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Samuel Ruiz, o profeta mexicano do século XX

"Dom Samuel é, junto com dom Sérgio Méndez Arceo, o símbolo mais profético da Igreja mexicana do século XX, e um dos pastores mais importantes da pastoral indígena em nosso continente e no mundo. Não resta senão alegrar-se com o povo quando exclamava: "Samuel vive, a luta continua!’", escreve Enrique Dussel, filósofo e professor emérito da Universidade Autônoma Metropolitana, em artigo publicado no jornal mexicano La Jornada, 26-01-2011. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Morreu no dia 24 de janeiro o santo profeta de Chiapas, digno sucessor de Bartolomeu de las Casas. Este último começou sua luta em favor dos povos originários da América no já longínquo 1514 no povoado de Sancti Espírito de Cuba. Foi bispo de Chiapas desde 1544 até 1547, quando foi expulso pela oligarquia dos conquistadores que já dominavam essa terra maia, por sua luta em favor dos povos originários.

Um pouco mais de quatro séculos depois, e como que continuando o trabalho de Bartolomeu, foi nomeado em 1959 dom Samul Ruiz, com 35 anos, bispo de Chiapas (sendo o mais jovem do episcopado mexicano desses anos). Havia nascido em 3 de novembro de 1924 em Irapuato. Estudou primeiro em León; obteve seu doutorado em hermenêutica bíblica na Gregoriana de Roma. Era um homem letrado, diretor do seminário de León (como Miguel Hidalgo o foi do Seminário de Valladolid). Participou do Concílio Vaticano II, participando ainda dentro das fileiras do episcopado conservador.

Couberam-lhe tempos de profunda renovação da Igreja e as convulsões políticas de 68. Nesse tempo mudará drasticamente sua posição teórica e prática. Será sua comunidade indígena maia a que o confrontará com a miséria, a opressão, a dominação política, econômica, cultural e religiosa que a oligarquia chiapaneca havia orquestrado como herança dos conquistadores e dos proprietários de terras contra esse povo originário. O jovem bispo sofre uma conversão radical. Já em 1968 foi um dos quatro oradores (sobre o tema da pastoral indígena) na Conferência de Medellín do Celam, onde manifestou seu calibre latino-americano. Brilhará na América Latina como membro da parcela de bispos que optaram pelos pobres do continente, junto com Helder Câmara, no Brasil; Leónidas Proaño, no Equador, e Oscar Romero, em El Salvador. Será um dos reformadores da Igreja, fundamentando biblicamente a revolucionária teologia da libertação que estava nascendo.

Aprendeu duas línguas maias e se transformou no profeta de seu povo. Isto lhe trará grandes inimizades, perseguições, mesmo daqueles que hoje, depois de sua morte, o louvam. Dizia de si, e de dom Samuel, o bispo de Cuernavaca dom Sergio Méndez Arceo: "Nós unificamos o episcopado mexicano. Todos estão contra nós! Perseguido pelos poderosos, pelos proprietários de terras, pelos políticos e até por alguns de seus sacerdotes, com indomável brio, com paciência de indígena, com sacrifício titânico, percorrendo inúmeras vezes sua diocese de carro, de avião ou a cavalo, estava presente consolando, alentando e dirigindo as "comunidades" maias. Todas o tinham por tatik (como o tata dos tarascos que foi Vasco de Quiroga); nomeado por eles mesmos "Protetor do povo indígena".

Contra vento e maré, e contra a opinião de muitos no Vaticano (que como dizia São João da Cruz a um irmão observante estrito: "Cuida-te ao ir a Roma: partirás descalço (reformado) e voltarás calçado (corrompido)!"", transformou a Igreja e a sociedade chiapaneca, educou os líderes indígenas, que de catequistas chegaram a ser diáconos. O que foram muitos e muitos comandantes zapatistas senão catequistas de dom Samuel Ruiz? Dom Samuel criou profeticamente a consciência da luta de seu povo, do qual, por outro lado, aprendeu tudo.

Por isso, na celebração de sua morte (não é contraditório que o povo reunido junto ao seu cadáver exultasse um certo espírito de profundo regozijo), gritava, em alguns casos facão em punho: "Samuel vive, a luta continua!"; ou aquela crítica à Igreja de tantas traições: "Queremos bispos ao lado dos pobres!". Essa Igreja ocupada com a beatificação de sua burocracia (cujo membro supremo foi visto sendo fotografado ao lado de Ronald Reagan ou Augusto Pinochet, e que se encolerizou diante da presença de um humilde Ernesto Cardenal de joelhos, mas que era ministro de Estado da revolução sandinista, junto ao grande cartaz em que se podia ler na Praça da Revolução: "Entre cristianismo e revolução não há contradição!").

Dom Samuel não foi apenas uma figura mexicana. Era uma personalidade profética latino-americana, defensor dos direitos humanos dos humildes, dos imigrantes em toda a América Central. Era uma figura mundial, recebendo prêmios internacionais e doutorados honoris causa nas mais diversas e mais prestigiadas universidades como reconhecimento de seu pensamento e ação.

Dom Samuel é, junto com dom Sérgio Méndez Arceo, o símbolo mais profético da Igreja mexicana do século XX, e um dos pastores mais importantes da pastoral indígena em nosso continente e no mundo. Não resta senão alegrar-se com o povo quando exclamava: "Samuel vive, a luta continua!". Como escrevia Walter Benjamin, trata-se de um "messianismo materialista" (se por "materialista" se estende cumprir responsavelmente os deveres com a vida dos pobres e explorados, como os indígenas chaipanecos). Samuel foi heroicamente consequente com isso: "Tive fome e me destes de comer!" (que do Osíris egípcio passou a Isaías e ao fundador do cristianismo, do qual Samuel foi um digno testemunho.).

 

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