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As duas linhas que dividem hoje o catolicismo latino-americano. Artigo de Henri Tincq do Le Monde

O catolicismo latino-americano por muito tempo serviu de modelo e hoje está em crise. A Igreja católica vem perdendo fiéis em todo o continente. Para reverter a tendência, Bento XVI optou por endurecer contra a teologia da libertação e "erguer barricadas" contra os evangélicos. A análise é do jornalista Henri Tincq para o jornal Le Monde, 10-5-2007. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo

Bento XVI está conhecendo uma igreja latino-americana em crise. Em Aparecida, o papa abrirá a quinta assembléia da Conferência Episcopal Latino-americana (Celam). Pela primeira vez os responsáveis católicos do continente irão debater a delicada questão da sua queda numérica em detrimento das igrejas evangélicas e pentecostais.

Em 25 anos, a Igreja católica do Brasil perdeu um quarto dos seus fiéis. Todo ano, 600 mil pessoas se afastam dela, e hoje os evangélicos já representariam 18% da população. A força dos evangélicos se manifesta tanto na mídia quanto na política. Edir Macedo, chefe da Igreja Universal do Reino de Deus, controla a TV Record, a terceira emissora mais importante do país, dezenas de rádios locais e um jornal gratuito, distribuído aos milhões de exemplares. Reunidos no Partido Republicano (PR), fizeram campanha pela reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e se fazem presentes no governo com José Alencar, o vice-presidente.

Na Argentina, em vinte anos, 4 milhões de fiéis (10%) teriam se afastado da Igreja católica, ao passo que os evangélicos hoje representariam 10% da população. No México, desde 1970, a população católica caiu 10 pontos e o dinamismo dos evangélicos se traduz na compra de imóveis e por operações nos meios de comunicação.

Na América Central, o boom dos evangélicos é ainda mais impressionante. Na Guatemala, as novas igrejas recrutam nas populações de índios e recebem os benefícios da sua participação do movimento contra a guerrilha durante os anos 1960-1996. Os seus locais de culto crescem igual a cogumelos na Nicarágua, em Honduras, em El Salvador. As práticas sincretistas também ganham terreno no Haiti e em Cuba.

Como se chegou a este ponto? O catolicismo latino-americano por muito tempo serviu de modelo. Com um número recorde de fiéis - 40% dos católicos em todo o mundo (1,1 bilhão) -, com a sua inventividade teológica e o seu engajamento nas lutas sociais. Sem esquecer do martírio sofrido por alguns dos seus representantes, vítimas das ditaduras e dos conflitos dos anos 1970-1990 - no Chile, na Argentina, no Brasil, no Haiti, em El Salvador, na Guatemala e na Nicarágua.

D. Romero em El Salvador, D. Angeleli na Argentina, padres, religiosos e religiosas (as francesas Alice Domont e Léonie Duquet, "desaparecidas" sob a ditadura argentina de 1976-1983), além de inúmeros militantes leigos, pagaram com a sua vida o apoio não violento que eles emprestaram a luta pela democracia, na defesa dos pobres, dos camponeses sem terra e das populações indígenas.

Por ocasião das conferências do Celam em Medellín (Colômbia, 1968), na presença do papa Paulo 6º e em Puebla (México, 1979) com João Paulo 2º, uma minoria de bispos e de teólogos progressistas conseguiu impor a "opção preferencial pelos pobres", representada a partir de então por "profetas" tais como Dom Helder Câmara, um bispo do Nordeste brasileiro (morto em 1999), Dom Proano, bispo dos índios no Equador, o cardeal Silva Henriquez, arcebispo de Santiago (Chile), fundador do Vicariato da Solidariedade sob a ditadura de Pinochet, Dom Samuel Ruiz, um lutador das causas indígenas do México.

Paralelamente, a Teologia da Liberação, que surge no Peru com Gustavo Gutierrez e se desenvolve no Brasil com os irmãos franciscanos Leonardo e Clodovis Boff, e em El Salvador com o jesuíta Jon Sobrino - que Bento XVI acaba de punir -, no Chile com Pablo Richard, e no México com Enrique Dussel, tornou-se a ovelha negra dos estrategistas norte e sul-americanos do anticomunismo, que nela enxergaram uma espécie de bíblia marxista para as guerrilhas da América Latina.

