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A comunicação do Papa Francisco e a ''cultura do encontro'': das palavras aos gestos

O “Magistério comunicacional” de Francisco – centrado no diálogo com todos e encarnado em seus sorrisos, abraços, telefonemas, cartas, entrevistas – serve de bússola para encontrar os caminhos, em cada contexto específico, que levem à construção de uma autêntica “cultura do encontro”.

A opinião é do jornalista Moisés Sbardelotto, doutorando em Ciências das Comunicação pela Unisinos e autor do livro E o Verbo se fez bit: A comunicação e a experiência religiosas na internet (Ed. Santuário, 2012). O artigo foi publicado na revista O Mensageiro de Santo Antônio, de novembro de 2013.

Eis o texto.

Desde a sua eleição, o Papa Francisco tem sido um exemplo da íntima ligação entre palavra e gesto, discurso e ação, anúncio e testemunho, reflexão e prática – em suma, um exemplo da autêntica práxis. Assim foi logo na sua apresentação ao mundo como papa, quando convidou a um caminho de “fraternidade, de amor, de confiança” juntos, “bispo e povo”, e subverteu a histórica bênção Urbi et Orbi, primeiro inclinando-se diante do povo para pedir a sua oração. Dessa forma, Francisco reconhece esse “outro” multitudinário que está à sua frente, pessoas diferentes dele mesmo, que também têm algo a oferecer, que demandam uma atitude de escuta, abertura e acolhida. E, ao encerrar a noite, Francisco disse um simples e natural “Boa noite e bom descanso!”, estabelecendo um diálogo direto e humano entre pessoas que compartilham os mesmos desejos e necessidades, como dormir e descansar.

Com gestos e palavras como esses, em menos de um ano de pontificado, Francisco foi revolucionando a comunicação dentro e fora da Igreja. Uma síntese da sua práxis comunicacional pode ser encontrada no tema proposto por ele para a sua primeira mensagem ao Dia Mundial das Comunicações Sociais, a ser celebrado em 2014: “Comunicação a serviço de uma autêntica cultura do encontro”. A ideia da “cultura do encontro” foi abordada pelo papa principalmente em duas ocasiões, em contraponto à “cultura da exclusão”, do “descartável”, da “globalização da indiferença”.

Na missa com o clero e os religiosos presentes na Jornada Mundial da Juventude, no dia 27 de julho, Francisco afirmou: “O encontro e o acolhimento de todos, a solidariedade (...) e a fraternidade são elementos que tornam a nossa civilização verdadeiramente humana. Temos de ser servidores da comunhão e da cultura do encontro”. E, na sua primeira Mensagem para o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, o papa defendeu a cultura do encontro como “a única capaz de construir um mundo mais justo e fraterno, um mundo melhor”.

Tendo em vista o serviço a essa cultura, qual o papel da comunicação? E, a partir do exemplo do papa, quais são as dinâmicas e as lógicas comunicacionais que colaboram com a construção dessa cultura? Retomar seus inúmeros e surpreendentes gestos e palavras renderia uma biblioteca inteira. Aqui, quero me deter sobre quatro momentos-chave que explicitam intuições de Francisco para o agir comunicacional de toda a Igreja, encarnadas no diálogo com todos.

O primeiro deles foi o encontro com os representantes dos meios de comunicação após o conclave, no dia 16 de março. O costume dizia que, ao fim da audiência, o papa deveria conceder a sua bênção aos presentes traçando o Sinal da Cruz. Mas Francisco surpreendeu ao dizer: “Como muitos de vocês não pertencem à Igreja Católica e outros não são crentes, de coração eu dou a bênção em silêncio, a cada um de vocês, respeitando a consciência de cada um, mas sabendo que cada um de vocês é filho de Deus. Que Deus os abençoe!” – e simplesmente levantou a mão direita para se despedir. Assim, somando gesto e ação, Francisco reiterou a necessidade, para uma comunicação realmente humana, de reconhecer a existência de um “outro”, que é totalmente diferente de nós, que não compartilha necessariamente tudo o que somos e pensamos, mas que merece o mesmo respeito de “filho de Deus”.

E a ação evangelizadora da Igreja deve começar justamente a partir do reconhecimento dessa alteridade. Missão, no rastro de Francisco de Assis, é “encontrar, ouvir, dialogar, ajudar, espalhar fé e amor. Sobretudo amor”, disse o pontífice em uma entrevista concedida ao jornal italiano La Repubblica, no dia 1º de outubro. Por isso, “o proselitismo é uma solene bobagem (sciochezza). Não tem sentido”, exclamou. “É preciso se conhecer – continuou Francisco –, se ouvir e fazer crescer o conhecimento do mundo que nos circunda”. Na missa desse mesmo dia, Francisco reafirmou essa ideia: “A Igreja, dizia-nos Bento XVI, não cresce por proselitismo, cresce por atração, por testemunho”.

