“Temos uma dívida social imensa com os povos indígenas”. Entrevista com dom Edson Damian

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Por: André | 15 Maio 2015

Dom Edson Taschetto Damian (foto) é bispo de São Gabriel da Cachoeira (AM), uma das maiores e mais pobres dioceses do Brasil, desde 24 de maio de 2009. Nessa circunscrição eclesiástica habitam 23 etnias indígenas diferentes que falam 18 línguas, constituindo 95% da população.

 
Fonte: http://glo.bo/1H5jN3z  

Nascido no dia 04 de março de 1948 em Jaguari, no Rio Grande do Sul, o bispo brasileiro segue a espiritualidade de Charles de Foucauld, o que o levou a ser gari durante um ano ou a viver entre os indígenas bolivianos durante outro ano. Sempre vinculado com as pastorais sociais e preocupado com a realidade que o cerca, é um homem austero, que assume em sua vida diária essa Igreja pobre e para os pobres que o Papa Francisco deseja que seja uma realidade cada vez mais visível.

É o primeiro bispo não salesiano desta diocese, cujo território foi encomendado à Congregação de Dom Bosco há 100 anos. Seu lema episcopal é: “Com Jesus, amar e servir” e realiza isso diariamente entre os indígenas com quem convive e se identifica. Andar pela rua com ele mostra essa proximidade e cumplicidade com sua gente, a quem saúda em suas línguas indígenas, diante da imensa alegria daqueles a quem durante muito tempo a própria Igreja católica proibiu falar sua língua materna.

A grande extensão e as distâncias até as diferentes paróquias da diocese, para onde se desloca de lancha, faz com que conviva durante semanas com os diferentes povos em suas aldeias, participando da sua própria forma de vida, compartilhando alimentos, tomando banho nos rios ou dormindo em sua inseparável rede.

Reconhece que na época não foi fácil assumir esta missão que a Igreja lhe confiava, mas hoje mostra como foi uma graça de Deus o fato de vir morar nesta periferia geográfica e existencial onde se sente em casa e cada dia mais à vontade.

A entrevista é de Luis Miguel Modino e publicada por Religión Digital, 13-05-2015. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

Como é a diocese de São Gabriel da Cachoeira? Como são as pessoas que moram nestas terras?

A diocese de São Gabriel da Cachoeira é original sob vários pontos de vista. Em primeiro lugar, é a diocese mais indígena do Brasil, pois 95% da população é constituída por povos indígenas de 23 etnias diferentes que atualmente falam 18 línguas, o que supõe um laboratório linguístico, antropológico e cultural de primeira categoria.

Além disso, é uma diocese muito grande, tem 293.000 quilômetros quadrados (maior que a Itália), sem estradas; os únicos meios de comunicação são os rios, o Rio Negro, principal tributário do Amazonas, e seus afluentes, através dos quais se acessa as comunidades.

Também pode ser destacado que é uma das poucas Igrejas do Brasil que já ordenou padres indígenas. Os salesianos, que estão aqui há 100 anos, têm sete padres indígenas, eu ordenei outros dois diocesanos e atualmente temos 13 seminaristas estudando filosofia e teologia no Seminário Regional de Manaus.

Estas são, em linhas gerais, as características desta Igreja que está no coração da Amazônia, podendo-se dizer que esta é a zona melhor preservada da região amazônica, pois se calcula que menos de 3% da floresta foi derrubada. Isso nos leva a dizer que está praticamente intacta, pois aqui não chegaram as empresas madeireiras nem o agronegócio, e os índios sabem conservar a natureza, como demonstraram ao longo de centenas de anos.

O que significou viver e realizar sua missão na Amazônia, primeiro como padre missionário durante 10 anos no Estado vizinho de Roraima e nos últimos seis anos como bispo de São Gabriel da Cachoeira?

Fui para Roraima porque é a Igreja irmã de Santa Maria, minha diocese de origem no Rio Grande do Sul, para trabalhar com os colonos, muitos deles gaúchos e nordestinos, que estão presentes no sul de Roraima, Estado dividido em duas regiões, uma de selva amazônica e outra de savana.

Depois de chegar ali, após ter trabalhado durante seis anos como assessor da CNBB, decidiram que deveria assessorar o bispo e a diocese e me fizeram pároco da catedral, vigário pastoral e posteriormente administrador diocesano.

Mas agradeço a Deus por ter vivido esses 10 anos em Roraima em um momento decisivo, como foi a luta pela homologação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, participando dos conflitos mais intensos e a alegria de estar junto a uma Igreja que assumiu e defendeu a causa dos povos indígenas, enfrentando perseguições, calúnias e difamações, mas que soube manter-se fiel nessa defesa.