As sanções do Vaticano, que obrigaram Gustavo Gutierrez e Leonardo Boff a permanecerem em silêncio, também contribuíram para a "demonização" desta teologia, que, mais modestamente, pretendia uma análise da "força histórica dos pobres" a partir da releitura dos textos bíblicos conduzida pelas "comunidades eclesiais de base", as quais são centros de educação popular, de catequese, de liberdade e de resistência. Foi nesses meios católicos que Lula, no Brasil, construiu o sucesso do seu Partido dos Trabalhadores (PT).

Duas linhas dividem hoje o catolicismo sul-americano

Segundo informa a leitura dos documentos preparatórios para a conferência episcopal de Aparecida do Norte, duas linhas dividem hoje o catolicismo sul-americano. Primeiro, uma linha neoconservadora, representada por movimentos poderosos, porém desiguais - a Opus Dei no Peru, os Legionários de Cristo, que nasceram no México -, por novas gerações de bispos, por pregadores da Renovação Carismática, tais como o célebre Padre Marcelo Rossi que, à moda pentecostal, lota estádios brasileiros.

Para eles, a "politização" da Igreja é amplamente responsável pela decadência numérica. Ela alcançou as classes médias, os círculos intelectuais e as forças de oposição, mas teria negligenciado as necessidades espirituais das populações marginalizadas. Isso beneficiou os grupos evangélicos que adentraram aos bairros pobres com as suas redes de ajuda comunitária, prometendo benefícios imediatos para a saúde e na luta contra o álcool e as drogas.

Para esses neoconservadores, a solução é a do "endurecimento". A Igreja católica não deve ceder à pressão das suas concorrentes evangélicas. Ela precisa permanecer ela mesma, retornar ao rigor do formalismo nos seminários, na formação dos leigos, nas formas litúrgicas, na educação religiosa, no combate em defesa da vida contra o aborto. Na última conferência do Celam, em Santo Domingo (1992), essas correntes conservadoras e o Vaticano já haviam imposto esta linha de "nova evangelização das culturas", uma decisão que incluiu um investimento maciço na comunicação e na formação, destinado as áreas urbanas secularizadas.

A segunda linha, minoritária, chamada de "profética", é aquela que não se conforma com a derrocada da "opção preferencial pelos pobres". Em artigo na "Adital" - fevereiro de 2007 -, o teólogo brasileiro Jung Mo Sung - que faz parte da nova geração de teólogos da libertação - escreve: "Nós somos obrigados a reconhecer que o sonho acalentado pelas comunidades de base e a nossa teologia, segundo a qual a massa dos cristãos na América Latina adotaria o cristianismo de libertação, foram derrotados". Ele lamenta que "os métodos de marketing visando aumentar o número dos fiéis, se tornaram mais importantes do que o papel profético do cristianismo na construção de uma sociedade mais justa e humana". Ao mesmo tempo chama a atenção para o papel de vanguarda que os cristãos são chamados a exercer nas lutas ecológicas, junto às populações indígenas e junto às mulheres e a todos aqueles que foram deixados por conta pelo neoliberalismo.

D. Amazzini no Honduras ou D. Fernando Lugo no Paraguai que, apoiado pela população, acaba de renunciar à sua função para se candidatar na próxima eleição presidencial continuam fiéis a "opção preferencial pelos pobres". Na Venezuela, na Argentina, no Chile ou em outros países, a Igreja católica continua a sua luta contra a corrupção política, participa das manifestações de rua, e ainda aparece nas pesquisas como a instituição de maior credibilidade. Na Argentina, por exemplo, estão muito tensas as relações entre a hierarquia e o presidente Néstor Kirchner, criticado nos seus sermões pelo cardeal jesuíta José Maria Bergoglio, o arcebispo de Buenos Aires.

"Com a globalização, as idéias, as religiões e as igrejas circulam", resume o Padre Philippe Klöckner, responsável do Centro Episcopal França-América Latina (Cefal). "Se a Igreja católica na América Latina optar por erguer barricadas contra os evangélicos, ela morrerá com as suas certezas".

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