Um segundo momento foi a carta aberta endereçada ao diretor-fundador do La Repubblica, o jornalista Eugenio Scalfari, personalidade proeminente da intelligentzia italiana e ateu assumido. Em 2013, Scalfari escreveu dois artigos dirigidos pessoalmente a Francisco, questionando alguns ensinamentos e posicionamentos da Igreja. Em um gesto histórico, o papa respondeu ao jornalista com uma carta publicada no próprio jornal. Nela, retomando o Concílio Vaticano II, Francisco afirmou que “chegou agora o tempo (…) de um diálogo aberto e sem preconceitos que reabra as portas para um sério e fecundo encontro” entre a Igreja e a cultura contemporânea. Para poder estabelecer tal diálogo, segundo o papa, é preciso reconhecer a verdade não a partir de sua dualidade absoluta/relativa, mas sim como relacional: para a fé cristã, a verdade é “o amor de Deus por nós em Jesus Cristo. Portanto, a verdade é uma relação!”, afirmou.

Só a partir desse reconhecimento é possível estabelecer um “diálogo sereno e construtivo” com a cultura, sem aprioris que o engessem e o transformem em monólogo. Assim, a alteridade, a diversidade e as verdades do outro ajudam a descobrir a identidade, a unidade e a verdade do nosso próprio ser. Na conclusão, o papa convida o jornalista a acolher as suas reflexões “como a resposta tentativa e provisória, mas sincera e confiante, ao convite de fazer um trecho de estrada juntos”. E assim é toda comunicação: tentativa e provisória, visto que não controlamos nem o nosso próprio discurso – que sempre é posto em circulação em um caldo cultural que nos inclui, mas nos supera –, nem o nosso interlocutor – que sempre é um “outro” por excelência, que age de forma ativa, produtiva e criativa, jamais passiva, ao que lhe oferecemos.

Um terceiro momento foi a sua longa entrevista concedida às principais revistas jesuítas do mundo, publicada no dia 19 de setembro. Nela, Francisco reconhece que “o homem, com o tempo, muda o modo de perceber a si mesmo”, e assim “também as formas de expressão da verdade podem ser multiformes, e isto é necessário para a transmissão da mensagem evangélica no seu significado imutável”. É necessária, portanto, uma comunicação que saiba atualizar e diversificar seus meios e mediações diante de cada novo contexto e situação. Por isso, afirmou, em termos eclesiais, “a primeira reforma deve ser a da atitude. Os ministros do Evangelho devem ser capazes de aquecer o coração das pessoas, de caminhar na noite com elas, de saber dialogar”. E esse diálogo deve ser estabelecido “com todos, mesmo com os mais distantes e os adversários”.

Um quarto momento que gostaria de destacar foi o discurso do papa na Plenária do Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais (PCCS), no dia 21 de setembro. Diante dos principais responsáveis pela comunicação da Igreja Católica mundial, Francisco reiterou a comunicação não como um “setor” da Igreja, mas sim como uma “dimensão existencial”. Nesse sentido, é preciso uma Igreja que saiba “dialogar com o homem de hoje e levá-lo ao encontro com Cristo”. E esse desafio não é de ordem tecnológica: “O problema fundamental não é a aquisição de tecnologias sofisticadas, embora necessárias para uma presença atual e válida” da Igreja na cultura atual.

“No contexto da comunicação – afirma Francisco –, é preciso uma Igreja que consiga levar calor, inflamar o coração”. Pois “a Igreja é mãe”, como disse o papa ao jornalista brasileiro Gerson Camarotti. “Nem você nem eu conhecemos uma mãe por correspondência. A mãe dá carinho, toca, beija, ama”. Assim deve ser a Igreja, e a sua práxis comunicacional deve se encarnar na realidade, na ação e na relação com o outro, pois “comunicação pela metade não faz bem”. A questão é sermos e reconhermo-nos como coartífices de uma comunicação em que o verdadeiro Artífice, como disse Francisco à Plenária do PCCS, é “o Deus em quem acreditamos, um Deus apaixonado pelo homem”, que “quer se manifestar através dos nossos meios, ainda que pobres, porque é Ele que opera, é Ele que transforma, é Ele que salva a vida do homem”.

O “Magistério comunicacional” de Francisco – centrado no diálogo com todos e encarnado em seus sorrisos, abraços, telefonemas, cartas, entrevistas – nos desafia e nos serve de bússola para encontrar os caminhos, em cada contexto específico, que levem à construção de uma autêntica “cultura do encontro”.

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