Samuel Ruiz García e as origens da Teologia Indígena. Entrevista especial com Igor Luis Andreo

Revista ihu on-line

Gauchismo - A tradição inventada e as disputas pela memória

Edição: 493

Leia mais

Financeirização, Crise Sistêmica e Políticas Públicas

Edição: 492

Leia mais

SUS por um fio. De sistema público e universal de saúde a simples negócio

Edição: 491

Leia mais

Mais Lidos

  • Na China, “a problemática da ecologia, vista como um luxo, choca-se com a do emprego, que é vita

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

14 Fevereiro 2016

“O tema dominante no pensamento de Samuel Ruiz García passou a ser a ‘encarnação’ da teologia nas culturas indígenas, entretanto sem esquecer-se da necessidade de combater a opressão às comunidades”, afirma o historiador.

Foto: http://irmandadedosmartires.blogspot.com.br/

O bispo mexicano de San Cristóbal de las Casas, Samuel Ruiz García (foto ao lado), ficou conhecido como um dos precursores por sustentar uma “ruptura” na “maneira de pensar a evangelização dos indígenas” no México, e defender a “pluralidade cultural latino-americana” e a “valorização da história cultural (línguas, costumes, instituições, valores e aspirações) de cada povo e da diversidade cultural na Igreja católica”, nos anos 1960, diz Igor Luis Andreo (foto abaixo) à IHU On-Line, na entrevista a seguir, concedida por e-mail.

Na visita oficial ao México, que inicia nesta sexta-feira, 12-02, o papa Francisco visitará o túmulo de Dom Samuel Ruiz. Será durante sua passagem por Chiapas, no sul do México.

Esse ato de Francisco, na avaliação do historiador, “pode ser pensada como mais um passo simbólico significativo rumo à aceitação hierárquica de um catolicismo engajado sociopoliticamente em favor das camadas exploradas da sociedade capitalista e, sobretudo, da valorização da diversidade étnico-cultural no seio da instituição católica”.

Imerso no contexto do Concílio Vaticano II e do Conselho Episcopal Latino-Americano – CELAM, o bispo de San Cristóbal de las Casas, Samuel Ruiz García, foi um dos sete bispos latino-americanos convidados a discursar na Segunda Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano de Medellín, onde chamou a atenção para o fato de que a “situação de miséria encontrada nas comunidades indígenas não era produto de algo individual, mas sim um assunto estrutural, sistêmico e, sendo assim, qualquer tipo de assistência social paternalista e tentativa de integração à sociedade nacional mestiça e ‘moderna’ não seriam capazes de resolver – e até mesmo poderiam agravar – as precárias condições de vida nas quais se encontravam os indígenas”, e defendeu a participação da Igreja em ações sociopolíticas, além da conscientização dos indígenas de sua história de opressão.

De acordo com Andreo, as ações de Dom Samuel Ruiz após a Conferência de Medellín, “o tornaram o principal e expoente hierárquico da busca pela ‘encarnação’ do catolicismo em culturas nativas, no intuito de formação de Igrejas autóctones, isto é, grosso modo, conformadas a partir das idiossincrasias étnico-culturais de seus próprios fiéis locais, o que, ente outros fatores, deu origem à chamada ‘Teologia Indígena’”.

Na entrevista a seguir, Igor Luis Andreo, autor do livro Teologia da Libertação e Cultura Política Maia Chiapaneca: o Congresso Indígena de 1974 e as raízes do Exército Zapatista de Libertação Nacional (Editora Alameda/ FAPESP, 2013), apresenta os principais aspectos e mudanças da vida de Dom Samuel Ruiz e sua relação com as transformações ocorridas nos anos 1960 na América Latina.

Igor Luis Andreo é historiador e especialista em História Social pela Universidade Estadual de Londrina – UEL e mestre e doutor em História e Sociedade pela Universidade Estadual Paulista – Unesp/Assis.

Confira a entrevista.

Foto: http://operamundi.uol.com.br/

IHU On-Line - Quem foi Dom Samuel Ruíz Garcia?

Igor Luis Andreo - Samuel Ruiz García nasceu em três de novembro de 1924, na cidade de Irapuato, estado de Guanajuato, região centro-oeste do México. Filho de pais católicos fervorosos, o jovem Samuel foi criado em ambiente de perseguição à Igreja, exacerbado justamente a partir de 1924, com a presidência do general Plutarco Elías Calles.

