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Universidade de Regensburg está de volta: O Papa Bento XVI estava certo sobre o Islã?

No dia 12 de setembro, completaram-se oito anos desde que o Papa Bento XVI proferiu uma palestra na Universidade de Regensburg, Alemanha, na qual pareceu diagnosticar o Islã como uma religião inerentemente marcada pelo fanatismo.

A reportagem é de David Gibson, publicada por Religion News Service, 11-09-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Foi uma afirmação nada diplomática, para dizer o mínimo – especialmente vindo um dia após o aniversário do 11 de Setembro –, e que provocou uma enorme revolta entre os muçulmanos. O evento chegou a ser visto como mais um dentro de uma série de erros que assolariam o papado de Bento XVI até a sua renúncia no ano passado.

Hoje, com o Estado Islâmico em marcha no Oriente Médio, deixando para trás um rastro de brutalidade horrível e de derramamento de sangue que têm chocado o mundo inteiro, alguns dos aliados do papa emérito na direita católica estão dizendo: “Ele avisou”.

“[O discurso na Universidade de] Regensburg não foi exatamente o trabalho de um professor ou mesmo de um papa”, escreveu o Pe. Raymond de Souza em artigo publicado no National Catholic Register. “Foi o trabalho de um profeta”.

Oito anos mais tarde “temos o ISIS” – sigla para Estado Islâmico – “decapitações, perseguições, ódio, guerra”, acrescentou Elise Hilton num artigo publicado no blog do Acton Institute, grupo católico de reflexão (“think tank”) nos EUA.

“Parece que o mundo deve um pedido de desculpas ao Papa Bento XVI”, escreveu.

Então, o que Bento disse na Universidade de Regensburg e que continua a ressoar na atualidade?

A palestra era para ser uma espécie de boas-vindas ao papa alemão que havia sido o guardião da ortodoxia durante o papa de João Paulo II.

Pois foi aí, como professor nesta mesma universidade durante a década de 1970, quando o Pe. Joseph Ratzinger, destacado teólogo católico na Alemanha com uma crescente reputação internacional, que Bento foi mais feliz.

Em seu discurso em 2006, intitulado “Fé, razão e universidade: Recordações e reflexões”, Bento XVI trabalhou, como lhe é característico, com uma questão complicada: a interação entre fé e razão. Com ela, quis mostrar como a razão desconectada da fé conduz ao fanatismo e à violência.

Para ilustrar, Bento lembrou um diálogo obscuro do século XIV entre um imperador cristão bizantino, há muito esquecido, chamado Manuel II Paleólogo, e um erudito persa sobre o conceito de violência no Islã.

“Mostra-me também o que trouxe de novo Maomé, e encontrarás apenas coisas más e desumanas tais como a sua norma de propagar, através da espada, a fé que pregava”, citou Bento XVI o imperador como se estivesse dizendo ao seu interlocutor islâmico.

Na doutrina islâmica, afirmou Bento, “Deus é absolutamente transcendente. A sua vontade não está vinculada a nenhuma das nossas categorias, incluindo a da razoabilidade”.

Dada situação em que se encontrava o mundo islâmico à época, bem como hoje, não foi surpresa que a citação feita pelo papa sobre o Islã como um exemplo de religião selvagem acabou alterando mais ainda os ânimos.

Não só ficaram ofendidos os muçulmanos moderados, mas também membros extremistas atacaram igrejas na Cisjordânia, mataram uma religiosa italiana na Somália e decapitaram um padre no Iraque. Os aliados do Papa Bento consideraram estes episódios como uma prova do que o pontífice dizia, e aplaudiram a sua disposição em “ser duro” para com o Islã. “Bento, o bravo” – assim o chamou o Wall Street Journal.

Mas muitos no Ocidente, e na própria Igreja de Bento XVI, se recolheram com o que consideraram ser observações – para dizer o mínimo – imprudentes e criticaram a análise feita sobre o Islã.

