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Por: Jonas | 18 Fevereiro 2016

O aviso do papa Francisco (foto) aos bispos mexicanos foi claro e contundente. Devem se aproximar da “periferia humana”, “envolver-se nas comunidades paroquiais e nas escolas”, abandonar os personalismos e não atuar como “príncipes”.

 
Fonte: http://goo.gl/Ay7Eb4  

A reportagem é publicada por Religión Digital, 16-02-2016. A tradução é do Cepat.

Esta chamada de atenção não foi gratuita em um país onde a hierarquia eclesiástica, em geral, mantém um estreito vínculo com a classe política e econômica, vive fora do preceito da austeridade e tem posições muito conservadoras e distantes do que opina o país em temas como o casamento homossexual e o aborto.

Os casos abundam. O arcebispo primaz do México, cardeal Norberto Rivera, pôde ser visto junto ao magnata Carlos Slim e outros grandes empresários do país, na Galicia (Espanha), em agosto de 2013, onde presidiu uma missa e passou alguns dias de férias.

Onésimo Cepeda, bispo emérito de Ecatepec, onde neste domingo o papa pediu para não “acumular fortuna”, foi agente da bolsa e criador do Grupo Financeiro Inbursa, antes de exercer o sacerdócio, e se tornou famoso por sua paixão pelo golfe.

“A Igreja Católica vive dentro da bolha da elite política social mexicana”, disse a EFE Hugo José Suárez, do Instituto de Pesquisas Sociais da Universidade Autónoma do México (UNAM).

No México, o segundo país do mundo em número de católicos, a forte relação Igreja-Estado foi renovada em 1992, quando o Vaticano e o país retomaram as relações diplomáticas com uma reforma constitucional que outorgou personalidade jurídica às instituições religiosas e lhe devolveu o direito de propriedade e patrimônio próprio.

Desse modo, colocou-se fim a quase dois séculos de desavenças, pois na configuração do México independente se buscou separar a Igreja do Estado, declarado laico, e foram expropriados muitos bens eclesiásticos.

Entre os múltiplos choques, destaca-se a Guerra Cristera (1926-1929), uma luta armada entre o Governo e religiosos católicos e milícias de leigos na qual morreram cerca de 250.000 pessoas.

Em 1992, e a partir de uma proposta vaticana estimulada por João Paulo II e depois por Bento XVI, estabeleceu-se “uma espécie de matrimônio” entre a Igreja e o Estado mexicano, no qual se antepôs a relação com a classe política a uma “maior proximidade com o povo”, disse o especialista.

A separação do povo também se deve a diferenças de opinião em temas morais por parte das elites eclesiais e dos crentes, explicou Suárez.

O desacordo é evidente em assuntos como aborto, relações sexuais pré-matrimoniais, casamento homossexual e consumo da maconha, um debate atual no país, após várias resoluções judiciais que permitem a particulares o uso recreativo e medicinal da maconha.

“A maconha lúdica é placebo para apaziguar os sofrimentos da destruição social”, afirmou a Arquidiocese de Cidade do México em um editorial do semanário ‘Desde la fe’.

Neste texto, publicado em outubro do ano passado, também advertiram que o México caminha para “a destruição individual” pela “transgressão do direito à vida, a desvalorização da família e a obsolescência do matrimônio”.

Em um país com 82,7% de católicos, o casamento homossexual, avalizado pela Suprema Corte, é aceito por quase 50% da população, segundo revelou uma pesquisa de Parametría.

Sobre a maconha, a opinião segue dividida: 66% dos consultados em uma pesquisa do jornal El Universal, do último mês de novembro, rejeita a descriminalização da maconha, embora 79% aprovem sua legalização para o uso medicinal.

A estes fatores se somam escândalos de pedofilia, com centenas de casos e acusações de que a Igreja protegeu padres supostamente envolvidos.

O México foi o berço e lar do padre Marcial Maciel, fundador dos Legionários de Cristo, falecido em 2008, e a respeito do qual se comprovou que cometeu abusos sexuais contra seminaristas, teve vários filhos com diferentes mulheres e era consumidor habitual de drogas.

Diante das contundentes responsabilidades que o papa Francisco lançou aos clérigos, no seio da Igreja mexicana não se colocam de acordo.

“Dá umas boas broncas em todos, nenhum de nós escapamos”, disse em entrevista ao jornal Excélsior o bispo de San Cristóbal de las Casas, Felipe Arizmendi. Por outro lado, em declarações a EFE, Francisco Moreno, bispo do estado central de Tlaxcala, destacou, nesta segunda-feira: “Alguns pensam que repreende”, mas “com suas palavras” o papa “está confirmando muitas atitudes dos bispos” mexicanos [que já possuem]. Entretanto, o santo padre prossegue em sua rota pelo México, consolidando esta mensagem de que o pastor precisa estar e trabalhar pelo rebanho.

Não só em palavras, também em gestos que despertam receios entre a hierarquia eclesiástica.

