A Igreja autóctone de Samuel Ruiz começa a se concretizar em Chiapas

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Por: André | 09 Abril 2015

Em San Cristobal de las Casas, em Chiapas (México), a concretização de uma Igreja autóctone, tão sonhada pelo ex-bispo Samuel Ruiz, começa a tomar forma.

 
Fonte: http://bit.ly/1aN2tbc  

A reportagem é de Nancy Caouette e publicado por La Croix, 07-04-2015. A tradução é de André Langer.

Quatro anos após a morte do pai, reverenciado na região, um número crescente de autóctones escolhem servir a Igreja na esperança de melhorar as condições de vida de milhões de ameríndios.

Como todos os domingos, um padre é ajudado por leigos autóctones na celebração de uma missa em tzotzil, uma das línguas maias, na pequena igreja dominicana de São Juan Diego. Vítimas da intolerância religiosa, milhares de católicos expulsos de seus vilarejos moram nesta paróquia.

“Houve várias ondas de expulsões ao longo dos últimos 30 anos. Esta igreja, nós mesmos a construímos para continuar a praticar a nossa religião”, conta Manuel Hernández, um leigo autóctone que aspira a tornar-se diácono permanente após 16 anos.

O pai de todos

O homem de 60 anos, que veste uma túnica tradicional branca, sorri ao ouvir a invocação do nome de Samuel Ruiz, o bispo chamado em tzotzil de Tatic, o pai de todos. “Ele nos ajudou muito. A Bíblia hoje está traduzida em nossa língua. Tatic Samuel compreendeu que a Palavra de Deus é importante para nós, mas que ela deve ser compaginada com a nossa cultura, os nossos ritos e as nossas crenças”, diz.

Chiapas, o Estado menos católico do México

Entre 1959 e 2000, dom Samuel Ruiz, bispo de San Cristobal de las Casas, assentou as primeiras pedras de uma Igreja autóctone em Chiapas. A chegada das escrituras bíblicas à cultura e aos ritos autóctones levaria, segundo ele, à melhoria das condições de vida e ao respeito dos direitos dos autóctones de sua diocese.

Muitos bispos mexicanos, no entanto, reprovaram suas ideias “marxistas e reformistas”, denunciando severamente a ordenação de 400 diáconos autóctones, a maioria homens casados. Tatic Samuel justificou essas nomeações pelo fato de que os ameríndios tinham pouca confiança nas autoridades religiosas celibatárias.

“É um trabalho que era necessário ser feito como Igreja. Dom Samuel lutou de maneira extraordinária para que os autóctones reencontrassem sua dignidade e exigindo o respeito de seus direitos. Esse trabalho, nós não vamos abandonar”, destaca o atual bispo de San Cristobal de las Casas, dom Felipe Arizmendi, que serve a Igreja de Chiapas há um quarto de século.

Diáconos

Com a saída de dom Samuel em 2000, a Santa Sé proibiu a ordenação de diáconos autóctones, temendo que essas ordenações fossem colocar em questão o celibato sacerdotal. Mas em maio de 2014, o Papa Francisco deu seu aval a dom Felipe Arizmendi para que novos diáconos autóctones sejam ordenados progressivamente.

“Há, atualmente, 329 diáconos permanentes na diocese. Eles parecem talvez muito numerosos, mas ainda estão em falta: apenas 20 das 57 paróquias da diocese contam com diáconos autóctones e há apenas oito padres indígenas para servir dois milhões de habitantes majoritariamente autóctones”, acrescenta o bispo que prevê a ordenação de nove novos diáconos até novembro.

Jovens fascinados com o discurso do Papa

Embora poucos batizados e casamentos católicos sejam celebrados na diocese de San Cristobal de las Casas, Felipe Arizmendi afirma já colher os frutos de mais de 40 anos de esforços de instauração de uma Igreja autóctone. “Atualmente, 39 dos 69 seminaristas da diocese são autóctones. Os jovens estão fascinados com o discurso do Papa e da Igreja, o que nos alegra e nos enche de esperança. No tocante aos sacramentos, é um processo longo, mas estamos no caminho certo”.

Com a finalidade de aproximar esses leigos e esses religiosos da Igreja autóctone dos habitantes das zonas rurais mais afastadas, dom Arizmendi e o Pe. Pedro Humberto Arriaga fundaram, há três anos, a Rádio Tepeyac, nome da colina em que a Nossa Senhora de Guadalupe, padroeira do México, apareceu a São Juan Diego Cuauhtlatoatzin, um humilde ameríndio.

“Além de orações e de programas de formação cristã transmitidos em línguas autóctones, tratamos de situações de vulnerabilidade extrema presentes no território, como a migração, os deslocamentos forçados e a violência. Relatamos as palavras do Papa Francisco e fazemos intervir pessoas que procuram melhorar a sorte dos mais pobres”, explica o Pe. Pedro Humberto Arriaga.

“A rádio nos permitiu criar um novo centro de formação cristã em Chamula, um território em que muitos zapatistas e católicos foram mortos, raptados e forçados ao êxodo nos anos 1990. Nós não esperávamos que os leigos autóctones da nossa rádio fossem convidados pelos ouvintes para visitarem suas casas”, alegra-se o jesuíta.

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