Os conflitos entre o Estado e a Igreja católica levaram a um levante popular, cujo palco principal foi a região centro-oeste, ou seja, o local onde vivia a família de Samuel Ruiz. A Cristiada iniciou-se em 1927 e foi encerrada em 1929, quando o Estado e a Igreja entraram em um acordo que colocou fim às hostilidades.

Sob esse novo contexto, a partir dos anos 1930 foi permitido aos católicos criarem um partido, a Acción Nacional - PAN, e um movimento, a Unión Nacional Sinarquista - UNS, fundada em 1937.

O pai de Samuel Ruiz García, Maclovio Ruiz, foi um militante ativo do movimento sinarquista. O sinarquismo constituía-se como um amálgama entre catolicismo, nacionalismo radical e a defesa de um corporativismo com tendências fascistas, apresentado como terceiro caminho entre capitalismo e socialismo, condenando ao nazismo e à deificação do Estado e da raça como heranças do protestantismo, ao mesmo tempo em que demonstrava simpatia pelo general Francisco Franco em razão de sua restauração da tradição católica e da hispanidade.

Nesse período, o controle da educação constituía um dos pontos principais do embate entre Estado e Igreja, levando ao fechamento das escolas religiosas. Isto fez com que os pais de Samuel Ruiz não lhe enviassem a um centro de ensino secular, preferindo que ele aprendesse as primeiras letras em casa e, posteriormente, lhe matriculando em colégios católicos particulares.

Aos treze anos foi mandado a um seminário na cidade de León de Los Aldama que, devido à vigência de leis anticlericais, funcionava de maneira precária. Entretanto, sobretudo a partir de 1940, quando Manuel Ávila Camacho assumiu a presidência do México, as relações entre o Estado e Igreja começam a mudar. Houve uma aproximação entre a alta hierarquia eclesiástica, que buscava recuperar, paulatinamente, o poder perdido nas décadas anteriores, com o governo federal, que soube utilizar a Igreja como agente de coesão social para consolidar a estrutura política.

A partir de 1945, o governo federal mexicano adotou uma postura anticomunista, o que possibilitou uma maior convergência ideológica entre Igreja e Estado, uma vez que essa postura governamental ia ao encontro da política adotada pelo Vaticano com o Papa Pio XII, tornando-se a pedra angular da militância católica mexicana.

Samuel Ruiz e o reflexo da formação teológica

Em 1947, Samuel Ruiz foi estudar com um grupo de seminaristas na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, graduando-se em Teologia Dogmática e sendo ordenado sacerdote em 1949. Em seguida decidiu continuar os estudos em Roma, especializando-se em Sagrada Escritura em 1951 e concluindo seu doutorado em 1952.

Após concluir os estudos em Roma, Samuel Ruiz regressou ao seminário de León – nos anos 1950 uma cidade caracterizada por um forte acento conservador – onde começou a lecionar Teologia e Sagrada Escritura. Em pouco tempo foi designado “prefecto de estudios" e, em 1954, com apenas trinta anos, foi nomeado reitor do seminário. Logo após ocorreu uma vacância e, assim sendo, Samuel Ruiz foi nomeado cônego, cargo que garantia privilégios, distinção.

Desta forma, ao assumir o episcopado da diocese de San Cristóbal de las Casas em 1960, Samuel Ruiz García era o reflexo da formação familiar e teológica que recebera até então, chegando a utilizar corriqueiramente pelas ruas de San Cristóbal suas imponentes vestimentas de bispo, em sinal de protesto contra as limitações legais impostas à Igreja. Era o típico bispo de seu tempo e espaço, ou seja, marcadamente anticomunista e ostentador de toda pompa que um elevado cargo eclesiástico podia garantir aqueles que entendiam a Igreja como uma instância superior, acima da sociedade.

Samuel Ruiz: o bispo de San Cristóbal de las Casas

Em seus primeiros passos como bispo, Samuel Ruiz buscou observar as condições dos fiéis atingidos pela diocese. San Cristóbal de las Casas, capital de Chiapas até 1892, localiza-se na região de Los Altos e foi onde o novo bispo encontrou uma elite composta principalmente por criadores de gado, comerciantes, profissionais liberais e políticos.

