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Hélder e Luciano: a memória de dois bispos "pobres e servidores"

Esta sexta-feira, 27 de agosto, marca os 11 anos de falecimento de Dom Hélder Câmara, arcebispo emérito de Olinda e Recife de 1964 a 1985, e os 4 anos de falecimento de Dom Luciano Mendes de Almeida, presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB de 1987 a 1994.

Em um mesmo dia, a Igreja Católica brasileira se lembra de dois homens que deixaram um legado de colegialidade, abertura ao novo e entrega pelos mais pobres.

Dom Hélder Pessoa Câmara OFS (1909-1999) foi um dos fundadores da CNBB, em 1952, tendo sido seu secretário geral até 1964. Também foi um dos articuladores e fundadores do Conselho Episcopal Latino-Americano – CELAM, fundado em 1955. Participou ativamente no Concílio Ecumênico Vaticano II e foi um dos propositores e signatários do Pacto das Catacumbas, documento assinado por cerca de 40 padres conciliares no dia 16 de novembro de 1965, que assumiram testemunhar uma "Igreja serva e pobre". Em 1964, foi designado para ser arcebispo de Olinda e Recife, em Pernambuco, múnus que exerceu até 1985. Morreu aos 90 anos, em Recife, no dia 27 de agosto de 1999.

"Olinda e Recife fizeram, por primeira vez, de Dom Hélder o pastor com inteira responsabilidade, de uma porção concreta do povo de Deus, no coração do Nordeste, em terras de muita pobreza, mas também de tradição, lutas e esperança", afirma o teólogo e historiador da Igreja José Oscar Beozzo, em entrevista à IHU On-Line. E, no Concílio Vaticano II, "Dom Hélder cumpriu um duplo papel, de animador e incentivador de propostas e iniciativas corajosas e proféticas, e de articulador incansável da maioria conciliar", explica Beozzo.

Exemplo disso foi a celebração eucarística, no dia 16 de novembro de 1965, poucos dias antes da clausura do Concílio Vaticano II, de cerca de 40 Padres Conciliares nas catacumbas de Domitila, em Roma, pedindo fidelidade ao Espírito de Jesus. Após essa celebração, firmaram o "Pacto das Catacumbas". Esse Pacto, continua Beozzo, "se desdobrava em 13 compromissos assumidos conjuntamente pelos seus signatários no sentido de viverem pobremente, quanto à habitação, vestuário, alimentação e meios de locomoção". Isso explica porque Dom Helder, em sua aposentadoria, foi viver pobremente na sacristia da Igreja das Três Fronteiras, no Recife, "vestindo sempre sua surrada batina branca, com apenas uma cruz de madeira, como insígnia episcopal", conta Beozzo.

Por suas posturas e ações na Igreja e na sociedade, Dom Hélder recebeu 32 títulos de doutor honoris causa por diversas universidades brasileiras e estrangeiras, como dos Estados Unidos, Bélgica, Suíça, Alemanha, Holanda, Itália e Canadá. Recebeu o Prêmio Martin Luther King, nos Estados Unidos. e o Prêmio Popular da Paz, na Noruega, e diversos outros prêmios internacionais. Foi indicado quatro vezes para o Prêmio Nobel da Paz, sem nunca tê-lo recebido.

Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida SJ (1930-2006) ingressou na Companhia de Jesus em 1947, tendo estudado na Casa de Formação dos Jesuítas de Nova Friburgo e na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma. Fez seu doutorado em Filosofia na Universidade Gregoriana, também em Roma. Em 1976, foi nomeado pelo Papa Paulo VI bispo auxiliar de São Paulo, função que desempenhou até 1988, juntamente com seu cargo de responsável pela Pastoral do Menor. Em 1988, foi nomeado arcebispo de Mariana, Minas Gerais. Foi secretário-geral da CNBB de 1979 a 1986, e presidente de 1987 a 1995. Na Cúria Romana, foi membro da Comissão Pontifícia Justiça e Paz de 1996 a 2000) e membro da Comissão do Secretariado para o Sínodo de 1994 a 1999. Foi vice-presidente do Celam de 1995 a 1999.

Em entrevista concedida à IHU On-Line, em 2005, Dom Luciano nos deixou um testamento de fé e de luta por meio de suas palavras. "Minha vida toda é muito feliz", disse. "Uma das coisas que Deus me faz compreender – afirmou – é o valor da história e da consciência. O processo do Plano Divino de Salvação se faz em todos os momentos, tudo tem uma carga axiológica, um valor especial".

E destacou três momentos felizes de sua vida: o primeiro "é o contato com o sofrimento humano, perceber que a história é muito marcada por aspectos positivos e também negativos". Segundo Dom Luciano, penetrar, comungar e partilhar esse sofrimento "proporciona uma carga existencial muito grande".

Por outro lado, relatando sua experiência de vida nos países da América Central, na década de 80, a serviço do Celam, afirmou que essa experiência despertou sua consciência da América Latina. "É a situação de populações sofridas, esmagadas, incompreendidas, empobrecidas que também desperta uma grande vontade de trabalhar e ajudar", disse. "Poder comungar com essas realidades é um aspecto que me ensinou a perceber que Deus não tira as dificuldades, mas ajuda a superá-las", continuou.

Por fim, "uma alegria maior, quase pontualizada, é a alegria de ver a recuperação de certas pessoas, seja da dependência química, da dependência de drogas, seja de um processo de conversão pessoal. Isso dá muita alegria para quem tem a missão de querer ajudar os outros a reencontrar a paz interior". Tudo isso, resumiu, revela "a alegria de ser um pequeno instrumento da paz de Deus".

"Dom Luciano era muito inteligente, muito capaz, era um homem excepcional", testemunhou Dom Jayme Chemello, presidente da CNBB na época do falecimento de Dom Luciano, em entrevista à IHU On-Line. Para ele, a bondade e o amor que ele tinha por todos eram suas características mais marcantes. "Ele amava a todos, por mais simples que uma pessoa fosse. Ele gastava o seu tempo em favor de cada pessoa que se aproximasse dele", resumiu.

Dom Hélder e Dom Luciano, hoje, são exemplos de cristãos convictos, de seres humanos que entregaram suas vidas pela dignidade das pessoas, na humildade e na pobreza do serviço aos mais humildes e mais pobres. Nas palavras de Dom Marcelo Pinto Carvalheira, arcebispo emérito da Paraíba, à IHU On-Line, Dom Hélder – assim como Dom Luciano – foi testemunha de "uma Igreja que se torna solidária com o povo, com as grandes causas do povo, e não uma Igreja distante, querendo impor pequenas normas". Foram defensores, por isso, de "uma posição eclesial, e não eclesiástica", resumiu.

(Reportagem de Moisés Sbardelotto)

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