Missa do Papa para os indígenas em San Cristóbal de las Casas

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Por: André | 17 Fevereiro 2016

Um balanço da visita do Papa Francisco a San Cristóbal de las Casas, em Chiapas, deve centrar-se mais nos gestos do que nas palavras. Sua homilia foi curta, mas seus gestos e os fatos que ocorreram foram mais importantes.

O comentário é de José Luís González Miranda, jesuíta, e publicada por Religión Digital, 16-02-2016. A tradução é de André Langer.

O primeiro fato é a própria visita de um Papa pela primeira vez a San Cristóbal de las Casas. Apesar do crescimento das seitas evangélicas, os rios de gente que desde antes do amanhecer provocavam enormes filas para entrar, mostravam claramente o carinho que já se tem por este Papa. O colorido dos diversos trajes indígenas – diferentes para cada município – assinalava bem o que este dia representava para os povos indígenas. Suas línguas – usadas na missa para as leituras, as orações e os cantos – foram ouvidas mundialmente através dos meios de comunicação.

Acompanhado pelo Pe. Carlos Morfín, que foi pároco de Actuel, lugar tristemente famoso pelo massacre de 22 de dezembro de 1997, nos encontramos às 7h da manhã com um grupo de tzotziles de Actuel que estava há horas na fila sem que ela se mexesse um metro. A extraordinariamente lenta entrada por um dos acessos (o 3) fez com esta fila, que serpenteava por dezenas de quadras, impedisse a entrada de milhares de pessoas que estavam com o ingresso na mão. Entre elas, ficaram fora cerca de cem pessoas indígenas que vinham de muito longe, de Yucatán. Esta desorganização é a principal crítica que este dia recebeu.

O coro tzotzil de Actuel foi o encarregado do canto de entrada com seu famoso “Bem-vindos”. Depois, os cantos foram muito variados e bonitos, pois se revezavam marimbas com mariachis e bandas. Ao ver o Papa com sua casula roxa me lembrei de uma amiga indígena tzotzil, Esperanza, encarregada de confeccionar a casula do Papa com bordados próprios desta etnia. E outro gesto de que gostei foi ver Miguel Moshán, engraxate do parque de San Cristóbal há 30 anos e candidato ao diaconato, subir com sua esposa para fazer um discurso de agradecimento ao Papa por permitir novamente, em 2014, a ordenação de diáconos permanentes indígenas.

Podemos continuar falando de gestos como a oração tradicional indígena, dirigida e de joelhos, ou a dança ritual depois da comunhão. Não era folclore, mas experiência de Deus que faz dançar agradecidos nas celebrações litúrgicas desta diocese.

Também a oração diante do túmulo de Samuel Ruiz é significativa, pelo que representa de reivindicação de um bispo sobre o qual se fizeram cair suspeitas de heterodoxia. A Igreja que ele promoveu, autóctone, libertadora e dos pobres, manteve-se fiel e hoje celebrava sua festa.

Termino com dois sentimentos pessoais: um negativo e outro positivo. Não posso deixar passar uma inquietação que me ficou da missa. Para ser franco, com um Evangelho como este que caiu na segunda-feira 15 – a Parábola do Juízo das Nações – eu teria desejado algumas palavras do Papa sobre a migração centro-americana que chega ao México por essa fronteira sul: “eu era estrangeiro e me acolheste”.

Das seis situações que esse capítulo 25 de Mateus descreve – nus, enfermos, presos, famintos, sedentos e estrangeiros – não apenas a última se aplica aos migrantes. Elas e eles vêm com fome e sede, enfermos e nus despojados pelos assaltos que sofrem e, sem ter cometido crime algum – ser indocumentado é falta administrativa e não crime, segundo a lei de migração do México – são detidos em centros migratórios como o de Tapachula, o maior do continente e semelhante a uma grande prisão para 970 pessoas.

O fato é que, além disso, esse Evangelho fundamenta a fraternidade de que é defensor o Papa Francisco: os que sofrem essas situações são – disse Jesus – “meus irmãos mais pequeninos”. Compreendo que o Papa, em homilias de dez minutos, como as que propõe aos padres, não possa referir-se a toda a realidade. Compreendo também que esta missa de San Cristóbal era para povos indígenas.

Mas, estando no ponto de sua viagem mais próximo da América Central e dessa fronteira, e tendo anunciado antecipadamente que a coleta seria destinada à construção de dois albergues para migrantes – um em nossa paróquia de Comalapa – alguns esperávamos alguma referência a esta tragédia que as pessoas da América Central vivem não apenas ao fugir da violência de seu país, mas ao enfrentar em Chiapas a violência que as políticas migratórias favorecem.

Estas políticas são restritivas, de controle e segurança e não de direitos humanos, porque nesta questão estratégica o México obedece às ordens dos Estados Unidos de não deixar passar aqueles que vêm da América Central. Oxalá, em Ciudad Juárez, onde falará da migração, não fale apenas da fronteira norte. O governo do México não se incomoda com o fato de que o Papa denuncie os maus tratos dos Estados Unidos contra os latinos. Ficaria muito mais incomodado caso o Papa falasse dos maus tratos do México para com os centro-americanos. E em Chiapas ele perdeu essa ocasião.

E agora vai o sentimento positivo: a entrega da Bíblia em língua tzeltal que os jesuítas de Bachajón fizeram ao Papa depois de terem trabalhado desde 1958 em sua tradução, e em uma tradução não literal, mas cultural e dinâmica, na qual os próprios catequistas tzeltales iam traduzindo assessorados por jesuítas, como o irmão Ignacio e Mardonio, já falecidos, ou Eugenio Maurer, presente na missa e com muita vontade de explicar a Francisco como foi feita essa tradução.

Os decretos pontifícios publicados posteriormente, autorizando o uso litúrgico de línguas indígenas como o náhuatl, confirmam um esforço de muitos séculos e de muitas pessoas: a primeira delas a N. Sra. de Guadalupe, que falou em náhuatl a Juan Diego. Cinco séculos de espera. Mas antes tarde do que nunca!

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