Por outro lado, o que encontrou nas comunidades indígenas foi miséria e abandono por parte do Estado, mas também da própria Igreja, uma vez que havia apenas 13 padres para todo o território alcançado pela diocese. Ao constatar essa realidade, Samuel Ruiz elaborou um plano pastoral composto por três aspectos: ensinar castelhano aos indígenas; “calçar-lhes sapatos” e melhorar sua dieta. Essa era a base humana mínima, necessária, para poder desenvolver uma evangelização. Estas medidas serviam também como forma de combater o embrionário, porém efetivo, avanço do protestantismo sobre as comunidades indígenas, além do “sorrateiro espectro do comunismo”.

Nesse período, Samuel Ruiz não cogitava a possibilidade de aprender e evangelizar em línguas indígenas. Os idiomas de ascendência maia falados nas comunidades alcançadas pela diocese apresentavam-se como um obstáculo para o novo bispo. As preocupações e medidas tomadas por Samuel Ruiz para com os indígenas não eram algo pioneiro, pelo contrário, eram perfeitamente compatíveis com o assistencialismo paternalista comumente adotado pela Igreja católica e com certas características das políticas indigenistas mexicanas do período. Contudo, posteriormente novos ventos alimentaram correntes tempestuosas do catolicismo latino-americano, que viriam a abalar as certezas conservadoras do jovem bispo.

“Em troca do direito de viver na fazenda e de um pedaço de terra onde sua família podia plantar e criar animais, os peones indígenas eram obrigados a submeter-se a um rígido e extenuante calendário de obrigações"

IHU On-Line - Qual era a situação dos indígenas à época em que Dom Samuel Ruiz foi bispo de San Cristóbal?

Igor Luis Andreo - O estado de Chiapas possui 77.500 km2 e, na década de 1960, contava com aproximadamente 1.200.000 habitantes, sendo 400.000 indígenas, dentre os quais cerca de 250.000 eram tzeltales, tojolabales, tzotziles ou choles.

Em Chiapas uma fazenda (finca) sob a propriedade de mestiços não se constituía como unidade isolada, estando intimamente ligada com as comunidades indígenas do entorno. Isto implica que se perceba a constituição complexa dos municípios majoritariamente indígenas de Chiapas que, entre outros, incluíam uma série de paragens – forma usual (com raízes pré-colombianas) de assentamento para os membros de uma comunidade indígena tradicional – e ranchos – fazenda de tamanho mais modesto, também tipicamente sob a propriedade de mestiços. Em muitos municípios chiapanecos majoritariamente indígenas não havia mercados públicos e a força econômica se encontrava nas fazendas que se constituíam como centros autônomos de abastecimento para si mesmos e para as parajes em seu entorno – o que as tornava dependentes da fazenda. Isso resultava em um tipo de organização que criava uma relação na qual os peones indígenas (aqueles que vendiam sua força de trabalho para a fazenda) tornavam-se totalmente dependentes do finquero (proprietário da fazenda) que, em sua fazenda, não se subordinava a nenhuma autoridade municipal, estadual ou federal.

Em troca do direito de viver na fazenda e de um pedaço de terra onde sua família podia plantar e criar animais, os peones indígenas eram obrigados a submeter-se a um rígido e extenuante calendário de obrigações em benefício do finquero, podendo ser expulsos por qualquer tipo de desobediência e recebendo um salário abaixo do mínimo estabelecido por lei. Os indígenas submetidos a este tipo de relação semi-servil são denominados peones acasillados.

Contudo, com intuito de não ter suas propriedades afetadas pelas leis de reforma agrária, os finqueros distribuíram terras afastadas das fazendas para alguns peones, em troca de trabalhos agrícolas que deveriam ser prestados, assim constituindo as rancherías. Desta forma, aqueles que recebiam as terras convertiam-se em pequenos proprietários, não podendo reclamar o direito legal para dotação de terras comunais coletivas (ejidos), enquanto a fazenda não podia ser afetada porque não possuía mais um número suficiente de trabalhadores com tal direito.

As rancherías eram dependentes das fazendas, uma vez que, devido ao reduzido tamanho, pouca fertilidade e esgotamento da terra que recebiam, a maioria de seus habitantes se via obrigado a arrendar seu trabalho nas fazendas, novamente sujeitando-se a condições com longas jornadas de trabalho e baixos salários. Essas condições se repetiam em todos os municípios da região Los Altos de Chiapas, o que levou muitos indígenas a optarem por migrar para a região da Selva Lacandona em busca de terras.