Fui o primeiro a saber, através do ministro da Casa Civil de Lula, Gilberto Carvalho, que me ligou no dia 15 de abril ao meio dia, para me comunicar que nesse mesmo dia, às 15h, o Presidente Lula iria assinar o decreto de homologação da Raposa Serra do Sol como os índios sempre haviam pedido, em área contínua. Ele me pediu que avisasse os líderes do CIMI de Roraima para que não fizessem nenhuma manifestação pública que pudesse ser interpretada pela sociedade de Roraima como uma provocação e, assim, agredi-los e prejudicá-los.

Lembro que me encontrei com Jacir José de Souza, o grande líder do movimento indígena, e quando lhe dei a notícia me abraçou, chorou de alegria e me disse estas palavras que são inesquecíveis: “Assim como o povo da Bíblia festeja todos os anos a libertação do Egito e a conquista da Terra Prometida, este 15 de abril será para os povos indígenas de Roraima como o dia da nossa Páscoa, dia em que a nossa terra foi libertada das mãos daqueles que a invadiram e ela voltou a ser novamente a nossa terra, a nossa Mãe”. Vivi esses momentos com grande intensidade. Depois vieram os recursos de todas as autoridades de Roraima ao Supremo Tribunal Federal, até conseguir que o decreto fosse definitivo.

Na última Assembleia da CNBB, dom Erwin Kraütler, presidente do CIMI e bispo da Prelazia do Xingu, criticou duramente o governo brasileiro diante da situação dos povos indígenas. Qual é a situação dos povos indígenas nesta região em que nos encontramos?

A situação na Amazônia não é tão crítica. Em Roraima, os Yanomami têm sua terra demarcada desde 1992, realidade que se repetiu posteriormente com os povos que habitam a Reserva Raposa Serra do Sol. Aqui em São Gabriel, 93% das terras são homologadas. Podemos dizer que nesta região os conflitos não são tão intensos.

No entanto, a situação na região onde está dom Erwin é diferente devido à hidrelétrica de Belo Monte, que vai significar uma imensa destruição, pois vai transformar os rios, acabando com a pesca e as terras dos colonos e dos povos indígenas. Pode-se dizer o mesmo dos Guarani-kaiowa no Mato Grosso do Sul, cujas terras foram invadidas pelo agronegócio.

Quais são os desafios que a diocese de São Gabriel da Cachoeira enfrenta?

Um grande desafio é acompanhar as comunidades que estão disseminadas nesta imensa região, ter uma presença maior dos padres que são poucos e que têm que enfrentar altos custos para se deslocar. Para visitar a Paróquia de Pari-Cachoeira, que é a mais distante, olhando de São Gabriel, demora-se dois dias de viagem e gasta-se cerca de 1.500 euros em gasolina entre ida e volta. Por isso, quando faço essas viagens, costumo passar duas ou três semanas para poder visitar o maior número possível de comunidades.

Graças a Deus, nas comunidades estão presentes o catequista e o coordenador da comunidade. O primeiro prepara as pessoas para receberem os sacramentos e dominicalmente preside a Celebração da Palavra. Mas não só isso, pois muitas comunidades têm celebrações diárias pela manhã para fazer oração, ouvir o Evangelho do dia com um pequeno comentário, cantos..., para depois fazer uma refeição em comum, compartilhando o que cada um trouxe, antes que as crianças vão para a escola e os adultos para o trabalho no campo.

Estas aldeias são muito parecidas com as primeiras comunidades cristãs, onde tudo era posto em comum, reuniam-se diariamente para ouvir a Palavra de Deus, rezar, distribuir as tarefas. Podemos dizer que os índios conservam valores tradicionais que são profundamente cristãos.

Um deles é o “ayuri”, trabalho comunitário ao qual dedicam ao menos um dia por semana, fazendo aquilo que a aldeia necessita, após ter sido decidido comunitariamente. Esses dias também podem ser dedicados a ajudar alguma família que, por motivo de doença, necessita desse trabalho comunitário.

Outro elemento é a “quinhapira”, que é um cozido de peixe com pimenta, mas que é sinônimo das refeições em comum, de compartilhar os alimentos. Eles gostam de comemorações. Quando chega o padre ou o bispo, todos trazem alimentos para comer comunitariamente depois da celebração, permanecendo durante horas conversando com alegria, contando histórias, piadas, desejosos de que o bispo conte como está a vida da Igreja, fazendo muitas perguntas. Poderíamos dizer que a “quinhapira” é a colocação em comum dos alimentos que eles fazem com a maior naturalidade, dando o que cada um tem de melhor.

