Dom Samuel Ruiz, no coração do povo indígena

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21 Fevereiro 2011

Aos 86 anos, o Mons. Samuel Ruiz García – bispo de Chiapas (México), sucessor "vários séculos depois" de Bartolomeu de Las Casas, cujo testemunho e defesa dos habitantes originários destas terras constituíram para ele uma fonte de inspiração – nos deixou.

O artigo é de Gustavo Gutiérrez e está publicado no sítio espanhol Eclesalia, 22-02-2011. A tradução é do Cepat.

Em abril de 1968, aconteceu em Melgar (Colômbia) uma reunião sobre a tarefa missionária da Igreja; era uma baliza na estrada rumo à Conferência de Medellín (agosto-setembro de 1968). O encontro foi organizado pelo Departamento de Missões do CELAM, presidido pelo Mons. Gerardo Valencia (pastor de uma diocese "Bem-aventurada, Colômbia" com uma ampla população afro-descendente). Dele participou ativamente um jovem bispo, Samuel Ruiz. João XXIII e o Concílio, de que participou, haviam despertado nele, um homem de formação clássica e acadêmica, inquietudes que levaram a ver de modo novo a crua realidade de pobreza e exclusão dos indígenas aos quais havia sido enviado como pastor em 1959.

Mas Melgar o ajudou a considerar as coisas a partir de uma perspectiva latino-americana e libertadora. Mais tarde, e em diversas ocasiões, evocaria, com simplicidade, o que essa reunião, viva e fecunda, havia significado para ele (e na verdade para todos os que compartilhamos essa experiência). Depois de analisar a realidade social e eclesial desse tempo e de considerá-la a partir da fé, as conclusões de Melgar, sobre os povos indígenas, terminam formulando a esperança de que "a presença de Cristo, Verbo Encarnado, nas populações da América Latina e a ação do Espírito nelas" deem lugar a "uma primavera que revitalize a Igreja na América Latina neste momento de mudanças e de opção histórica".

A maior parte dos participantes dessa reunião missionária esteve em Medellín e contribuiu para que a Conferência recolhesse muitas intuições das conclusões de Melgar. Samuel fez uma colocação no início da Conferência de Medellín na qual insistiu em uma delas. Pediu "uma especial consideração sobre a situação dos indígenas no continente Latino-Americano", e advertiu que, caso contrário, "seguirão se acumulando os séculos sobre este vergonhoso problema que poderia muito bem ser chamado de fracasso metodológico da ação evangelizadora da Igreja na América Latina".

Samuel enfrentou com tesão e criatividade a situação que denunciava nesse conclave continental. Mais de 45 anos de sua vida foram consagrados à variada e numerosa população indígena de sua diocese. O fez com proximidade e amizade, compreendendo e valorizando suas culturas, aprendendo suas línguas, defendendo seus direitos, propondo um Evangelho de amor e justiça, ordenando indígenas como diáconos casados para servirem os seus povos, sensível ao sofrimento de povos secularmente maltratados e marginalizados. Para tudo isso, trabalhou sempre em equipe, soube rodear-se de leigos, religiosas e sacerdotes com quem estudava a realidade humana e social em que se encontravam e avaliava em reuniões diocesanas os projetos pastorais que compartilhavam. Trata-se, sem dúvida, de uma das experiências pastorais mais ricas que se fizeram no continente neste campo.

Hoje, contudo, a solidariedade com os pobres e insignificantes não pode se limitar à, sempre necessária, ajuda imediata; deve, além disso, assinalar e denunciar as causas da situação em que vivem. Medellín propôs isso com firmeza e Samuel não temeu colocá-lo em prática. E como tantas vezes ocorreu, entre nós, isso lhe granjeou incompreensões, hostilidades e, em alguns momentos, maus-tratos. Apesar da situação dolorosa, Samuel viveu como testemunha da paz, mas com a convicção de que ela só pode se estabelecer sobre a justiça social, o respeito aos direitos humanos e a igualdade na diversidade.

Em 1979, Samuel convocou em Chiapas, em coerência com suas opções e preocupações, um encontro sobre "Movimentos Indígenas e Teologia da Libertação". Participaram líderes indígenas, bispos, agentes pastorais, teólogos de diferentes países do continente e de diferentes regiões do México. A reunião começou com relatórios sobre a situação social e pastoral de cada lugar. A isso seguiu uma interessante reflexão teológica sobre um tema cada vez mais presente, os anos o amadureceram, mas não deixavam de ser primeiros passos em um assunto de grande importância.

Ainda que a dedicação maior de Samuel fosse em sua zona e nos povos que, com afeto e apreço o chamavam Tatic, seu trabalho se estendeu ao seu país e, inclusive para além dele. Prova disso é a generosa acolhida, em Chiapas, dos refugiados guatemaltecos que deixavam para trás uma situação de abusos e morte, assim como, uma vez bispo emérito, como membro ativo e representativo de associações de solidariedade internacional e defesa dos direitos humanos, especialmente na América Central. Acrescentemos o papel que exerceu, comprometido com a justiça como fundamento da paz "mediação nem sempre bem compreendida por todos", no difícil momento do levantamento do Exército Zapatista de Libertação Nacional.

Dom Samuel era um homem livre, de uma profunda liberdade evangélica. Em seu funeral, outro grande pastor, Mons. Raúl Vera, dizia dele: "Com toda a verdade vemos que até o final de sua vida se conservou como um autêntico filho de Deus por seu trabalho pela paz, que nasce da justiça e do amor".

 

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