A migração para a Lacandona iniciou-se na década de 1920, no entanto o momento de mais intensidade se deu a partir de meados da década de 1950, devido às condições de vida acima descritas e ao incentivo de autoridades governamentais que visavam transformar em terrenos nacionais regiões ricas em madeiras e prestes a serem exploradas. No entanto, a situação dos indígenas que migraram para a Selva Lacandona continuava sendo precária.

Apesar do incentivo, o interesse principal das autoridades era garantir a exploração das riquezas naturais e não o bem estar dos migrantes. As novas colônias encontravam-se isoladas física e economicamente: a terras conseguidas eram pouco produtivas, faltavam serviços mínimos de saúde, educação, transporte e comércio.

Além disso, os colonos eram constantemente explorados e extorquidos por agentes florestais que os multavam pelos desmatamentos causados; engenheiros da Reforma Agrária que cobravam somas exorbitantes por estudos técnicos que levavam anos para serem concluídos; funcionários governamentais que exigiam impostos por obras públicas que somente existiam no papel; e atravessadores (acaparadores) que chegavam à época da colheita e acabavam comprando os produtos cultivados pelos indígenas a preços irrisórios, devido à falta de outros compradores.

Outro grave problema era o desamparo legal a que estavam submetidas muitas colônias que haviam empreendido o êxodo à Selva Lacandona sem o respaldo legal necessário ou sem se estabelecer em terrenos nacionais, muitas vezes incentivados por promessas de funcionários subalternos. Isto acarretava na necessidade de inúmeras e custosas viagens até a capital do estado, Tuxtla Gutiérrez, e algumas vezes até a Cidade do México, a espera da conclusão de todos os trâmites agrários previstos por lei.

Em linhas gerais, essas eram as condições de vida nas comunidades indígenas encontradas por Samuel Ruiz García ao tornar-se o bispo de Chiapas, em 1960.

IHU On-Line - Em artigo publicado sobre Dom Samuel Ruiz, o senhor menciona duas posições teóricas que estiveram em disputa nos anos 1960 em Chiapas: o desenvolvimentismo e a teoria a dependência. Pode nos explicar as linhas gerais de cada uma, quais suas raízes e de que modo ambas sugeriam pensar a questão indígena à época?

   

“As culturas étnicas indígenas tendiam a ser pensadas como um obstáculo ante ao progresso técnico-industrial da Nação

 

Igor Luis Andreo - Grosso modo, pode-se apontar que nos anos seguintes à primeira sessão do Concílio Vaticano II (1962) predominou o desenvolvimentismo que, em linhas gerais, constituía-se na interpretação da América Latina como uma região subdesenvolvida, atrasada em relação aos países economicamente ricos, cujo modelo de modernização técnico-industrial deveria ser copiado para se alcançar o mesmo desenvolvimento e eliminar a pobreza – visão esta que também era compartilhada por algumas correntes marxistas, que defendiam a necessidade de buscar o desenvolvimento tecnológico e industrial seguindo os modelos “burgueses”, entretanto, esta busca era almejada enquanto uma etapa necessária para a criação de uma classe operária consciente e, portanto, revolucionária, uma vez que o desenvolvimento era entendido como condição para aceleração das contradições e, consequentemente, dos conflitos entre as relações de produção e as forças produtivas. Nesse tipo de interpretações as culturas étnicas indígenas tendiam a ser pensadas como um obstáculo ante ao progresso técnico-industrial da Nação.

Teoria da dependência

Em 1966, graças ao impulso produzido pelo Concílio Vaticano II (1962-1965), foi convocada a Segunda Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, realizada em 1968, na cidade de Medellín, Colômbia. Entre 1966 e 1968 houve uma imensa eclosão de declarações, documentos e reuniões realizados como preparativos para a Conferência. Foi a partir desses preparativos que a teoria da dependência começou, paulatinamente, a se impor como uma alternativa ao desenvolvimentismo, sobretudo através dos especialistas que auxiliavam os bispos.

