Milagro Sala. Uma prisioneira que tem a benção papal

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Por: Jonas | 17 Fevereiro 2016

Antes de empreender sua viagem ao México, o papa Francisco enviou um rosário abençoado a Milagro Sala (na foto, à esquerda do Papa), por meio de um de seus mais estreitos colaboradores argentinos. O chefe da Igreja Católica também fez chegar à dirigente social e parlamentar do Mercosul, presa na província de Jujuy, que “está muito preocupado com a sua prisão”. Francisco enviou o rosário com Enrique Palmeyro, um dos argentinos de sua maior confiança, ex-seminarista e número dois de Scholas Ocurrentes, a rede global de escolas com status pontifício que nasceu na Arquidiocese de Buenos Aires e que, agora, trabalha em nível mundial. Palmeyro se aproximou do acampamento da organização Tupac Amaru, na Praça de Maio, “assim que pousou o avião”, explicou Alejandro “Coco” Garfagnini ao jornal Página/12. Essa aproximação demonstra o nível de preocupação da Santa Sé por uma situação denunciada para a Comissão Interamericana de Direitos Humanos e a ONU, e aumenta o grau de tensão na já tensa atmosfera em que se dá a preparação para o primeiro encontro entre o Papa e o presidente Mauricio Macri, previsto para o próximo dia 27 de fevereiro.

 
Fonte: http://goo.gl/ivMefq  

A reportagem é de Alejandra Dandan, publicada por Página/12, 15-02-2016. A tradução é do Cepat.

Palmeyro é um homem muito bem conhecido pelas organizações sociais, e de perto, em razão de sua atividade na Confederação de Trabalhadores da Economia Popular. Também é um homem conhecido no mundo religioso. Foi seminarista, é professor de teologia, cumpriu diferentes funções governamentais em nível nacional e na cidade de Buenos Aires e é considerado um homem da Igreja. Na Arquidiocese de Buenos Aires trabalhou com quem então era o cardeal Jorge Bergoglio, que lhe encarregou de criar o programa de escolas irmãs da Arquidiocese de Buenos Aires, antecedente à rede global, e o trabalho com os carrinheiros. Com José María del Corral – ex-diretor do Conselho de Educação da Arquidiocese portenha –, atualmente, dirige um dos projetos que o Papa incentivou de forma especial. “A ideia sugerida por Francisco foi a de unir escolas, futebol e solidariedade”, disse Palmeyro ao jornal La Nación, em 2013, quando a iniciativa era lançada.

Na segunda-feira passada, este homem se aproximou da ocupação central da organização Tupac, na Praça de Maio. A organização mantém um acampamento apoiada por outros setores em reivindicação pela liberdade de Milagro, em um local permanentemente visitado por artistas, intelectuais, juristas e referências do mundo político e social. Palmeyro chegou nesse local e perguntou por Coco Garfagnini, um dos responsáveis pela organização. Como Garfagnini estava em uma reunião, encontrou-se com outros integrantes do espaço. A conversa ficou registrada por alguma câmera e ali entregou, pessoalmente, o rosário enviado por Francisco a Milagro e manifestou a preocupação do Pontífice que trabalha em prol da liberdade.

O rosário ainda não chegou às mãos de Milagro Sala, mas os integrantes da organização a avisaram, assim que o receberam. Emilio Pérsico, do Movimento Evita – um dos setores que apoia o acampamento e a reivindicação –, recordou este jornal que quando a visitou na prisão, onde divide a comida com o restante das presas, viu que Milagro colocou em uma parede o rosário que o Papa lhe presenteou, em junho de 2014, durante o encontro que tiveram na Santa Sé.

As manifestações por causa da prisão da dirigente indígena surgiram desde as primeiras horas. Junto às vozes dos organismos de direitos humanos locais, como Mães e Avós da Praça de Maio, HIJOS, Assembleia Permanente pelos Direitos Humanos, CELS e Anistia Internacional, somaram-se vozes e apresentações judiciais em foros locais e internacionais, como a Comissão Interamericana de Direitos Humanos e a ONU. O ex-ministro da Corte, Eugenio Zaffaroni, que hoje é integrante da CIDH, qualificou a prisão como um “escândalo internacional” e em sintonia com as organizações territoriais enquadrou sua prisão como uma prisão política. Entre essas primeiras vozes que se levantaram, também é preciso situar os sacerdotes nucleados em Padres em Opção pelos Pobres. No dia 31 de janeiro, na Praça de Maio, pediram para o Papa não receber o presidente Mauricio Macri e, durante uma missa, advertiram: “temos uma irmã presa, presa política”. O padre Eduardo de la Serna, dirigindo-se aos dirigentes da Casa Rosada, acrescentou: “E nós não podemos deixar de estar onde os pobres são maltratados”. São eles que vêm, além disso, comparecendo nas missas e marcando presenças diárias no acampamento.

A intervenção da Igreja oficial, por outro lado, começou a se tornar notória há alguns dias. Após um encontro com mais de 30 organizações que manifestaram sua preocupação pela situação de Milagro, o bispo de Gualeguaychú e presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social, Jorge Lozano, pediu uma reunião com o chefe de gabinete Marcos Peña. A reunião ocorreu na quinta-feira, dia 4 de fevereiro, na Casa Rosada. Peña o recebeu junto com o ministro do Interior, Rogelio Frigerio, e o secretário de Culto, Santiago de Estrada. O bispo Lozano foi acompanhado por Emilio Pérsico e Alejandro Garfagnini. Lozano, que considerou a si próprio “facilitador” e não “mediador”, após o encontro, explicou que “me comprometi a contribuir para que pudessem ter esta reunião”. Durante esse tempo, também houve outras tomadas de providências menos visíveis. A própria organização, com base em Jujuy, pediu a mediação do bispo deste local, César Daniel Fernández, em dezembro, quando se iniciou o acampamento em San Salvador e antes da prisão de Milagro.

Apesar deste quadro, Macri não dá nenhum sinal de alento ao diálogo, muito pelo contrário.

Nos últimos dias, e enquanto se aprofunda a campanha de manifestações pelo mundo, ele próprio aprofundou gestos de apoio ao governador de Jujuy, Gerardo Morales, responsável político por esta situação. Às declarações em campanha destinadas a estigmatizar o espaço político e o trabalho territorial e comunitário da organização Tupac, interrompeu uma coletiva de imprensa, em Davos, quando um jornalista lhe perguntou a respeito da situação de Milagro. Dias depois, negou-se a receber Estela de Carlotto e os organismos de direitos humanos na Casa Rosada que levavam, entre outras questões, esta reivindicação. Nesse mesmo dia, no entanto, e quase como uma provocação, tirou uma foto abraçado com Morales. Em seguida, seguiu em uma visita a Jujuy para pular carnaval e realizou dois desembarques milionários de 500 milhões de pesos para a província.

Nesse contexto, a Casa Rosada prepara o encontro com o Papa. É o primeiro entre ambos e aqueles que conhecem os tempos do Vaticano dizem que será “de tensa formalidade”. Um dos dados que se destacam são as últimas palavras da chanceler Susana Malcorra, que saiu moderando as expectativas ao ressaltar que, daqui em diante, as relações entre os dois estados serão relações institucionais. Neste cenário de rosários e milagres, será preciso observar o que acontece na agenda com o tema de Milagro Sala. Sua situação, a julgar pelos últimos gestos do Vaticano, parece ser claramente um dos eixos que os diferenciam.

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