Passados oito anos, os aliados do hoje papa emérito dizem que os eventos provaram que o que fora dito – por Bento e pelo imperador Manuel II Paleólogo – estava certo.

“Hoje, quando as notícias vindas da região que antes era o Iraque fazem história e mostram, a todos que têm olhos para ver, como se parece o Alcorão traduzido na prática, é preciso pedir desculpas para vocês dois [Bento e o imperador]”, escreveu Camillo Langone no periódico italiano conservador Il Foglio.

No entanto, estas reações podem não estar fazendo justiça ao Islã e nem ao Papa Bento.

Por um lado, enquanto muitos críticos católicos do Islã aplaudiram o discurso de Bento na Universidade de Regensburg, o próprio papa tentou se distanciar das interpretações cujas tendências vão contra o Islã. Ele retocou o texto da versão oficial vaticana de sua fala para dizer que as observações do imperador foram feitas “de modo surpreendentemente brusco – tão brusco que para nós é inaceitável”.

Além disso, acrescentou notas explicativas dizendo que “estou de acordo com Manuel II, sem contudo fazer minha a sua polêmica”.

Enquanto isso, o Vaticano considerou a fala como uma tentativa de abertura ao diálogo com o Islã, e não uma representação da palavra final do papa sobre esta religião.

De fato, uma série de eruditos islâmicos aproveitaram a oportunidade para convidar Bento XVI e a Igreja Católica para aprofundar o diálogo sobre o assunto religião e violência – um diálogo que por si mostrou que o Islã pode não ser tão reflexivamente violento como alguns dizem. Bento se pôs a reparar as relações com o mundo islâmico, visitando uma mesquita na Turquia e dizendo muitas coisas boas sobre o Islã durante o restante de seu papado.

Mais do que isso, a história do islamismo e do cristianismo apresentam muitas provas que contrariam a ideia de que o Islã sempre, e em todo o lugar, foi violento ou de que o cristianismo seria inerentemente virtuoso.

Por exemplo, o Islã na Espanha, durante toda a Idade Média, representou uma espécie de idade dourada de cortesia religiosa e de florescimento intelectual e artístico que rivalizava com qualquer aspecto da cristandade.

Bento “poderia facilmente ter encontrado passagens ditas por eruditos muçulmanos que mostram a compatibilidade, e mesmo a necessidade, da fé e da razão como aliados – e não inimigos – do pensamento islâmico”, escreveu Bruce Lawrence, erudito islâmico e professor emérito da Universidade de Duke, num email enviado da Índia, onde encontra-se realizando uma série de palestras.

Lawrence citou o erudito do século XIV chamado Ibn Khaldun como um muçulmano influente que argumentou que “aql” (palavra árabe para intelecto) e “naql” (que significa tradição) “são tão próximas na prática como o são na pronúncia, ou seja, elas rimam e se complementam”.

Outros observam que as guerras religiosas que se alastraram pela Europa na esteira da Reforma são exemplos, entre muitos outros, da brutalidade levada a cabo por cristãos que rivalizam com qualquer coisa que vemos hoje no Oriente Médio.

Num artigo publicado na revista The Week, por exemplo, Michael Brendan Dougherty detalhou como os ingleses e a Igreja Anglicana estabelecida trataram os irlandeses e católicos de forma muito semelhante àquela que o Estado Islâmico vem empregando para com os seus inimigos.

Porém tais analogias históricas não vão fazer com que muitos se sintam melhor quanto à situação atual.

Também não está claro o que Bento XVI diria de tudo isso. Hoje ele está aposentado vivendo num convento no Vaticano em regime de semirreclusão, e não parece estar com vontade de se meter no assunto.

Assim como o Pe. George Rutler escreve na revista católica conservadora Crisis: “como o ousado profeta Jeremias, o benigno profeta Bento jamais dirá neste mundo ou no próximo: ‘Eu avisei’”.

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