A teoria da dependência, grosso modo, explicava que a situação de pobreza vivenciada na América Latina era fruto da exploração gerada por sua dependência estrutural frente aos países desenvolvidos do sistema capitalista, dependência esta que (nas interpretações mais radicais) somente poderia ser extinta com uma transformação estrutural que acabasse com o sistema econômico capitalista em vigência. Apesar de ser uma teoria relacionada com o universo do marxismo, isto não significa que todos que adotaram a teoria da dependência como explicação para a causa da pobreza vivenciada por milhões de latino-americanos, necessariamente aceitaram outros aspectos e conceitos fundamentais da teoria marxista, como a luta de classes ou a necessidade de uma revolução socialista. Por outro lado, esta interpretação tendia a relegar as questões étnico-culturais, por pensá-las como epifenômenos da estruturação econômico-social.

IHU On-Line - Qual foi a relação de Dom Samuel Ruiz com o Instituto Nacional Indigenista - INI?

Igor Luis Andreo - Apesar de suas limitações, na década de 1960 os membros do INI constituíam o único bastião de combate à situação de exploração dos indígenas imperante em Chiapas. E a partir das relações de Samuel Ruiz com o INI é possível compreender melhor como pensava o recém-nomeado bispo da diocese de San Cristóbal.

Em 1962, anteriormente à primeira sessão do Concílio Vaticano II – que ocorreu no mesmo ano – Fernando Benítez foi a Chiapas e conseguiu uma entrevista com Dom Samuel Ruiz García. Como exemplo, destaco alguns apontamentos do cronista acerca do bispo e trechos do diálogo entre os dois:

"[...] o jovem prelado distribuía equitativamente seu ódio entre um comunismo que necessitava “inventar” diariamente […] e um protestantismo contra o qual não podia lutar […] seus inimigos, naquela época, eram os membros do Instituto Nacional Indigenista (INI); os únicos que no México dos anos sessenta se esforçavam […] para quebrar a estrutura feudal de Chiapas. Todos os membros da “boa sociedade” de San Cristóbal participavam naquela cruzada. Sabiam por experiência que cada nova escola e cada nova clínica lhes arrebatava terras e peões […] À cabeça da campanha estava o clero, que acusava os funcionários e professores do INI de comunistas […]

[Fernando Benítez] – Há choques, há conflitos entre os professores e alguns membros de seu clero.

[Samuel Ruiz] – […] O senhor poderia me citar um caso concreto?

[Fernando Benítez] – Cito-lhe o caso do padre Adolfo Trujillo, dono da fazenda Bojoshac e dono de escravos. Aliado aos caciques da região opôs-se a que se construísse a escola em suas terras – uma escola que não lhe custaria um só centavo – e perseguiu furiosamente ao professor indígena. Não lhe importava a escola, mas os ensinamentos da escola.

[Samuel Ruiz] – Esse é o problema. Desejamos um ensino católico […] – Vivemos uma época de conflitos e de crises. O comunismo representa uma força real que se deve ter em conta. Ali há esse Fidel Castro…"

“Samuel Ruiz García foi um dos bispos mexicanos que assistiram às sessões do Concílio Vaticano II

  

 

IHU On-Line - O que foi a Unión de Mutua Ayuda – UMAE? Em que contexto ela foi criada?

Igor Luis Andreo - Em razão da história e condições singulares da Igreja católica no México, foi somente a partir do Concílio Vaticano II que começaram a acentuarem-se as divisões no seio da Igreja entre setores considerados renovadores e os tradicionalistas, uma vez que antes de 1962 as questões debatidas no Concílio não entraram em pauta para a Igreja mexicana, cuja principal preocupação era sua própria organização e manutenção.

Samuel Ruiz García foi um dos bispos mexicanos que assistiram às sessões do Concílio Vaticano II. Participou de todas as sessões. É evidente que as questões colocadas no Concílio causaram algum impacto sobre seu entendimento acerca de sua tarefa enquanto bispo. No entanto, é possível perceber que as mudanças ocorreram de maneira gradual e, de certo modo, foram superficiais. O Concílio não gerou nenhuma grande ruptura na atuação “indigenista” de Dom Samuel Ruiz, mas houve algumas transformações importantes.

A partir do Concílio, Samuel Ruiz foi assumindo, paulatinamente, uma postura social orientada pelo desenvolvimentismo, que se encontrava em voga na América Latina deste período. Também após 1962, o bispo de Chiapas abandonou as vestimentas resplendorosas que costumava utilizar e, em 1965, quando houve a criação uma terceira diocese no estado, optou pela permanência em San Cristóbal de las Casas, cuja localização tornava mais fácil o acesso aos fiéis indígenas em comparação com a nova diocese mais rica em recursos, todavia com a sede episcopal localizada na capital do estado, Tuxtla Gutiérrez, muito distante da maioria das comunidades indígenas.