Em sua visita ao sulista estado de Chiapas, visitou a sepultura de Samuel Ruiz, um bispo incômodo e acusado pelo Governo e a Igreja de apoiar o movimento zapatista, mas enormemente querido pelas comunidades indígenas. Possivelmente, prevenidos pelo que o Vaticano anunciava, há semanas, ou sabedores do caráter frontal do discurso do papa Francisco, políticos e a Igreja do México têm se esquivado, no momento, bastante impassíveis, dos dardos lançados pelo Pontífice, apesar da dureza de algumas mensagens.

Na opinião do analista Salvador García Soto, “as mensagens do papa estiveram dentro das expectativas”, pois ainda que sejam “mensagens duras e fortes”, sabia-se que o Santo Padre “tocaria nesses temas sensíveis, tanto a respeito da violência e a corrupção, como do narcotráfico”, acrescentou.

Para García Soto, “a forte mensagem” contra a hierarquia eclesiástica mexicana, no sábado, “tem a ver com as brigas que se tornaram públicas entre alguns bispos”, como, por exemplo, entre o arcebispo primaz do México, Norberto Rivera e o de Morelia, Alberto Suárez Inda, “a respeito da visão que tinham da visita”.

No início do mês, o semanário “Desde la fe”, da Arquidiocese Primaz do México, em um editorial, apresentou Michoacán, estado que tem como capital Morelia, cidade para a qual Francisco viaja, na quarta-feira, como um território “violento e submetido ao crime e a anarquia”.

Suárez Inda disse não compartilhar “o enfoque” e qualificou o artigo como “sensacionalista”, “parcial” e “exagerado”.

Embora o Papa não tenha se referido a nenhum caso concreto em sua controvertida mensagem aos bispos, no sábado, pediu-lhes para não “perder tempo e energia” com “coisas secundárias”, “fofocas”, “intrigas” ou “vãos projetos de carreira”.

 “Se é preciso brigar, briguem. Se devem dizer as coisas, digam. Mas, como homens, na cara”, alfinetou.

Demandou-lhes, além disso, que “não diminuam o desafio” que o narcotráfico representa para a “sociedade mexicana”, incluída a Igreja, nem ignorem “a gravidade da violência”.

García Soto recordou que os poucos bispos que falaram a esse respeito, “não interpretam a mensagem como uma repreensão, mas, sim, como uma motivação”.

O ex-sacerdote e ativista Alberto Athie explicou a EFE que a reunião na qual o Papa exortou os bispos, simplesmente, seguiu “o modelo” dos “exercícios espirituais inacianos”, baseado em “apresentar pontos de discernimento aos exercitantes que terão que revisar durante seus exercícios”, argumentou.

Em sua opinião, a crítica se apresenta em “uma linguagem simbólica, exortativa, que pretende interpelar a consciência”.

“É muito difícil poder dizer se foi uma repreensão ou se foi muito forte ou muito suave. É uma interpelação simbólica, baseada na escritura”, enfatizou.

Por outro lado, Athie lamentou que o Papa não tenha ido “além das valorizações de tipo ética”, nem tenha proposto algo de concreto. Também o fato de não ter se referido a temas espinhosos como a pedofilia sacerdotal, apesar dos notórios casos que houve no México, no passado, ou por não ter feito menção à descriminalização do aborto, pois, por exemplo, “o cardeal Rivera foi duríssimo” com esse assunto, apesar do Papa ter pedido aos padres que absolvam as mulheres que incorreram nesse “pecado”.

Francisco também não falou dos casamentos em segunda união, quando, há uma semana, o semanário mexicano Proceso divulgou uma reportagem dizendo que a celebração religiosa do segundo casamento entre o presidente Enrique Peña Nieto e a primeira dama, Angélica Rivera, pode não ter validade.

No sábado, Peña Nieto e Rivera receberam Francisco no Palácio Nacional, sede do poder político no México, a primeira visita de um Pontífice a esse recinto, em um país que tem uma longa história de encontros e desencontros com a Igreja, embora seja um de seus bastiões no mundo.

Ali, o Santo Padre pediu para o México “homens e mulheres justos, honestos, capazes de se empenhar pelo bem comum” e denunciou que a busca do “caminho do privilégio” gera “um terreno fértil” para a corrupção, o narcotráfico e a violência, em uma aparente mensagem à classe política ali presente.

“O Governo sabia onde se colocava quando o convidou”, ainda que “do ponto de vista político, pode-se dizer que Francisco excedeu um pouco no tom”, tendo em vista que é um chefe de Estado, opinou García Soto.

“Essa visão tem a ver com o respeito, com a ideia de que ele é o mais forte chefe da Igreja no México”, acrescentou o especialista, que antecipou, apesar disso, que “não haverá reação oficial” do Governo de Peña Nieto.

“Esperavam esse tipo de mensagem” e “apesar de ser uma crítica para eles, sabem que questionar ou responder o Pontífice seria se meter com a maioria dos mexicanos”, que “além de católicos e religiosos, são papistas”.

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