Indígenas veem um aliado na voz do papa

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18 Fevereiro 2016

“Queremos que a mensagem do papa Francisco seja realidade, não apenas que erga sua voz. Que se apoie, se respeite e se fortaleça os direitos dos povos indígenas”, pediu nesta cidade do sul do México uma representante do povo misquito.Yuam Pravia, uma misquita hondurenha, participou, no dia13, de um encontro de povos indígenas da América Latina, em San Cristóbal de las Casas, no Estado mexicano de Chiapas, dentro das atividades prévias à visita do papa, que aconteceu no dia 15, a este território com alta população originária.

A reportagem é de Emilio Godoy, publicada por Envolverde/IPS, 16-02-2016. 

Com a encíclica Laudato Si Defendemos os Direitos à Terra, ao Território e às Florestas é o título do encontro de dois dias que fazia referência à primeira encíclica da história dedicada à situação ambiental, publicada por Francisco em junho de 2015. “Queremos resultados tangíveis, que cada país assuma a mensagem papal”, disse à IPS a representante da não governamental Unidade da Miskitia-Moskitia Asla Takanka de Honduras.

Em Honduras e na Nicarágua habitam cerca de 280 mil misquitos. Como todos os povos indígenas, esses habitantes originários lutaram e lutam em defesa de sua identidade, sua cultura, seu território e seus recursos naturais, diante de um modelo de desenvolvimento que agora os marginaliza, depois de sobreviverem ao genocídio dos conquistadores europeus.

Em particular, as terras misquitas estão expostas às lacerações da mudança climática, como chuvas fortíssimas, secas intensas, inundações e elevação do nível do mar, com impacto na produção agrícola e no surgimento de doenças. Por isso os povos originários se identificam com a Laudato Si (Louvado Sejas, em italiano antigo), em que o papa Francisco reflete sobre “o cuidado da casa comum” da humanidade, o planeta.

A encíclica, que toma o título de um cântico de Francisco de Assis, não se refere aos grupos originários, mas reconhece que “falta incorporar a perspectiva dos direitos dos povos e as culturas, e assim entender que o desenvolvimento de um grupo social supõe um processo histórico dentro de um contexto cultural e requer continuado protagonismo dos atores sociais locais a partir de sua própria cultura”.

A carta papal aos fiéis denuncia a contaminação, a exploração insustentável dos recursos naturais e um modelo econômico que acentua a desigualdade, para ressaltar que “nem mesmo a noção de qualidade de vida pode impor-se, mas que deve ser entendida dentro do mundo de símbolos e hábitos próprios de cada grupo humano”.

Com vistas à primeira viagem de Francisco ao México, iniciada na noite do dia 12 e que se prolongará até amanhã, dia 17, cerca de 80 expoentes indígenas de 15 países, da sociedade civil e da academia se reunirão em San Cristóbal para analisar a ligação entre a encíclica e as causas dos povos indígenas.

Era esperado que o argentino Jorge Mario Bergoglio, que adotou o nome de Francisco quando foi eleito pontífice em março de 2013, fizesse referência à situação dos povos indígenas ao visitar esta cidade de mais de 200 mil habitantes, dos quais 66 mil são indígenas, situada a mais de 900 quilômetros ao sul da Cidade do México.

Chiapas, um dos Estados mexicanos com maior pobreza, conta com 13 grupos originários que aglutinam 1,32 milhão de indígenas, de uma população total de 5,1 milhões. Durante as horas que passou em San Cristóbal, o papa celebrou uma missa dedicada às comunidades indígenas e depois almoçou com alguns de seus representantes.

O encontro indígena regional foi convocado pelo Centro de Direitos Humanos Fray Bartolomé de Las Casas, Aliança Mesoamericana de Povos e Florestas, Coordenadoria das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica e Rede Mexicana de Organizações Camponesas Florestais. É a primeira atividade institucional dos povos originários para analisar a Laudato Si e sua ligação com a luta indígena.

No encontro os presentes examinaram temas como proteção de seus territórios e recursos naturais, além dos riscos que enfrentam, como a mudança climática e a indústria extrativa. A encíclica “se aproxima de nossa agenda e nossa doutrina. Já não seria apenas a defesa dos povos indígenas, mas também da Igreja Católica, por uma sociedade mais justa e ambientalmente mais sustentável”, afirmou à IPS, durante o encontro, Jorge Pérez, presidente da Organização Regional dos Povos Indígenas do Oriente do Peru.

Nesse país habitam 54 povos indígenas sobre uma superfície de cem mil quilômetros quadrados com títulos de propriedade e outros cem mil ainda não legalizados. Os territórios nativos peruanos estão ameaçados pela exploração de hidrocarbonos, pelo desmatamento e pela contaminação. Embora as organizações indígenas e seus dirigentes conheçam a encíclica, uma tarefa em andamento é transmitir esse conteúdo às comunidades.

“Temos nos preocupado em como gerar uma conversão profunda nas comunidades com as novas gerações, que não fique só no enfoque de um documento, mas que se viva e se pregue, que se tenha mais força com uma palavra de incentivo”, explicou à IPS o indígena tzetzal Pedro Gutiérrez, do não governamental Instituto de Estudos e Pesquisa Intercultural, baseado em San Cristóbal.

No México vivem 120 milhões de pessoas, das quais aproximadamente 11 milhões são indígenas, divididos em pelo menos 54 povos originários. Com seus pares latino-americanos, os nativos enfrentam discriminação, espoliação de seus recursos naturais e marginalização.Os povos originários querem que Francisco ouça sua reclamação e alimente sua causa, para plasmar o conteúdo da encíclica e não deixá-lo somente em um papel de boas intenções, afirmaram os representantes dos indígenas latino-americanos reunidos na capital de Chiapas.

“Toca consciências de pessoas que não dão importância à nossa luta. Assim teremos mais argumentos para refletir com os que não estão comprometidos com o respeito e o cuidado dos territórios”, ressaltou Pravia.O papa recebeu uma mensagem dos participantes do encontro, com suas reflexões sobre a encíclica e o pedido para acompanhá-los e apoiá-los em suas lutas, como uma maneira direta de defender “a casa comum”.

“Nossa mensagem é de gratidão por se referir aos nossos direitos e conter uma aproximação dos povos indígenas, que esperamos que seja duradoura e efetiva, com metas e objetivos definidos”, destacou Pérez, cuja organização pertence à Associação Interétnica de Desenvolvimento da Selva Peruana.

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