Além disso, as transformações mais efetivas ocorridas estão relacionadas, sobretudo, às orientações do documento Regimini Episcoporum, votado ainda na primeira sessão do Concílio, em 1962. Este documento propunha a descentralização da Igreja, o que levou Samuel Ruiz a buscar, logo após seu regresso a Chiapas, a aplicação desta orientação.

Juntamente com os bispos Alfonso Sánches Tinoco, de Papantla, estado de Veracruz, e Adalberto Almeida, de Zacatecas, capital do estado de Zacatecas, Samuel Ruiz criou uma pastoral em conjunto, que enfatizava a pastoral social. A partir de 1964, esta pastoral deu origem a Unión de Mutua Ayuda (UMAE), que em seu ápice, em 1967, chegou a incorporar vinte e cinco dioceses e uma grande equipe de assessores em diversos ramos das ciências sociais.

Isto não significa que todos os participantes da UMAE partilhavam de uma ideologia comum. Apesar da tendência reformista e da ênfase fornecida à pastoral social, a UMAE era formada por um grupo heterogêneo, o que explica, ao menos parcialmente, a relativa facilidade com que o setor mais tradicionalista do episcopado mexicano logrou o aniquilamento total de sua estrutura em 1971, após o falecimento de Dom Alfonso Sánches Tinoco, que nesse período era o principal pilar de sustentação em âmbito nacional da UMAE.

Neste contexto, o bispo de Chiapas, paulatinamente, foi recorrendo ao instrumental das ciências sociais – com apoio técnico da UMAE – para melhor conhecer a região onde se localizava a diocese e, até mesmo, a cultura indígena, contudo motivado apenas por preocupações sociais orientadas pelo desenvolvimentismo e pelo indigenismo e não a partir de intenções étnico-teológicas.

IHU On-Line - Que mudanças Dom Samuel adotou em relação à catequese dos indígenas e qual foi o papel das duas escolas diocesanas criadas durante o seu bispado?

Igor Luis Andreo - Os primeiros catequistas indígenas foram formados a partir de 1952, pelo seu antecessor na diocese de San Cristóbal, o bispo Lucio Torreblanco, sobretudo como forma de combater o avanço inicial de algumas denominações protestantes de procedência estadunidense sobre as comunidades indígenas. A formação teológica fornecida a esses indígenas era tradicional e elementar, meramente introdutória, mas mesmo assim o movimento de catequistas cresceu consideravelmente, principalmente nas zonas tzeltales.

Por outro lado, sob a orientação de Samuel Ruiz esse modesto quadro inicial mudou de figura com a criação dessas duas escolas diocesanas – sob a responsabilidade de representantes da ordem marista – organizadas sob o impacto do Concílio Vaticano II, no intuito de lograr a melhora da condição de vida dos indígenas. Sua preocupação em relação aos indígenas possuía um caráter socioeconômico, mas não político, o que consistia em uma forma possível de interpretação das orientações do Concílio, apesar de não ser a única.

Samuel Ruiz já não percebia a Igreja e seu papel como algo essencialmente transcendente e acima da sociedade, mas seu pensamento ainda era marcadamente anticomunista, além de indigenista: a saída para a “salvação” dos indígenas era vista como sua “mexicanização”, isto é, com a integração do indígena à sociedade capitalista mexicana – que vivia um processo de industrialização – através da assistência social visando o desenvolvimento econômico e da educação laica e, sobretudo, religiosa em moldes católicos romanos, ou seja, por meio do abandono paulatino da cultura étnica nativa – opção esta que possuí raízes no ideário da intelectualidade e elites governantes mexicanas desde o século XIX quando se iniciou a implantação de políticas públicas que visavam o forjamento de uma identidade nacional.

IHU On-Line – Além do Concílio Vaticano II, de que modo o Conselho Episcopal Latino-Americano - CELAM e da Segunda Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, realizada em 1968, na cidade de Medellín, na Colômbia, influenciaram o pensamento de Dom Samuel Ruiz e na sua relação com os indígenas?

Igor Luis Andreo - A tímida e paulatina tomada de consciência por parte da Igreja latino-americana acerca da realidade referente às culturas indígenas é possível de ser percebida através de Conferências e Encontros. Em abril de 1968, Samuel Ruiz participou de um desses Eventos, o segundo Encontro patrocinado pelo Departamento de Missões do CELAM, que serviu como preparativo para a Conferência de Medellín e foi realizado em Melgar (Colômbia).

