “comprar amigos”, mas nunca substituirão e serão necessárias para preenchem um coração esvaziado de carinho, de amor digno, de parceria verdadeira.

O anseio por uma vida de esperança poderá colocar os jovens nas armadilhas do narcotráfico, das drogas, das organizações criminosas que semeiam o terror. “É difícil sentir-se a riqueza de uma nação quando não se tem oportunidades de trabalho digno, possibilidades de estudos e capacitação, quando não se sentem reconhecidos os direitos que despois terminam impulsionando-os a situações limites”, disse Francisco.

Francisco convida os jovens a cultivar a “cultura do encontro”. Ela é fundamental, porque “perdemos o encanto de caminhar juntos, perdemos o encanto de sonhar juntos e para que esta riqueza, movida pela esperança, siga adiante, é preciso caminhar juntos, encontra-se e sonhar”.

Em Ciudad Juaréz, acontece o ápice do programa (bem)aventurado de Francisco através do encontro com os presos, com os trabalhadores e com os migrantes. Na trajetória, misericórdia e paz, tornaram-se carne e grito relevante frente a uma cultura do descarte, da exploração e do desprezo.

Fonte: vatican.va

Para assistir o discurso aos presos
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Fonte: vatican.va

Para assitir o discurso aos trabalhadores e empresários
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Fonte: https://goo.gl/MUaPD2

“São irmãos e irmãs que saem expulsos pela pobreza e a violência,
pelo narcotráfico e o crime organizado.
Diante de tantos vazios legais,
estende-se uma rede que sempre captura e destrói os mais pobres.
Escravizados, sequestrados, extorquidos,
muitos irmãos nossos são fruto do negócio do tráfico humano”.
Francisco

 

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Por Jéferson Ferreira Rodrigues

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