Quando sabem que o padre ou o bispo vai visitar a aldeia, naquela noite os homens vão pescar ou caçar para ter alimento abundante. Para eles é motivo de tristeza não ter o que oferecer nestes momentos de refeição comunitária.

Outra coisa interessante, e que do meu ponto de vista é original dos povos do Rio Negro, são os casamentos interétnicos, o que amplia as relações de parentesco e faz com que as crianças conheçam duas culturas e línguas diferentes: nos primeiros anos com a mãe e mais tarde com o pai. O fato de viver na fronteira com a Colômbia e a Venezuela faz com que aprendam o espanhol a partir do contato com os parentes que moram do outro lado. Nossos indígenas são poliglotas, e, de fato, no município de São Gabriel da Cachoeira existem três línguas indígenas que são cooficiais junto com o português: a língua tukano, baniwa e nheengatu.

A partir do que você está dizendo, existem muitas coisas que a Igreja de São Gabriel da Cachoeira pode contribuir para a Igreja universal, como é o sentido de comunidade, a predisposição para a partilha, a valorização do sagrado cada dia. O que mais a diocese e a Igreja da Amazônia podem contribuir para a Igreja universal?

Um padre indígena salesiano, originário da nossa diocese, ordenado há 21 anos, está escrevendo um livro cujo título adotamos como princípio de prática pastoral: “A Boa Nova das culturas indígenas acolhe a Boa Nova de Jesus”. O Concílio Vaticano II nos diz que o Espírito Santo chega antes que o missionário e que cada cultura tem a “Semina Verbi”, a Semente da Palavra de Deus que está ali, pois todos fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Cada povo com sua língua, cultura e tradições mostra algo dessa imagem e semelhança de Deus.

Ultimamente, realizamos jornadas intensivas de catequese indígena para resgatar esses valores e mostrar a relação que eles têm com o Evangelho. Os indígenas têm os pajés e aqueles que abençoam as crianças recém nascidas e que dão um nome indígena ao que acaba de nascer. Antigamente, os missionários proibiram essa prática, mas eles clandestinamente continuaram a fazê-lo. Esse gesto tem um grande valor, pois, ao receber o nome, a criança assume sua identidade indígena, com as características próprias de cada etnia. Depois, no momento do batismo, passa a fazer parte do Povo de Deus, a Igreja, que engloba todas as raças e culturas. Atualmente, no momento da confirmação estamos recuperando o nome indígena junto com o nome de batismo, fazendo-lhes ver que nesse momento estão assumindo sua identidade indígena e que ao mesmo tempo participam de uma comunidade maior, que é a Igreja, a família dos filhos de Deus, mas sem perder sua originalidade, sua identidade, sua cultura.

As práticas próprias dos indígenas, como o trabalho comunitário, a “quinhapira” ou o momento de partilha dos bens, a solidariedade que existe na comunidade é uma expressão da forma de vida dos primeiros cristãos, estabelecendo uma relação entre essas práticas tradicionais e o Evangelho. A partir disso se preparam os textos para a catequese nos quais se recupera esses valores, que são iluminados pelo Evangelho e que não foram trazidos pelos missionários. Às vezes, os próprios missionários dificultaram a vivência desses valores, chegando inclusive a demonizar essas práticas. Agora estamos vivendo outra época e eles se sentem felizes quando percebem que suas originalidades são valorizadas e como isso tem a ver com a Boa Nova de Jesus.

Você falou sobre os catequistas e os coordenadores das comunidades. Em uma diocese de 293 mil quilômetros quadrados, com tantas comunidades disseminadas em lugares tão distantes, qual é o papel dos leigos na vida cotidiana nas comunidades?

É fundamental, pois se não fosse pelos catequistas que evangelizam as comunidades, o cristianismo não se teria mantido. Houve uma época em que a presença dos salesianos aqui foi muito grande. Hoje temos 19 padres – eles chegaram a ser 60 –, mas sempre se preocuparam com a formação dos catequistas. Atualmente, os padres conseguem chegar às comunidades quatro vezes por ano, e, às vezes nem isso, mas quando visitam a comunidade são os catequistas que dizem quem está preparado para receber os diferentes sacramentos.