A igreja mexicana do período ainda mantinha poucos contatos com representantes do clero de outras regiões latino-americanas e, desta forma, muitas questões que vinham sendo debatidas em outros países eram desconhecidas no México. Sendo assim, o impacto causado pelo que Samuel Ruiz presenciou em Melgar pode ser considerado como uma ruptura em sua maneira de pensar a evangelização dos indígenas e, consequentemente, o marco que iniciou o processo de transformação da atuação da diocese de San Cristóbal de las Casas.

  

“O pensamento sócio-teológico de Samuel Ruiz foi profundamente marcado pelas conclusões do Encontro de Melgar

 

Conclusões do Encontro de Melgar

Nas conclusões do Encontro de Melgar afirmou-se a pluralidade cultural latino-americana, apontada como um aspecto fundamental da problemática missionária, e a necessidade dos diferentes grupos culturais serem integrados à vida nacional, o que “[…] se entende com frequência, desafortunadamente, mais como uma destruição de suas culturas, do que como o reconhecimento de seus direitos a desenvolver-se, a enriquecer o patrimônio cultural da nação e a enriquecer-se com ele.”

Como consequência teológica dessa pluralidade característica da América Latina, as conclusões alcançadas em Melgar orientam para uma valorização da história cultural (línguas, costumes, instituições, valores e aspirações) de cada povo e da diversidade cultural na Igreja católica “[...] que se manifesta e se expressa na fé e na linguagem cultural das Iglesias locais […]”

Em outra parte das conclusões, afirma-se que a promoção humana por parte da Igreja não implica necessariamente na criação de instituições próprias, “mas em uma ação que ajude as comunidades indígenas a assumir sua própria responsabilidade, evitando todo paternalismo […] É fundamental que a presença missionária da Igreja respeite as diversas culturas e as ajude a evoluir de acordo com suas características próprias, abertas ao intercâmbio com outros grupos culturais. Como se reconhece que as cultuas autóctones apresentam características marcadamente sacrais, e se estão dirigidas a receber o impacto da civilização técnica e da secularização, então há que prepará-las para que tal impacto não as desintegre”.

Além disso, para a “promoção humana” que os documentos se referem constantemente, enfatiza-se o necessário acompanhamento de estudos apoiados nas ciências sociais, sobretudo antropológicos e linguísticos. O pensamento sócio-teológico de Samuel Ruiz foi profundamente marcado pelas conclusões do Encontro de Melgar. A partir desse Encontro, partindo da premissa de que, uma vez que Deus quer a salvação de todos os homens, então Ele, de algum modo, está presente em todo e qualquer grupo humano e, assim sendo, ao invés de anunciar Cristo aos indígenas, o papel do evangelizador deve ser o de descobrir Deus encarnado na história e, consequentemente, na cultura daquelas comunidades, Samuel Ruiz passou a estimular uma catequese que buscava respeitar a língua e a forma de ser das comunidades indígenas.

Samuel Ruiz: um dos sete bispos latino-americanos que discursaram em Medellín

Além disso, em virtude de uma série de acontecimentos fortuitos, Samuel Ruiz acabou por ser um dos sete bispos de toda a América Latina a serem convidados para discursar em Medellín. A preparação para sua conferência o levou a conhecer e aderir reflexões teológicas construídas a partir do contato com as teorias da dependência, todavia apropriando-se delas de maneira própria.

Desta forma, entendemos que o aprendizado mais contundente proporcionado por Medellín para o pensamento de Samuel Ruiz foi o da percepção de que a situação de miséria encontrada nas comunidades indígenas não era produto de algo individual, mas sim um assunto estrutural, sistêmico e, sendo assim, qualquer tipo de assistência social paternalista e tentativa de integração à sociedade nacional mestiça e “moderna” não seriam capazes de resolver – e até mesmo poderiam agravar – as precárias condições de vida nas quais se encontravam os indígenas. Atinou para necessidade da participação da Igreja em ações sociopolíticas e passou a defender que era necessário conscientizar os indígenas de sua própria história de opressão.

Entretanto, isto não significou que o bispo de San Cristóbal simplesmente abandonou sua bagagem familiar e formação teológica. Apesar de haver incorporado alguns de seus elementos característicos, nunca defendeu o marxismo. Ademais, a própria realidade indígena com a qual lidava em Chiapas dificultava a adoção integral de explicações que reduzissem a complexidade do real aos aspectos econômico-estruturais.

Assim sendo, o tema dominante no pensamento de Samuel Ruiz García passou a ser a “encarnação” da teologia nas culturas indígenas, entretanto sem esquecer-se da necessidade de combater a opressão às comunidades, tanto a opressão material, quanto a cultural, na qual a própria Igreja possuía um papel de destaque ao impor, através da evangelização, um sistema cultural externo.

“O tema dominante no pensamento de Samuel Ruiz García passou a ser a 'encarnação' da teologia nas culturas indígenas

  

 

IHU On-Line - Em que consistiu o discurso de Dom Samuel Ruiz na Conferência de Medellín?

Igor Luis Andreo - Por haver estado em Melgar, Samuel Ruiz foi convidado para outro encontro preparativo para a Conferência de Medellín. Neste novo encontro, o arcebispo Marcos MacGrath, do Panamá, que era o vice-presidente do CELAM, lhe fez um resumo das intervenções e pediu que as transcrevesse.

Posteriormente este texto foi atribuído a Samuel Ruiz, ignorando que as indicações eram do arcebispo do Panamá. Foi em consequência desde mal entendido que o bispo de Chiapas foi convidado a discursar na Conferência de Medellín, acerca da ação missionária em territórios indígenas.

Todavia, os aprofundamentos acerca das questões étnico-teológicas e as ações do bispo neste sentido após a Conferência de Medellín, paulatinamente, o tornaram o principal e expoente hierárquico da busca pela “encarnação” do catolicismo em culturas nativas, no intuito de formação de Igrejas autóctones, isto é, grosso modo, conformadas a partir das idiossincrasias étnico-culturais de seus próprios fiéis locais, o que, ente outros fatores, deu origem à chamada “Teologia Indígena”, condenada pelo Papa Bento XVI em 2006 que, enquanto ainda Cardeal e presidente da Congregação Para a Doutrina da Fé na década de 1980, havia desempenhado fundamental nos processos de desmantelamento hierárquico da Teologia da Libertação.

IHU On-Line - Qual é o significado da visita do papa Francisco ao túmulo de Dom Samuel Ruiz, ao visitar Chiapas?

Igor Luis Andreo - A queda do muro de Berlim em finais da década de 1980 e, sobretudo, o fim da União Soviética no início da década de 1990, foram marcos que levaram à culminância do processo de desmantelamento da Teologia da Libertação iniciado sistematicamente com o Pontificado de João Paulo II (1978 – 2005), mas que não levaram à sua completa extinção, uma vez que localizados bastiões seguem reivindicando, em novas roupagens, suas ligações com a Teologia da Libertação.

Por outro lado, há vislumbres recentes de que o Vaticano, sob o primeiro pontificado de um latino-americano (iniciado em 2013), o argentino Jorge Mario Bergoglio, que adotou o nome de Papa Francisco, pode ter se tornado menos refratário e até mesmo “simpático” à renovada Teologia da Libertação.

A visita ao túmulo de Dom Samuel Ruiz que, além de seu papel precursor para o desenvolvimento da Teologia Indígena, é mais reconhecido socialmente por seu papel como mediador das negociações entre o Estado mexicano e os representantes do movimento social do “Exército Zapatista de Libertação Nacional” (EZLN) – movimento com bases e lideranças esmagadoramente indígenas maias que se mostrou ao mundo em 1994 ao tomar o controle de diversas cidades localizadas na mesma região atendida pela diocese dirigida por Samuel Ruiz desde 1960 – pode ser pensada como mais um passo simbólico significativo rumo à aceitação hierárquica de um catolicismo engajado sociopoliticamente em favor das camadas exploradas da sociedade capitalista e, sobretudo, da valorização da diversidade étnico-cultural no seio da instituição católica.

IHU On-Line - Deseja acrescentar algo?

Igor Luis Andreo - As informações apresentadas em todas as respostas foram retiradas e podem ser consultadas em forma mais abrangente em meu livro “Teologia da Libertação e Cultura Política Maia Chiapaneca: o Congresso Indígena de 1974 e as raízes do Exército Zapatista de Libertação Nacional” (Editora Alameda/ FAPESP, 2013).

(Por Patricia Fachin)