Também se deve aos salesianos a educação escolar, pois o Estado esteve praticamente ausente até 1990, e eles cuidaram da educação e da saúde. De fato, São Gabriel da Cachoeira, apesar de ser o município mais distante do Amazonas, é aquele que tem o menor índice de analfabetos. Os indígenas foram despertados para a cultura e o saber.

Em uma pequena homenagem que escreveu após a morte de seu antecessor, dom José Song Sui Wan, assinava como “bispo da floresta”. O que significa a selva amazônica na vida das pessoas, da Igreja, de um bispo da Amazônia?

Considero uma graça imerecida poder estar aqui na selva amazônica e viver com os povos indígenas. Resisti muito para ser bispo daqui, mas se, finalmente, aceitei foi porque creio que temos uma dívida social imensa com os povos indígenas. Eu sou branco, e o que os brancos cristãos fizeram com os povos indígenas? Massacre, genocídio, roubaram, foram tratados como selvagens, escravizados, e até hoje existem enormes preconceitos contra os povos indígenas.

Sinto-me como alguém que está aqui para pagar uma dívida histórica, social, imensa com os povos indígenas. Para mim, é uma graça o fato de ser acolhido por eles, o que faz que me sinta em casa, à vontade, e percebo que há uma grande sintonia entre nós. Sinto-me feliz em poder prestar esse serviço aos povos indígenas.

Aqui, a gente precisa fazer um pouco de tudo, buscando objetivos comuns com todos os que aqui estão. Neste sentido, cabe destacar que nasceu aqui na diocese o Fórum Interinstitucional, do qual participam as diferentes instituições e organismos que se fazem presente na região para enfrentar os problemas. A partir de uma reflexão comum buscam-se saídas, cada um dentro do seu campo de atuação.

Também se pode destacar a FOIRN (Federação de Organizações Indígenas do Rio Negro), que agrupa mais de 90 associações indígenas e é considerada uma organização exemplar, o ISA (Instituto Socioambiental) com professores que vêm da USP, antropólogos, linguistas, agrônomos, que passam meses investigando nas comunidades com o objetivo de resgatar os valores, revitalizar as línguas, tendo publicado mais de 100 livros sobre diversos assuntos da nossa região.

Também há pessoas que vêm para ajudar na melhoria da alimentação. Pensa-se equivocadamente que a Amazônia é muito rica, quando na realidade o solo desta região é arenoso e árido e não produz muito mais que mandioca, que é o produto que os índios sabem cultivar, conhecendo mais de 300 espécies de mandioca e as propriedades que cada uma tem. De fato, esse é o pão de cada dia dos indígenas. Também se produzem muitas frutas como açaí, graviola, cupuaçu, abacaxi, banana, mamão... e que também são a base da alimentação dos índios, pois a pesca nesta região é pouca. De fato, o Rio Negro é chamado de “rio da fome”, pois a acidez de suas águas e a abundância de pedras e corredeiras diminuem a presença de peixes.

Nos próximos meses deve ser publicada a nova encíclica do Papa Francisco sobre a ecologia? Em que medida isso pode ajudar a Igreja e o mundo, pois o Papa converteu-se em uma referência mundial ao descobrir a importância da preservação do meio ambiente e em especial da Amazônia, considerada o pulmão do mundo?

Estamos felizes pelo fato de que dom Erwin Kraütler tenha sido convidado pelo Papa para dar sua contribuição. Em uma visita ao Papa, sabendo que estava preparando este texto, dom Erwin pediu ao Papa que os diferentes povos da Amazônia fossem ouvidos, com o que o Papa concordou imediatamente. Ninguém está melhor preparado e autorizado do que dom Kraütler, que está há mais de 40 anos na Amazônia, que foi presidente do CIMI durante quatro mandatos, para dar essa contribuição.

Os povos indígenas são mestres da ecologia, pois vivem há milênios nesta região e se adaptaram a este lugar onde a sobrevivência é muito difícil, assumindo uma forma de vida que preservou a natureza e os converte em exemplo de ecologia.

Há três anos, o IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional) declarou a forma de cultivar dos povos indígenas como patrimônio imaterial do Brasil, pois a forma como eles cultivam e conseguem sua sobrevivência há tantos anos, sem devastar o meio ambiente, é um exemplo de preservação ambiental.

Esta encíclica do Papa vai servir para que se enfrente o problema da ecologia, da justiça social, da pobreza, que são os mais alarmantes do mundo de hoje. Em relação à Amazônia, vai ajudar para que o mundo reconheça a importância desta reserva que ainda existe e que não pode ser destruída, pois já destruiu mais da conta.